Entenda a polêmica do filme polonês 365 dias

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Um dos filmes mais vistos na Netflix durante a pandemia nas últimas semanas vem da Polônia: “365 dias”. A obra foi lançada em fevereiro de 2020 e é polêmica. A narrativa conta a história de um belíssimo mafioso italiano chamado Massimo. Obcecado por Laura Biel, acaba por sequestrar a jovem polonesa enquanto ela passava férias com o atual e entediante namorado na Itália. Massimo decide que a garota tem 365 dias para se apaixonar por ele. Laura então é levada para um cativeiro pessoal do mafioso dentro de uma exuberante mansão. O confinamento é regado de luxuosas compras, ostentação, sedução, violência, não consentimento de relações sexuais e jogos sensuais de ambos. O cenário é paradisíaco e a trilha sonora é excitante.

A fórmula romântica se concretiza quando Laura acaba por se apaixonar antes mesmo dos 365 dias. Uma parcela das pessoas que assistiram o filme gostou da combinação de sensualidade, prazer, sexo e toda as fantasias eróticas associados ao velho clichê de conquista e romance. O fato das pessoas se identificarem com o “não mocinho” da história faz parte de um fenômeno que, de fato, tende a mostrar que os humanos não são dicotômicos em “totalmente bons e/ou totalmente maus”, mas sim que estes dois universos estão na presentes na mesma pessoa e, por vezes, de forma erótica.

No entanto, muitas outras pessoas que assistiram ao filme acreditam que o tema do enredo é preocupante. Apesar disso, a obra está fazendo sucesso de forma positiva dado ao risco de aculturação e normatização de padrões comportamentais que podem ser extremante nefastos para a saúde mental, para a autoestima e para o processo de individuação das pessoas, principalmente de mulheres. Uma vez que não há consentimento por parte de Laura inicialmente (ela foi levada sem concordar para o cativeiro) e acaba por se apaixonar pelo seu sequestrador, num clássico da Síndrome de Estocolmo.

Esta síndrome pode ser definida como um transtorno psicológico que pode ocorrer em pessoas que se encontram em situação de muita tensão, como por exemplo, no caso de sequestros, prisão domiciliar ou situações de abuso. Nesses casos as vítimas tendem a estabelecer relações mais afetuosas e ou íntimas com seus agressores ou sequestradores.  A síndrome de Estocolmo foi primeiramente descrita da década de 1970 após o sequestro de um banco em Estocolmo, na Suécia, em que as vítimas estabeleceram laços de apreço com os sequestradores, de modo que acabaram por visitá-los na prisão, além de afirmarem que não houve qualquer tipo de violência física ou psicológica que pudesse sugerir que suas vidas estavam em perigo.

Além disto, o filme parece reforçar a perpetuação de narrativas já bem conhecidas das relações de poder nos laços individuais e afetivos de homens e mulheres em nossa sociedade. A obra também tem sido criticada pela objetificação da mulher, enquanto “coisa” que se compra, se domina, se domestifica e se doutrina ao tentar produzir uma romantização da submissão e dos relacionamentos abusivos.

A história por vezes tende a um “mild pornô” que tenta seduzir através de um cara anti social, mas extremamente envolvente e bonito! Sim, o personagem é um gato e um charme! Se as pessoas se apegarem a estes aspectos apenas podem estar presas nas mesmas garras de todo abusador “comum” do dia a dia. Em outras palavras, o abusador inicialmente é um sujeito sedutor, convincente, envolvente, que vai fazer tudo para conquistar a sua “presa”. Mas depois começa todo os mecanismos de controle que sustenta essa relação doentia.

Em geral, alguns jovens podem pensar que aquele tipo de “roteiro sexual” é o que eles deveriam seguir na sua “vida real”, acabam por criar expectativas irreais e gerar mais frustração. Também se mostram mais preocupados com a sua performance sexual do que com seu próprio desejo e satisfação, bem como de sua parceria sexual.

Se um filme tem a possibilidade de abrir a discussão e minimamente levar a uma reflexão situacional,  a obra serviu a seu propósito primordial que é promover um alerta, uma maior conscientização das relações humanas e, consequentemente, contribuir para mudar os estereótipos históricos das relações de poder e de gênero em nossa sociedade. Caso contrário, ele é apenas mais uma reprodução de outras vertentes de “50 Tons de Cinza” e similares fadados a ser apenas um entretenimento ruim.

Alessandra Diehl

Psiquiatra, educadora sexual e especialista em sexualidade humana

Foto: Divulgação

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