Precisamos pensar a respeito da solidão da mulher negra – Parte I

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Todo ano é o mesmo roteiro. Passa-se a Páscoa, Dia das Mães e o comércio e os anúncios publicitários voltam-se para as vendas do Dia dos Namorados. Até aqui tudo normal, pois estamos falando de relações comerciais e seus métodos para persuadir os potenciais clientes. Mas assim como o protocolo do comércio e as buscas por aumento dos números de vendas de um ano para outro, o que também é um rito para as mulheres negras é a solidão que as atingem. 

É um assunto que incomoda. É um assunto que constrange. É um assunto que mexe com toda uma estrutura organizada em prol do preterimento às mulheres negras. E justamente por ser tão incômodo é que a temática precisa ser escancarada e, pelo menos, contribuir para que as pessoas pensem sobre tudo o que afeta, atinge, incomoda, faz chorar as mulheres negras.

Para vocês terem uma ideia, no último Censo, divulgado no ano de 2010, quase 53% das mulheres negras estavam solteiras. Diante desse número, quase 25% eram casadas. Esse número é ainda maior quando falamos de mães solo no Brasil. Cerca de 7,4 milhões dos lares com mães solos são chefiados por mulheres negras. No Brasil, de acordo com o IBGE, há no país 11,4 milhões de famílias chefiadas por mulheres.

É um assunto que precisa ser debatido. E as pessoas não entendem que piadas como “nossa, você está solteira”, “não vai casar não, hein”, “vai passar o Dia dos Namorados solteira de novo”, “nossa, você não dá certo com ninguém”, “nossa, você só pensa em trabalho”, entre tantos outros, além de ser indelicado e mexer em uma ferida que não está estancada, também há nesses comentários doses históricas e cavalares do racismo que atinge a todas as mulheres negras de formas diferenciadas e cruéis.

Nós, negras, precisamos tomar consciência do que nos espera ao longo da vida, logo na primeira infância. É lá que começam os preterimentos em relação a amizades, em relação às danças nas festas da escola, as piadas com a cor da pele. É lá que começa a construção da solidão da mulher negra e as primeiras marcas “indefesas” de uma sociedade racista.

Não nos dão amor, nos dão migalhas

Na adolescência, eu entendi que o problema de os meninos não olharem para mim, era porque eu era negra, E, logo, eu era considerada feia. Sendo a feia, ninguém queria ser zoado namorando a “negrinha”. E isso se arrasta até a vida adulta.

Não sou eu que estou falando isso do meu lugar de. É a ciência, pois hoje há inúmeros estudos acadêmicos, livros, sites que abordam a temática, pois ela precisa ser compreendida e, talvez, em uma tentativa científica, amenizada.

A solidão é severa e a sociedade que insiste em cobrar casamento e filhos das mulheres, como modelo de mulher realizada e feliz, ao perceber que a mulher negra “ainda” está solteira, chega a duvidar de sua orientação sexual, como se isso fosse algum demérito, mas é preciso achar uma culpa, afinal, a incapacidade de ser amada é da vítima, ela que é muito exigente ou trabalha demais.

A solidão da mulher negra é um assunto sério e que apresenta vários desdobramentos, como a violência doméstica, por exemplo, pois na ânsia de ter um companheiro e ser amada, elas acabam aceitando um relacionamento abusivo e que tem consequências como ataques físicos e emocionais. E quem foi a mulher que mais apanhou durante a pandemia? A mulher negra. Estamos vulneráveis em vários aspectos da sociedade e ainda insistem em fazer piadas toscas.

A tão celebrada “cor do pecado” que adoram nos direcionar como um elogio falacioso, é outra coisa que contribui para a solidão da mulher negra, porque por trás dessas palavras há uma carga absurda de herança colonial, uma vez que as mulheres negras eram estupradas por seus senhores, ditas “boas de cama”, “quentes”, e toda essa objetificação do corpo da mulher negra se tornou um fetiche para homens de ego frágil, que tentam descobrir os segredos da “morena”. Consequentemente, ficamos à mercê de homens que querem saciar seus desejos, mas não estão dispostos a nos amar, nos acarinhar, nos respeitar como mulheres.

“A branca é para casar, né”. Certa vez, ouvi essa frase e não entendi. Tive um namorado que não me apresentava aos familiares. Após alguns meses, pressionei-o e ouvi que não era mulher para casar. Essa frase demorou para me fazer cair na real. Hoje, eu entendo. Muitos homens, inclusive negros, veem a possibilidade de uma ascensão social ao se envolverem com mulheres não negras. E a ascensão social aqui não é apenas a noção de projeção financeira não, é o simples aceite de “ficar em paz” na sociedade, sem ter sua mulher sendo alvo de piadinhas e desejos dos demais.

Por isso, hoje já há aplicativos de namoro, como o Tinder, por exemplo, voltado para a comunidade negra. Em uma tentativa, ainda fracassada, de unir os negros e fazê-los se respeitar, se amar, se cuidar e lutarem juntos contra toda a máquina estrutural racista. Mas, os homens negros também precisam parar de reproduzir os padrões que a sociedade impõe às mulheres negras. 

Infelizmente, minhas referências de amor já vinham com racismo. E a situação fica mais dramática se a mulher negra tem ensino superior. Depois da solidão das mulheres negras, há também a solidão das mulheres inteligentes. Recentemente, em uma aula do mestrado, na disciplina de Vozes Femininas na Literatura, minha professora abordava sobre a solidão das mulheres na academia, pois os maridos não aceitam a evolução intelectual de suas parceiras e as deixam. Isso me fez lembrar de uma pesquisa, divulgada em Nova York, exatamente a respeito disso. As investigações da Universidade de Buffalo, revelaram que os homens – em sua maioria – quando estão com uma mulher que parece mais inteligente, eles sentem-se inseguros e, logo, não dispostos a estabelecerem relacionamento a longo prazo.

A sociedade precisa de uma nova trajetória para as mulheres. Urgentemente! Enquanto isso não acontece, acheguem-se! Busquem apoio!  Sintam-se abraçadas. Não aceitem menos! Que nossa ancestralidade cuide da gente! Que o amor nos atinja em plenitude. Axé!

Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Jonathan Borba no Pexels

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