Moda de luxo: vale o que custa?

bolsa-chanel-boy-black-friday-motivos-para-investir-no-modelo-271124-2

Por Ana Paula Barcellos

Recentemente, me perguntaram se eu consumo moda de luxo. A resposta é sim, mas com ressalvas. Compro pouco, geralmente peças de segunda mão, e só quando encontro uma promoção ou um achado de brechó, do tipo “garimpo pechincha”. Mesmo que eu tivesse muito dinheiro, meu consumo de luxo não mudaria muito: continuaria focado em itens de uso diário e duradouros como calça jeans, jaquetas e, eventualmente, uma bolsa, sempre priorizando modelagem e qualidade que realmente garanta a durabilidade.

Vale a pena pagar muito por marcas de luxo? Nem sempre, porque luxo não significa exatamente qualidade, mas exclusividade
Foto: Divulgação/Chanel

Para mim, essa é a tendência do futuro: com o tempo, exceto pela alta costura, a moda de luxo vai perder seu status de exclusividade e, principalmente, a pseudo relevância que ainda carrega. As pessoas estão começando a perceber que é um absurdo gastar fortunas em uma única peça, mesmo que seja de qualidade. E, como já disse aqui antes, pagar caro por uma peça grifada usada (fora da alta costura) é um delírio – essa é uma tecla em que sempre vou bater, inclusive.

Luxo = qualidade?

A moda de luxo sempre foi vendida como sinônimo de exclusividade, status e, supostamente, qualidade imbatível. Bolsas como a Birkin da Hermès, que custam a partir de US$ 12.700, ou a Chanel 2.55, que passou de US$ 220 em 1955 para US$ 9.000 hoje, são ícones de desejo, muitas vezes vistos como investimentos. Mas será que o alto preço garante qualidade? Ou estamos pagando por uma narrativa de prestígio que nem sempre se sustenta? A influenciadora Camila Coutinho reacendeu essa discussão com um vídeo viral no TikTok, no qual expressou sua decepção com uma bolsa The Row, grife das irmãs Olsen, que custou mais de R$ 6.000. O caso gerou debate: o que realmente justifica o valor de uma peça de luxo?

A bolsa The Row. A peça comprada por Camila Coutinho, em tom camelo, está esgotada no site da Farfetch – Foto: Divulgação

The Row é uma marca que fatura cerca de US$ 150 milhões anuais e é referência no “quiet luxury” – o luxo discreto, sem logos chamativos, focado em materiais supostamente premium e design minimalista. A peça, que custou caro, não entregou a qualidade esperada, levando a influenciadora a questionar seu valor. “Minha vó faria uma igual por 15 reais!”, brincou um usuário no X, capturando o sentimento de que preços exorbitantes nem sempre refletem o que se leva para casa. A experiência da Camila mostra uma insatisfação que vem aparecendo com frequência: consumidores mais informados estão questionando se o custo de peças de luxo realmente corresponde ao que recebem.

Já escrevi sobre essa questão em outra coluna, “Pagar caro é sinônimo de qualidade?”. Marcas como Chanel, Hermès e Louis Vuitton investem em materiais premium, como couro de alta qualidade e acabamentos impecáveis, mas o preço muitas vezes reflete mais a narrativa da marca, a exclusividade e o status do que a funcionalidade.

Uma camiseta da Brunello Cucinelli, por exemplo, pode custar a partir de US$ 300, feita com materiais nobres, mas seu valor também está no prestígio de ser reconhecida por quem “entende” o luxo. No entanto, qualidade nem sempre acompanha o preço. Marcas como Everlane – assim como algumas marcas brasileiras – oferecem produtos com qualidade comparável a algumas grifes por uma fração do custo, desafiando a ideia de que só o luxo entrega excelência. Além disso, a indústria da moda, a segunda mais poluente do planeta, gera desperdícios de US$ 500 bilhões anuais, com 60% dos guarda-roupas descartados em menos de um ano – um lembrete de que mesmo peças de luxo podem ser efêmeras.

Detalhe da minha YSL vintage anos 90. Em estado de nova e com qualidade de milhões, essa dá até pra deixar de herança, dura pra sempre – Foto: Acervo pessoal

O luxo silencioso e a perda de valor

Fatores externos também desafiam o valor da moda de luxo: a popularização de cópias, o acesso ao crédito e as redes sociais tornaram o luxo mais acessível, mas menos exclusivo. Marcas como Louis Vuitton transformam o consumidor em um “outdoor ambulante” com seus monogramas, enquanto grifes como The Row apostam na discrição.

Essa “invasão” de novos consumidores faz as elites migrarem para marcas mais sutis, mas também gera confusão sobre o que define o luxo. Tem também o impacto ambiental e ético: A moda, incluindo o luxo, é criticada por seu impacto negativo no planeta. Uma calça jeans pode consumir 3.400 litros de água em sua produção, e marcas de luxo não estão imunes a essas questões. Consumidores conscientes tendem a priorizar o slow fashion e peças de segunda mão, que aliam qualidade, sustentabilidade e preços mais acessíveis.

Redefinindo o luxo

Algumas pesquisas mostram que o consumidor atual é mais propenso a valorizar experiências acima da posse. Marcas como Philipp Plein investem em hotéis, enquanto a Awasi foca em turismo de imersão. O luxo do futuro está focado no tempo de qualidade, na liberdade, na saúde mental e em estabelecer as chamadas “conexões autênticas”, não em acumular bens caros. Logo, as pessoas priorizarão consumir pouco luxo, muitas vezes de segunda mão, buscando peças que durem, mas sem pagar pela ilusão do status.

Tenho uma jaqueta como essa, Roberto Cavalli, em outra padronagem. Uma nova custa aproximadamente R$ 5000, na minha, de segunda mão, paguei R$ 250 – Foto: Divulgação/Roberto Cavalli

Casos como o da Camila Coutinho mostram que o consumidor está mais crítico. Uma bolsa de R$ 6.000 que não entrega qualidade abala a confiança na marca. Bolsas como a Birkin (valorização de 500% em 40 anos) ou a Chanel 11.12 (dobrou de valor em 7 anos) podem ser investimentos, mas seu retorno depende de edições limitadas e tendências de mercado.

A moda de luxo ainda é um objeto de desejo, mas sua relevância está sendo questionada. Pagar caro não é sinônimo de qualidade, mas de uma história que vende sonhos, que vende status. Em um mundo onde a moda é efêmera, talvez o verdadeiro luxo seja a liberdade e o poder (privilégio?) de escolher com consciência.

Foto principal: Divulgação/Chanel

Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate. Me siga no Instagram @experienciasdecabide e @yopaulab

Leia todas as colunas Em Alta

(*) O conteúdo das colunas não reflete, necessariamente, a opinião do O LONDRINE̅NSE

Compartilhe:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Anuncie no O Londrinēnse

Mais lidos da semana

Anuncie no O Londrinēnse