Por Marcelo Minka
Um repórter, Jô Soares, se não me engano, perguntou para Amyr Klink qual a cena mais emocionante que ele tinha visto na sua aventura, e ele respondeu que foi ter visto o próprio rosto refletido no olho de uma baleia. O maior risco de 100 Dias, adaptação do livro Cem Dias Entre Céu e Mar (1985), está na facilidade com que o cinema transforma um feito humano extraordinário em uma história de superação domesticada. Em 1984, Amyr Klink cruzou sozinho, a remo, o Atlântico Sul, da Namíbia à Bahia, durante 100 dias. O acontecimento dispensa adjetivos. A versão dirigida por Carlos Saldanha chega aos cinemas de Londrina com a obrigação de fazer algo mais difícil do que reconstruir a travessia, precisa encontrar o que há de humano por trás da façanha.
Filipe Bragança sustenta o protagonista num filme que aposta na dimensão visual do mar, na pequenez de um barco diante de uma paisagem sem fim e no esforço físico de permanecer em movimento. A natureza não é cenário ilustrativo, mas força indiferente, incapaz de se comover com determinação, coragem ou biografia. O oceano não sabe quem Amyr Klink é. Essa indiferença deveria ser o centro dramático da narrativa.

100 Dias peca no conflito pai e filho
Em vez de confiar plenamente nesse confronto, o roteiro de 100 Dias procura no conflito entre pai e filho uma explicação para a decisão de partir. A escolha é compreensível como construção dramática, mas limita a complexidade do personagem. Enquadrar uma travessia dessa magnitude como resposta à desaprovação paterna reduz o desconhecido a uma psicologia familiar previsível e transformar risco em terapia é a forma mais confortável de neutralizá-lo.
Carlos Saldanha conhece o espetáculo, e a experiência em animação se manifesta no domínio de escala e imagem. Seu primeiro longa com atores em cena, porém, comprova que precisão técnica e profundidade dramática não são sinônimos. 100 Dias sabe mostrar o quanto o barco é pequeno, mas tem dificuldade em mostrar o que acontece com um homem quando deixa de haver plateia, testemunhas e certezas.
Há, ainda assim, um mérito importante. Em uma indústria que costuma procurar aventuras e personagens fora do país, 100 Dias coloca uma experiência brasileira no centro de uma produção de grande escala. Não precisa imitar Hollywood para justificar sua existência. O Brasil tem histórias suficientes para sustentar um cinema de aventura próprio. O desafio é não confundir valorização nacional com imunidade à crítica.
Amyr Klink atravessou o oceano porque transformou planejamento, disciplina e conhecimento dos próprios limites em ação, um feito extraordinário. 100 Dias tem imagens à altura do feito, mas um olhar dramático mais seguro do que corajoso. O homem foi mais longe do que o filme.
Marcelo Minka

Mestre em Antropologia Visual (UEL), artista visual e pesquisador, transita entre o pensamento e o fazer, inspirado pelas viagens, pelos sabores, pela natureza e pelas culturas que encontra pelo Brasil e pelo mundo. Cinéfilo nas horas vagas.
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