Por Ana Paula Barcellos
Aconteceu de novo: mais um feminicídio, mais uma mulher que “vira estatística” em Londrina: Ester Ariane Godofredo, 25 anos, grávida de dois meses, foi esfaqueada por José Aparecido Pasqual, seu ex-companheiro de 57 anos, dentro de uma loja de conveniência no Conjunto Farid Libos. As câmeras de segurança capturaram o horror – uma discussão que vira fúria cega e a lâmina cravada na barriga e no pescoço dela. Ester correu para uma viatura da PM, mas já estava condenada. Preso em flagrante, José agora enfrenta a Justiça por feminicídio. Mais um nome na lista que não para de crescer, mais uma família despedaçada no norte da cidade.
E é nesse contexto que o vereador Santão (PL) propõe um Projeto de Lei para facilitar o acesso de mulheres maiores de 18 anos a armas de eletrochoque – aquelas pistolas de incapacitação neuromuscular, conhecidas como tasers, que disparam choques elétricos para paralisar temporariamente o agressor. A ideia, segundo o parlamentar, é “empoderar” (palavra horrorosa e traiçoeira) as mulheres contra a violência praticada pelos homens, permitindo que comprem e portem esses dispositivos sem as amarras burocráticas atuais, que os classificam como produtos controlados pelo Exército. Não é novidade nacional: projetos semelhantes tramitam no Congresso e já viraram lei em estados como Amazonas e no DF, sempre com o discurso de “legítima defesa” e “autonomia feminina”.

Os números não mentem – e eles gritam. Em 2024, o Brasil fechou o ano com 1.459 casos de feminicídio (e sabemos que esse é um crime subnotificado) – quatro mortes por dia, um recorde desde que a Lei 13.104/2015 tipificou o crime. Mulheres negras, como tantas em nossa cidade, representam 63,6% das vítimas, e 80% dos agressores são companheiros ou ex: maridos, namorados, pais dos filhos que elas carregam sozinhas. No Paraná, os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram um aumento de 0,7% nos feminicídios em 2024, com Londrina e região metropolitana contribuindo para o mapa vermelho do Norte Pioneiro.
Violência doméstica? A casa, que deveria ser refúgio, vira palco de 71,6% dos crimes – lá, onde o Estado deveria bater à porta antes que a facada chegue. E 2025 não dá trégua: só até agosto, tentativas de feminicídio com arma de fogo subiram 45% em capitais como Rio e Recife, e aqui, em pleno setembro, Ester prova que a faca ainda é a arma do homem que acha que mulher é objeto do qual ele tem a posse.
Santão tem razão em um ponto: as mulheres precisam de ferramentas para se defender. Mas e se a proposta for só um paliativo disfarçado de solução? Armas de eletrochoque prometem neutralizar o agressor com uma descarga de até 50 mil volts – baixa amperagem, efeitos temporários: paralisia muscular, confusão, queda. Usadas por policiais, elas salvam vidas em abordagens controladas. Para nós, mulheres comuns, o cenário é outro.
Transferência de responsabilidade contra o feminicídio
Imagine: o ex invade a conveniência, com sangue no olho. Você tem segundos, talvez frações. Onde está a taser? Na bolsa, no fundo da mochila, entre chaves e carteira. Tempo para sacar? Improvável. Estudos e relatos de especialistas em defesa pessoal alertam: em agressões surpresa ou domésticas, o fator “efeito surpresa” do criminoso anula qualquer gadget. Roupas grossas reduzem a eficácia e, se o agressor for maior e mais forte, o choque pode não bastar antes da facada ou do tiro. Pior: cria uma ilusão de segurança, incentivando reações impulsivas que escalam o risco. No Brasil, onde 73,8% das mortes violentas envolvem armas de fogo, uma taser na bolsa soa como remédio para câncer.
Aqui entra o elefante na sala: a transferência de responsabilidade contra a violência doméstica e feminicídio. O Estado, que falha em aplicar a Lei Maria da Penha com rigor – delegacias lotadas, medidas protetivas ignoradas, patrulhas insuficientes –, agora quer que a mulher carregue o peso da própria defesa? É como dizer: “Proteja-se você mesma, pois nós não damos conta”. Onde estão os investimentos em Casas da Mulher Brasileira, em abrigos 24 horas, em educação anti-machista nas escolas? Onde está a inteligência policial que monitora ex-agressores antes do crime?
Projetos como o de Santão aliviam a consciência política, mas mascaram o problema estrutural: a violência contra a mulher não é acidente; é sintoma de uma sociedade que ainda vê o corpo feminino como território a ser conquistado ou punido. No Amazonas, onde a lei similar foi sancionada, ativistas como a advogada Janaina já alertam: sem políticas complementares, é só “falsa sensação de proteção”, delegando à vítima o ônus da sobrevivência.
Ester não teve tempo para nada disso. Ela começava uma nova vida, com o bebê a caminho, quando o passado armado a alcançou. Uma taser teria mudado algo? Duvido. O que muda é romper o ciclo: denunciar cedo, fiscalizar leis existentes, investir em prevenção. Não queremos choques elétricos na bolsa; queremos um Estado que nos proteja de verdade, antes que o próximo sábado vire luto em mais um feminicídio.
Que este seja o início de um debate que não pare na proposta – que vá até o coração da ferida.
Foto principal: Freepik
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela UEL, Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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Respostas de 3
Acho que a proposta do vereador Santão é um reflexo da frustração que many people sentem diante da violência feminicídio. Porém, a ideia de dar taser para mulheres só parece me dar uma falsa sensação de segurança. A verdade é que a culpa não é só da vítima, mas do Estado que falha em proteger efetivamente as mulheres. Investir em políticas de prevenção, em aplicação rigorosa da Lei Maria da Penha e em spaces que ofereçam verdadeira proteção seria muito mais produtivo do que apenas armar as mulheres. A violência contra a mulher é um problema estrutural que precisa de uma abordagem mais séria e комплексная.
Achei a coluna muito importante e necessária. A proposta de facilitar o acesso a armas de choque para mulheres é um reflexo da impotência que muitas sentem, mas, como a autora bem aponta, não é a solução. A verdade é que enquanto o Estado não investir de verdade em proteção, não aplicar as leis existentes com rigor e combater a violência de forma estrutural, qualquer gadget vai ser apenas um paliativo. O que queremos é segurança real, não uma falsa sensação de poder que, na verdade, transfere a responsabilidade da vítima para o Estado falho. O foco deve ser na prevenção e na punição cabal dos agressores, não em dar ferramentas para que as mulheres se defendam sozinhas em situações que muitas vezes são domesticas e sem escolha.
Achei a文章 muito importante e necessário. A proposta de facilitar o acesso a armas de choque para mulheres é um reflexo da impotência que sentimos diante da violência feminicídio. Não dá para ignorar a realidade de tantas mortes e a falha do Estado em proteger. Mas a文章 também faz uma crítica crucial: não podemos confiar apenas nessa ferramenta. A taser não resolve a raiz do problema, que é a violência structure e a cultura machista. É um paliativo, sim, mas não deve ser a solução. O que precisamos é do Estado cumprir seu dever: aplicar a Lei Maria da Penha rigorosamente, investir em proteção e prevenção, e garantir que a casa seja um refúgio de verdade. Que o debate continue, mas que vá além da taser.