Dinheiro para o apartamento ou festa da cunhada?

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Por Telma Elorza

“Leio sempre sua coluna e acho seus conselhos super sensatos. Então resolvi pedir sua ajuda, porque quem precisa de conselhos agora sou eu. Tenho 27 anos e sou casada há dois. Meu marido tem 26 anos e é o filho mais velho da sua família. Minha cunhada vai fazer 15 anos e quer uma festa legal para comemorar a data. Mas o dinheiro que meus sogros vinham guardando para isso foi usado numa emergência complicada. O problema é que eu ganhei um carro num sorteio, recentemente, que vale em torno de R$130 e agora todo mundo está me cobrando para vender o carro e usar parte do dinheiro para fazer a festa da menina. Só que nós, meu marido e eu, estamos planejando comprar um apartamento e queria usar o dinheiro para dar entrada nele. Para economizar esse valor, levaríamos uns quatro anos. Estamos sendo pressionados para gastar numa festa que acho desnecessária. Se fosse algo mais simples, até poderíamos ajudar. Mas, pelo meus cálculos, teríamos que usar cerca de R$50 mil para fazer a festa que ela quer, cheia de luxos. Meu marido é o que mais está sofrendo com a pressão, mas estamos decididos a investir no nosso futuro. Como fazer a família dele entender que não podemos deixar passar essa oportunidade por causa de uma festa?” 

Ah, que bom saber que você é uma leitora fiel e que gosta dos meus conselhos aqui, nessa humilde coluna. Já deixou minha semana mais alegre.

Mas vamos falar de seu problema. Querida, antes de qualquer coisa, respire fundo e repita comigo: “ninguém pode jogar a culpa sobre meus ombros por causa de problemas financeiros deles”. Entendeu?

Você e seu marido estão vivendo uma situação que muita gente conhece bem. E nem é sobre dinheiro, é sobre chantagem emocional.

Quando a família descobre que alguém recebeu uma quantia considerável, parece que brota um orçamento coletivo para o dinheiro alheio. Ele deixa de ser seu e passa a ser tratado como “nosso”. Sempre uma necessidade, uma emergência, um sonho ou um projeto que, curiosamente, só pode ser resolvido com o dinheiro do outro.

No seu caso, a situação complica porque envolve uma menina de 15 anos. Festa de debutante desperta emoções, expectativas e aquele velha ideia de que “só se faz 15 anos uma vez”, data marcante e tals. Mas também é verdade que só se compra o primeiro apartamento uma vez. E, às vezes, é o único imóvel que vai ter a vida toda. Espero que não seja o seu caso, mas é uma possibilidade.

Então, como alguém pode questionar uma escolha entre gastar o dinheiro com um bem que vai abrigar sua família – talvez pelo resto da sua vida – e uma festa que vai durar o que? Umas seis ou oito horas?

Seus sogros se programaram para essa festa, devem ter guardado dinheiro por anos. Infelizmente, aconteceu a emergência que dissipou essas economias. Isso acontece. A vida sempre dá um jeitinho de mudar nossos planos. A questão é que eles não podem jogar essa frustração de planos desfeitos nas costas de vocês e muito menos torná-la sua obrigação.

Não foram vocês quem prometeu a festa. Não foram vocês quem administrou a reserva e, principalmente, não foram vocês quem criaram essa expectativa na mente da garota.

Existe uma diferença enorme entre ajudar porque queremos e ajudar porque somos pressionados, até chanteageados. Você mesmo disse que o casal faria questão de colaborar numa comemoração mais simples. Vocês não estão sendo mesquinhos, estão estabelecendo um limite.

Aliás, esse é um dos primeiros testes que muitos casamentos enfrentam e nem sempre são bem sucedidos: aprender a colocar a nova família em primeiro lugar.

Quando vocês casaram, passaram a ter novas prioridades. Fortalecer laços, construir uma família, comprar um imóvel para abrigar  essa nova família, criar os filhos – que envolve também muito planejamento e dinheiro -, enfim, uma série de detalhes que precisam ser decididos pelo casal.

Tudo isso não significa cortar laços com pais, irmãos, avós, tios, primos. Significa entender que as grandes decisões, financeiras ou não, agora, pertencem ao casal.

Seu marido provavelmente está sofrendo porque ama a irmã e não que decepcionar os pais. Totalmente compreensível. Porém é preciso saber que, se ele ceder, daqui a cinco anos, vocês podem ainda estar longe do sonho da casa própria e ninguém vai ajudá-los, ninguém vai dar o dinheiro que falta para a compra do apartamento

Quem terá o sonho da casa própria adiado serão vocês. Quem pagará aluguel durante todo esse tempo serão vocês. Vocês deram a sorte grande de ganhar esse carro num sorteio. Isso economizará anos de aperto financeiro para ter o apartamento dos sonhos e o dinheiro poupado poderá ser investido em outras coisas.

E não deixe ninguém apelar para o “ah, mas você ganhou esse carro”! Como se o dinheiro que ele implica tivesse menos valor do que o que ser recebe trabalhando. Ele poderia ter vindo de qualquer lugar, de uma herança, trabalho ou loteria. Ele é seu.

Ninguém perguntaria se você vendaria um rim para fazer uma festa. Então, não deveria perguntar também se vai dar parte do dinheiro que tem uma ótima destinação para isso.

Como convencer a família sobre o uso do dinheiro?

Eu sugiro que nem tentem convencer a família que vocês têm razão. Isso só alimenta a discussão e vocês vão escutar como são “egoístas”.  Só digam que lamentam, entendem que a festa é importante para a cunhada, mas que o dinheiro já está comprometido com a compra do apartamento. Ponto. Pode até dizer que estarão dispostos a AJUDAR com algumas despesas, dentro das suas possibilidades, mas não com tudo.

Com isso, você não critica os sogros, não diminui o sonho da cunhada e não entra em debates sobre o desperdício de gastar com luxos em uma festa.  Apenas comunica um limite. E limites não precisam ser aprovados pelos outros, apenas ser respeitados.

A maior maturidade financeira é saber dizer não quando todos esperam um sim. É saber gerir adequadamente seus recursos para que o casal não sofra as consequências das más escolhas.

Se a família respeitar e amar vocês, ela pode até ficar chateada por algum tempo, até mesmo brava. Mas, em algum momento, também entenderão que construir um lar é muito mais importante que impressionar convidados por uma única noite. E cá entre nós, por melhor e mais luxuosa que uma festa seja, sempre vai ter gente saindo falando mal. Estou errada?

Espero ter ajudado.

Tem dúvidas sobre relacionamentos? Mande um e-mail para telma@olondrinense.com.br

A leitora ganhou um carro num sorteio e quer usar o dinheiro da venda para dar entrada num apartamento. Mas a família do marido tem outros planos
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Quem é a Tia Telma

Telma Elorza é jornalista, divorciada e adora dar pitaco na vida dos outros. Mas sempre com autorização.

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