Sou jovem, bonita e com futuro, mas me sinto triste

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Por Telma Elorza

“Oi, será que você poderia me ajudar? Tenho 17 anos, estudo e trabalho como Menor Aprendiz. Mas me sinto constantemente triste e desanimada, parece que minha vida não tem perspectivas, que estou perdida. Tudo mundo me fala que não tenho motivos para me sentir assim, que sou jovem, bonita, com um grande futuro pela frente, mas não consigo deixar de sentir isso. O que posso fazer para mudar, ser feliz?”

Ô, minha querida. Saiba que você não está sozinha. Existe uma enorme injustiça que nós, adultos, costumamos cometer com os jovens. Nós achamos que juventude é uma espécie de passe livre para a felicidade. “Você é tão nova, tem a vida inteira pela frente, é bonita, tem saúde, um emprego. Qual motivo de estar triste? Não precisa disso”! Já ouviu tudo isso, né? Geralmente pronunciado por um adulto.

Como se a tristeza precisasse pedir autorização para existir.

Se tivesse que resumir em uma frase, eu diria que a maior angústia dos jovens de hoje é a sensação de que eles precisam dar conta de tudo muito cedo. Com se tivessem a obrigação de serem felizes, bonitos, bem-sucedidos populares, produtivos e ter o futuro resolvido antes mesmo de descobrirem quem são. Pelo menos é isso que as redes sociais passam.

A ciência mostra que essa angústia se manifesta principalmente como ansiedade, tristeza persistente, medo do fracasso e sensação de inadequação. Não é um problema único, mas um conjunto de pressões que se somam.

A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), de 2024, publicada em março de 2026, divulgada pelo IBGE, encontrou números preocupantes entre adolescentes brasileiros, com idades entre 13 a 17 anos:

  • 30% se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes;
  • 42,9% se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados frequentemente;
  • 18,5% pensam sempre ou na maioria das vezes que a vida não vale a pena ser vivida;
  • Cerca de 30% já tiveram vontade de se machucar de propósito;
  • Muitos relatam que sentir que ninguém se preocupa com eles ou que seus pais não compreendem suas preocupações.

Portanto, veja bem, o que você está sentido é algo comum na sua geração e não faz de você ingrata, fraca ou problemática.

Aos 17 anos, existe uma cobrança enorme da sociedade para que os jovens já saibam quem é, qual faculdade seguir, como será o futuro e até qual o seu propósito no mundo. É muita coisa, muita responsabilidade para quem ainda é praticamente uma criança, com sonhos diversos e até contraditórios.

Sua geração cresceu com a internet apontando que você pode ser tudo o que quiser, como, por exemplo, ser uma grande influencer, ganhar milhões com publis e não precisar nunca se preocupar em ser CLT. Nossa, parece bonito, né? Mas também é um peso enorme.

Porque a realidade não é assim.

Ser jovem sem ter a obrigação do que quer

Há 20 anos, um jovem da sua idade podia não saber o que queria da vida, quando fosse adulto, sem nenhum constrangimento. Hoje, ele vê no celular pessoas da mesma idade ou até mais jovens, ganhando dinheiro, viajando pelo mundo, passando de primeira no primeiro vestibular ou abrindo empresas bem-sucedidas. E detalhe: sendo bonitos e felizes. A comparação tornou-se permanente. Quem consegue competir?

E além de tudo isso, ainda existe um fenômeno curioso. As gerações anteriores aprendiam a esconder seus sentimentos. Os jovens de hoje foram ensinados a falar sobre eles. Isso é ótimo, mas também surgiu uma nova cobrança. É preciso estar bem emocionalmente o tempo todo. Quando isso não acontece, a maioria passa a acreditar que há algo de errado consigo mesmo.

Para a ciência, talvez a maior angústia dos jovens hoje seja essa sensação constante de insuficiência, de não conseguir alcançar todas as metas que a sociedade está impondo tão escancaradamente nas redes sociais.

O que fazer para mudar e ser feliz? A primeira coisa que posso dizer é pare de fazer da felicidade uma obrigação. Ninguém é feliz o tempo todo, nem aos 17 anos, nem aos 40, 60, 80 anos. Permita-se estar triste, sem se sentir culpada por isso.

Também não diminua a importância do que está sentido, por mais que as pessoas falem que você não tem motivos para isso. Mesmo que estejam tentando ajudá-la, sentimentos não são uma conta matemática: juventude+beleza+sucesso+trabalho = ser feliz. Seus sentimentos merecem ser levados a sério.

Outra coisa importante: não se compare com os jovens da internet. O que eles mostram ali são alguns recortes de segundos da vida deles. E muita coisa fica escondida. Talvez estejam em sofrimento mental como você, mas escondem muito bem para manter os milhões de seguidores felizes.

Mas, para você realmente melhor, eu sugiro que fortaleça sua saúde mental. Tente dormir melhor, fazer exercícios, sair com os amigos, ler, aprender coisas novas – um hobby, por exemplo -, desligar a internet e viver um pouco a realidade fora das telas.

Se nada disso ajudar e a tristeza continuar constante, eu acho que seria legal buscar ajuda de um psicólogo. Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, pelo contrário. O acompanhamento psicológico pode ajudar a você entender melhor o que está sentido, como lidar com suas emoções e não se cobrar tanto.

Para encerrar, um segredinho da vida adulta. Quase ninguém entre nós, adultos, sabe exatamente para onde está indo. Nós apenas aprendemos a continuar caminhando, apesar de nossas dúvidas, medos e inseguranças. Ponto.

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora é jovem e sente desanimada e com uma tristeza contante, mas todo mundo lhe diz que não tem motivos para isso
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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