Por Marcelo Minka
Todo mundo está dizendo que “o final é absurdo” e o rumor não é gratuito. No novo longa de Zach Cregger (Barbarian, 2022), rebatizado no Brasil como A Hora do Mal, a violência do subúrbio pulsa como um bicho acuado — quase invisível — até que, de repente, morde. E o que parecia um caso midiático sobre o desaparecimento simultâneo de 17 crianças vira um labirinto moral onde as paredes se movem a cada mudança de ponto de vista.
Cregger conduz com mão firme um mosaico de personagens: a professora Justine (Julia Garner, The Assistant, 2019), o pai em frangalhos Archer (Josh Brolin, No Country for Old Men, 2007), o policial Paul (Alden Ehrenreich, Hail, Caesar!, 2016), o diretor Marcus (Benedict Wong, Doctor Strange, 2016), o andarilho James (Austin Abrams, Paper Towns, 2015) e o garoto Alex Lilly (Cary Christopher, Days of Our Lives, 2021). Cada arco entra em cena como se herdasse o peso do anterior e adicionasse um ruído novo — um sussurro lynchiano de câmeras de segurança e dedos no gatilho, sem caricatura e sem o conforto de um susto barato.
O triunfo da A Hora do Mal

O triunfo aqui não está em “explicar o mistério”, e sim em como o filme encena a paranoia do cotidiano com um rigor formal que recusa a muleta do jump scare (pulos de susto). Há ecos de Stephen King e lampejos de It (2017) e The Shining (1980), mas Cregger não é um colecionador de citações: ele dobra a narrativa como quem dobra metal em brasa. A câmera se aproxima, recua, observa em primeira pessoa; o som parece respirar no cangote; a montagem atravessa portas e horários até encaixar as peças com crueldade metódica.
Garner entrega um centro emocional sem histrionismo; Brolin carrega o luto como uma pedra no estômago; Ehrenreich encontra a nota certa entre impulso e culpa; Wong injeta gravidade; Amy Madigan (Field of Dreams, 1989) surge como o tipo de presença que muda a temperatura do filme em segundos. Nada é gratuito: quando as armas finalmente aparecem, elas não “resolvem” — revelam.
Se Barbarian já torcia a estrutura para desafiar o espectador, A Hora do Mal abraça um desenho mais ambicioso, de capítulos que se roçam e deixam farpas, como se Magnólia (1999) tivesse sido fermentada no pânico de uma América que esqueceu como confiar. O texto de Cregger aposta na zona cinzenta da comunidade — pais que procuram culpados, autoridades tensas, vizinhos que trancam portas — e encontra, no acúmulo de pequenos gestos, um horror verdadeiramente moderno. O clímax, sem spoilers, é desses que reorganizam a memória do filme num estalo: brutal, inevitável, catártico.
Pelo que li, a imprensa brasileira registra elogios contundentes ao desenho de suspense, à construção atmosférica e às atuações, destacando a ambição narrativa e um final de impacto; lá fora, o agregado inicial do Rotten Tomatoes despontou com aprovação máxima nas primeiras leituras críticas — um 100% inaugural que sinaliza um consenso entusiasmado para um terror de estúdio com vocação autoral.
Em Londrina, sair da sala do cinema depois de A Hora do Mal é atravessar um estacionamento iluminado demais, onde cada sombra parece uma pergunta que ninguém quer fazer. Cregger filma o mal não como entidade, mas como hábito: algo que a sociedade cultiva, alimenta, normaliza. Se o cinema às vezes serve de exorcismo, aqui ele funciona como espelho rachado — e, ao encará-lo, descobrimos que a hora não é do “mal” em si, mas da responsabilidade. Quem dorme tranquilo depois disso talvez tenha perdido o relógio.
Marcelo Minka

Graduado em licenciatura em Artes Visuais, especialista em Mídias Interativas e mestre em Comunicação com concentração em Comunicação Visual. Atua como docente em disciplinas de Artes Visuais, Semiótica Visual, Antropologia Visual e Estética Visual. Cinéfilo nas horas vagas. Me siga no Instagram: @marcelo_minka e @m_minka_jewelry
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