Por Edmilson Palermo Soares
A região do Dão, localizada no centro de Portugal, é uma das mais antigas regiões demarcadas – a demarcação ocorreu em 1908 e a regulamentação, em 1910 – para a produção de vinhos não licorosos de Portugal. É conhecida como a “Borgonha Portuguesa”.
Essa região destaca-se pela produção de vinhos elegantes, equilibrados e com grande potencial de guarda, especialmente os tintos, que são elaborados com castas tradicionais, como a Touriga Nacional.
Localizada no interior central de Portugal, olhando no mapa, parece um coração. Dizem ser o símbolo do amor é que geram os vinhos do Dão.
A história vinícola da Região do Dão é muito antiga, mas foi no século XIX que a região ganhou projeção, enquanto a Europa sofria com a Filoxera. O Dão é protegido por serras e a praga demorou anos para chegar à região que se tornou, neste meio tempo, uma importante fornecedora de vinhos para o mercado interno e externo.
Nesta época, 90% dos vinhedos do Dão eram da uva Tourigo (hoje conhecida como Touriga Nacional), e já produzia grandes vinhos longevos, encorpados, elegantes, com muita cor e ótima acidez.
As primeiras décadas do século XX viram a Tourigo e os grandes vinhos do Dão rarearem. A região foi assolada por pragas como o Míldio e a Maromba. No último levantamento, em 1986, a Touriga Nacional ocupava apenas 5% da área plantada.
Outro fenômeno que mudou o perfil da região foi a criação de cooperativas a partir dos anos 1940. Em um primeiro momento foi positivo ao padronizar a produção e os níveis mínimos de qualidade dos vinhos, mas, por outro lado, reduziu o número de pequenos produtores-engarrafadores dos Vinhos de Quinta, de alta qualidade.
Durante os anos 1970 e 1990, por causa do excesso de produção (quanto maior a produtividade por planta, menor é a qualidade das uvas) e a concentração de produção nas mãos de cooperativas não muito envolvidas com a qualidade, houve uma grande desvalorização dos vinhos do Dão.
A partir do final dos anos 1980, a Touriga Nacional voltou a ser valorizada, com novos clones, porta enxertos e técnicas de plantio. Dessa forma, bons produtores (pequenos e grandes) surgiram.
O cenário da região só viria mudar nos anos 1990, com a entrada de Portugal na Comunidade Europeia. Dão deixa de ser Região Demarcada e passa a ser Denominação de Origem Controlada.
A produção familiar é uma característica marcante do Dão, com muitas quintas (propriedades rurais) mantendo as tradições vitivinícolas e integrando novas técnicas na produção.
O Dão vive um momento de renovação, com novos produtores e técnicas que impulsionam a qualidade e a inovação, sem perder a essência tradicional da região.
A região oferece diversas opções de enoturismo, com programas que permitem aos visitantes conhecerem as quintas, adegas e paisagens deslumbrantes, além de degustar os vinhos locais.
É impossível falar do Dão e não falar de granito. Cerca de 97% dos vinhedos do Dão ficam em solo granítico, que se caracteriza por ser pobre, de textura pedregosa, com ótima drenagem.
O granito também marca a arquitetura da região como principal matéria-prima de todas as construções. Tudo é de granito: casas, muros, fontes, lagares.
Situada no Planalto Beirão, a região é circundada por serras:
- Norte: Serra da Nave;
- Sul: Serra do Buçaco, Serra do Açor e Serra do Lousão;
- Leste: Serra da Estrela;
- Oeste: Serra do Caramulo.
As Serras do Norte e do Leste protegem a região do rigor do clima continental e as outras evitam a entrada do ar úmido vindo do Atlântico.
No centro destas serras está o Dão, formado por colinas acentuadas, formado por inúmeros microclimas favoráveis à viticultura, com altitudes entre 400 e 700 metros. A água é fornecida pelos principais rios da região, o Dão e o Mondego, que correm para o sudoeste.
O clima é temperado, com influência mediterrânea (invernos chuvosos e verões quentes e secos), com cerca de 2.600 horas de sol e 1.000 mm de chuvas por ano. O Clima é irregular e a qualidade dos vinhos pode variar bastante ano a ano. Se o outono for chuvoso, as podridões podem aparecer.
O Dão está subdividido em sete subregiões:
- Alva;
- Besteiros;
- Castendo;
- Serra da Estrela;
- Silgueiros;
- Terras de Azurara;
- Terras de Senhorim.
As castas de Dão
Os vinhedos ainda são, em sua maioria, minifúndios de menos de um hectare, em boa parte ainda com muitas vinhas velhas, plantadas na primeira metade do século XX com dezenas de castas, brancas e tintas, misturadas em um mesmo vinhedo. Estes vinhedos, aos poucos, estão sendo convertidos, dando preferência às castas recomendadas na região. As tintas dominam com 85% do total plantado.
Estão identificadas 91 castas, entre autóctones e internacionais. Essa riqueza de diversidade genética é a grande marca da região do Dão, diferença das outras regiões de Portugal e até do mundo. Já foi chamada por Paulo White, crítico de vinhos, como a Arca de Noé das castas portuguesas.
As principais castas hoje são:
- Brancas: Encruzado, Malvasia Fina, Bical, Carceal Branco e Gouveio;
- Tintas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfroucheiro Preto e Jaen (na Espanha chamada de Mencía.
Nas brancas reina absoluta a Encruzado, uma das grandes castas brancas portuguesas, de grande elegância e complexidade, e incrível longevidade. Gera vinhos com toques florais (rosas, violetas), minerais e cítricos, que com a idade ganham notas de avelã e resina de pinheiro.
Nas tintas não há o que discutir, o Dão é a terra natal da maior dentre todas as castas portuguesas, a Touriga Nacional (chamada de “o Cabernet português”), por sua alta qualidade, adaptabilidade a vários solos e personalidade marcante. Existe hoje, em Portugal, um consenso de que esta é a casta mais importante do país.

Esta casta chegou a ser indesejada no passado, pois produzia muito pouco e era muito suscetível a algumas doenças. Hoje, após muitos estudos, já se sabe como tirar o melhor dela (porta-enxerto ideal, melhor sistema de condução, de densidade de plantação, práticas de poda, etc.). É uma casta pouco produtiva, geralmente entre 1kg e 1,5kg de uva por pé. Gera vinhos de cor escura, aromas intensamente frutados, lembrando frutas doces como ameixas, cassis e flores como violetas, paladar estruturado, com taninos doces e concentrados, muita complexidade e elegância.
Os vinhos de Touriga Nacional normalmente têm grande capacidade de envelhecimento, mantendo por muito tempo suas características e, por isso, no Douro, esta casta reina nos Portos Vintage. Além disso, é uma das poucas castas portuguesas que seguem muito bem em vinhos mono varietais.
Nas demais tintas, a Jaen está em baixa e a Alfroucheiro em alta, por seu potencial aromático e elegância, ficando bem em cortes com castas de maior estrutura tânica como Baga ou Touriga Nacional.
A Jaen tem um teor alcoólico regular, com aromas intensos de fruta muito madura. Possui taninos de qualidade e de grande macieza.
Vinhos gastronômicos
Os vinhos da Região do Dão são vinhos gastronômicos, com acidez excepcional de aromas complexos e delicados. O seu carácter, complexidade, elegância, equilíbrio, maturidade, potencial de envelhecimento é combinação perfeita com a gastronomia local.
É assim, beirando o antigo e o novo, que a Região do Dão reassumiu a produção de vinhos de ponta, maravilhando os seus degustadores com sabores e aromas de Portugal.
Dos brancos aos tintos, passando por marcas com nomes bem conhecidos como Quinta dos Carvalhais, Quinta de São Simão da Aguieira e Global Wines, Adega de Penalva, Silgueiros, Mangualde e Tazem, os vinhos do Dão são garantia de uma experiência inesquecível.
Um brinde.
Foto principal: Quinta da Alameda
Edmilson Palermo Soares


Enófilo, sócio proprietário da Confraria da Taverna, loja de vinhos e espumantes que traz novas experiências no mundo do vinho, estudioso e entusiasta, com conhecimento prático provando vinhos de mais de 20 países e diversas uvas desconhecidas do público em geral. Me siga nas redes sociais: no Instagram @contaverna, Facebook Confraria da Taverna e Linkedin
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