Por Telma Elorza
Londrina adora falar de futuro. Adora se apresentar como polo de inovação, celebrar startups, fazer hackthons de inovação, exibir rankings de tecnologia e repetir o mantra da “cidade inteligente”. Mas há algo que raramente entra nessas apresentações. Como uma cidade pode ser inteligente se insiste em apagar a própria história?
Agora, no próximo dia 25, muita gente vai estar discutindo esse assunto em São Luís do Maranhão, na Reunião Estratégica Connected Smart Cities, que deve levar especialistas de todo Brasil para discutir o conceito de “Patrimônio Inteligente”, com a ideia simples de usar a tecnologia para preservar a memória coletiva, valorizar bens históricos e aproximar a população da sua própria identidade cultural.
E é isso que Londrina precisa aprender: em cidades realmente comprometidas com o desenvolvimento sustentável, inovação e patrimônio caminham juntos. Aqui, no entanto, a relação costuma ser outra, a tecnologia aponta para frente, enquanto escavadeiras passam por cima do passado.
A cidade nasceu de um projeto de colonização inglesa, que possui uma trajetória singular no desenvolvimento do Norte do Paraná. A identidade que Londrina vem construindo há mais de 90 anos convive com uma amnésia institucional permanente. Aqui, o patrimônio histórico é tratado como obstáculo ao progresso.
Basta olhar para o pouco que restou de tantos imóveis históricos. São poucos, pouquíssimos. A maioria foi demolida ao longo das últimas décadas para viraram “caixotes” arquitetônicos que abrigam bancos e farmácias. Casas, prédios, marcos e referências urbanas desapareceram sem grande resistência do poder público. Em muitos casos, sobraram fotografias antigas e a lembrança de quem teve oportunidade de conhecê-los. A cidade cresce apagando história.
Cidade cada vez mais chata
Enquanto municípios brasileiros e estrangeiros transformam centros históricos em ativos econômicos, turísticos e culturais, Londrina insiste na lógica da substituição. Constroem-se adoidado na cidade, mas sai tudo igual, com a mesma estética. Viu um prédio de Londrina? Viu todos. Numa cidade cada vez mais verticalizada, falta imaginação e criatividade – que estava presente em casarios antigos. Londrina está ficando cada vez mais chata.

O discurso do Patrimônio Inteligente mostra justamente o contrário. A inteligência urbana não está nos aplicativos, sensores ou digitalização dos serviços públicos. Está na capacidade de conectar passado e futuro. Está em usar QR Codes para contar histórias, criar inventários afetivo, digitalizar acervos, transformar ruas e edifícios históricos em espaços vivos de educação e turismo.
Só que, para isso, é preciso reconhecer que memória tem valor. Mas, em Londrina, as lideranças parecem enxergar patrimônio cultural como despesa, nunca como investimento. Preservação – quando aparece nos discursos – chega a parecer palavrão. Na prática, faltam planejamento, fiscalização, recursos e vontade política.
Quando observamos cidades que transformaram sua herança histórica em motor de desenvolvimento, nos surpreendemos. Achamos lindo, tiramos fotos, queremos visitar todos aqueles prédios antigos. Essas cidades atraem visitantes, fortalecem a economia criativa, estimulam o comércio local e reforçam o “pertencimento” dos moradores. Elas entenderam que preservar não significa congelar o passado, mas utilizá-lo para construir algo mais qualificado.
Londrina, infelizmente, continua colecionando exemplos de descaso. A falta de políticas permanentes de educação patrimonial revelam uma cidade que ainda não compreendeu o significado estratégico de sua própria memória. Uma cidade inteligente sem memória é apenas uma cidade equipada. Pode ter fibra ótica, inteligência artificial, aplicativos modernos, mas continuará sendo uma cidade que não sebe contar a própria história.
Telma Elorza
É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.
Leia mais artigos de Opinião
Siga O LONDRINE̅NSE no Instagram: @olondrinensejornal

