Caminhos indígenas para adiar o fim do mundo parte 3: a humanidade que pensávamos ser

pexels-jordy-neves-158520533-17923178

Por professor Renato Munhoz

Bem-vindos à terceira e última parte desta série especial inspirada na obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak. Nas edições anteriores, exploramos a provocação inicial de adiar o fim do mundo através de práticas cotidianas que reimaginam nossa relação com a natureza, criticando o mito da sustentabilidade, e mergulhamos em “Do sonho e da terra”, onde o sonho emerge como uma ferramenta coletiva para resistir ao antropocentrismo e reconectar humanos com o cosmos vivo. Agora, chegamos ao capítulo final: “A humanidade que pensávamos ser”.

Na terceira parte da série Caminhos Indígenas para adiar o fim do mundo, vamos falar sobre o capítulo "A humanidade que pensávamos ser"
Ailton Krenak – foto: Wikipedia

Aqui, Krenak nos convida a uma profunda reflexão sobre o que significa ser humano, questionando a noção ocidental de humanidade que exclui vozes indígenas e trata o mundo como um mero recurso. A humanidade, para Krenak, não é uma entidade superior e isolada, mas parte integrante de um tecido cósmico onde todos os seres – rios, florestas, animais – compartilham existência. Repetidamente, ele nos lembra que a humanidade que pensávamos ser é uma ilusão que perpetua a destruição ambiental, e é hora de redefinir essa humanidade para incluir perspectivas ancestrais que promovam harmonia em vez de dominação.

Nesta conclusão da série, aprofundamos a crítica de Krenak à humanidade moderna, que se vê como o centro do universo, ignorando as lições dos povos indígenas que há séculos mantêm uma relação simbiótica com o planeta. A humanidade, em sua visão ocidental, é marcada por uma separação radical entre o “eu” humano e o “outro” natural, levando a crises como o aquecimento global, a perda de biodiversidade e as injustiças sociais contra comunidades tradicionais.

Krenak, nascido no Vale do Rio Doce – uma região que simboliza a devastação causada pela mineração em nome do “progresso” –, nos desafia a desconstruir essa humanidade arrogante. Ele argumenta que a verdadeira humanidade emerge quando reconhecemos nossa interdependência com o mundo que vivemos, transformando o conceito de humanidade em algo mais inclusivo e humilde. Ao longo do capítulo, Krenak repete que a humanidade que pensávamos ser falhou em sustentar a vida, e que as sabedorias indígenas oferecem caminhos para uma nova humanidade, uma que adia o fim do mundo não por tecnologia, mas por empatia e conexão.

Repensando a humanidade no contexto do antropoceno

No coração de “A humanidade que pensávamos ser”, Krenak aborda o Antropoceno como uma era definida pela dominação da humanidade sobre o planeta, mas ele questiona se essa humanidade realmente representa todos os humanos. Para os povos indígenas, como os Krenak, Yanomami e tantos outros no Brasil, a humanidade não é sinônimo de exploração; é uma rede de relações onde humanos, espíritos e elementos naturais coexistem.

Essa visão contrasta com a humanidade ocidental, que prioriza o crescimento econômico a qualquer custo, resultando em desastres como o rompimento da barragem de Mariana em 2015, que envenenou rios e destruiu comunidades. Krenak nos lembra que, em 2025, com as mudanças climáticas se agravando – enchentes no Sul, secas na Amazônia –, a humanidade precisa urgentemente repensar seu papel. A humanidade que ignora as vozes dos excluídos, como indígenas e quilombolas, está fadada ao colapso. Em vez disso, ele propõe uma humanidade expandida, que inclui múltiplas cosmovisões e reconhece a Terra como um ser vivo. Repetindo essa ideia, Krenak enfatiza que adiar o fim do mundo depende de redefinir a humanidade para abraçar a diversidade cultural e ambiental, transformando-a em uma força de preservação em vez de destruição.

A crítica de Krenak vai além da teoria; ela é ancorada em exemplos concretos de resistência indígena. No Brasil, movimentos como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) lutam por demarcação de terras, defendendo a valorização da ancestralidade e a sustentabilidade verdadeira. Essa humanidade indígena, que vê rios como avôs e florestas como irmãs, oferece lições para todos.

Por que o ocidente insistem em uma visão de mundo que separa e destrói?

Krenak sugere que é porque essa humanidade teme a vulnerabilidade de ser parte de algo maior. Ao longo do livro, ele nos convida a sonhar com o diferente, uma humanidade que partilhe histórias e danças para reconectar-se ao cosmos. Em um mundo de crises existenciais, como a perda de 70% da biodiversidade nos últimos 50 anos, segundo relatórios da ONU, é essencial adotar perspectivas que expandam o conceito de humanidade. O modo de pensar – individualista e explorador – deve ceder espaço para uma humanidade coletiva, inspirada em sabedorias ancestrais.

A humanidade inclusiva: lições dos povos originários

Expandindo sobre a humanidade, Krenak destaca como os povos indígenas resistem à assimilação forçada, mantendo identidades que enriquecem o planeta. No capítulo, ele discute como o Estado brasileiro historicamente tentou apagar essas diferenças, promovendo uma visão homogênea que beneficia apenas elites econômicas.

No entanto, a resiliência indígena prova que o ser humano pode ser plural, com múltiplas formas de habitar o mundo. Por exemplo, os Krenak, após o desastre no Rio Doce, reconstruíram suas comunidades enfatizando a conexão espiritual com a terra, mostrando que a humanidade pode curar feridas ambientais através de rituais e conhecimentos tradicionais. Essa abordagem convida a participar de um diálogo onde vozes marginalizadas lideram. Repetindo o tema, Krenak afirma que adiar o fim do mundo requer que a humanidade se reinvente, incorporando empatia pelos não-humanos e justiça social. Em 2025, com avanços em políticas ambientais como a expansão de reservas indígenas, há esperança de que essa nova humanidade emerja, mas apenas se priorizarmos ações coletivas.

A humanidade, para Krenak, não é estática; é um processo de transformação contínua. Ele nos encoraja a questionar: quem somos como se continuamos a destruir nosso lar? As respostas vêm das margens, das comunidades indígenas que, apesar de séculos de opressão, preservam modos de vida sustentáveis. Essa visão expandida inclui não apenas humanos, mas todo o ecossistema, desafiando o antropocentrismo que Krenak critica veementemente.

Ao final do livro, ele nos deixa com a ideia de que o mundo que pensávamos ser era limitado, e que uma humanidade verdadeira – conectada, sonhadora e respeitosa – é o caminho para adiar o fim do mundo. Essa reflexão fecha nossa série, convidando leitores a aplicar essas ideias no dia a dia, promovendo uma sociedade mais justa e sustentável.

© Jurnasyanto Sukarno / Greenpeace

Atividade pedagógica: oficina de escrita criativa sobre humanidade e natureza

Para encerrar esta série, proponho uma atividade pedagógica que professores podem implementar em sala de aula, alinhada ao tema de “A humanidade que pensávamos ser”. Essa oficina de escrita criativa é indicada para alunos do Ensino Médio, incentivando a reflexão sobre humanidade e sua relação com o meio ambiente, inspirada nas ideias de Krenak.

Objetivo: Estimular os alunos a redefinirem o conceito de humanidade através de narrativas criativas, promovendo empatia ambiental e cultural.

Materiais: Papel, canetas, acesso a trechos do livro de Krenak, e opcionalmente, imagens de povos indígenas e natureza.

Passos:

  1. Introdução (15 minutos): Apresente o capítulo, destacando como Krenak questiona a humanidade ocidental. Pergunte: “O que é humanidade para vocês? Inclui apenas humanos ou também a natureza?”
  2. Leitura e Discussão (20 minutos): Leia excertos sobre humanidade e divida em grupos para discutir: “Como as visões indígenas expandem a humanidade?”
  3. Escrita Criativa (30 minutos): Cada aluno escreve uma história curta onde a humanidade é reimaginada, incorporando elementos indígenas como rios vivos ou sonhos coletivos. Incentive repetição do termo “humanidade” para enfatizar o tema.
  4. Compartilhamento e Reflexão (15 minutos): Apresentações e debate: “Como essa nova humanidade pode adiar o fim do mundo?”

Avaliação: Análise das histórias quanto à criatividade e integração de conceitos de humanidade, com reflexões escritas sobre aplicações reais.

Essa atividade alinha-se à BNCC, promovendo competências como pensamento crítico (Competência 2), empatia (Competência 9), e habilidades em Linguagens e Ciências Humanas, atendendo leis de educação ambiental e cultural indígena.

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

Me siga no Instagram: @profrenatomunhoz

Leia mais colunas sobre Sustentabilidade

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE.

Compartilhe:

Uma resposta

  1. É lindo ver Ailton Krenak tentando explicar que ser humano não é ser um zumbi predador solo, né? Mas eita, a gente já sabe que o ocidente tá com o pé no acelerador do desastre, sem nem pensar na velocidade. O povo indígena já fazia a conexão com o cosmos antes que o Krenak resolvesse virar profeta, hein? Acho que a melhor humanidade inclusiva que podemos ter é não deixar o Krenak mais tempo sozinho no meio da floresta tentando salvar o mundo, rs. Que tal o Ocidente aprendesse com quem já sabe que o outro natural é um tio importante? Mas enfim, o fim do mundo vai vir, ou por falta de empatia, ou por causa de outra barragem de mineração. Que tal adiar o fim do mundo com umas risadinhas?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse