Um relatório divulgado em maio do ano passado pelo Grupo Gay da Bahia, aponta que o Brasil registra, em média, uma morte LGBT a cada 23 horas. O estudo foi realizado de janeiro a 15 de maio de 2019 e registrou 126 homicídios e 15 suicídios. São Paulo é o estado que lidera a lista no país, com 22 mortes. Em seguida, Bahia (14), Pará (11) e Rio de Janeiro (9).
A base para a produção do relatório feito pelo Grupo Gay da Bahia são notícias publicadas em veículos de comunicação, informações de parentes das vítimas e registros policiais. Portanto, o número de casos pode ser ainda maior por conta da subnotificação.
Nesse cenário de dor e violência, as mães do público LGBT lideram um movimento em defesa dos próprios filhos. Engajadas, as integrantes da ONG Mães pela Diversidade participam das Paradas de Orgulho Gay e são autoras de cartazes com frases como: “meu filho não será estatística”; “nossos filhos têm o direito de amar quem quiserem e constituir família”; e “tire seu preconceito do caminho, queremos passar com nosso amor”.
A ONG tem projeção nacional (está presente em 24 estados) e é uma rede de apoio para jovens homossexuais e transsexuais e ainda trabalha pesado fazer pressão para popular em assembleias legislativas e em órgãos internacionais de direitos humanos, além de organizar eventos e mediação de grupos virtuais em que as famílias possam conversar sobre sexualidade e combater, juntas, o preconceito com aqueles que decidem sair do armário.
O grupo é formado por mães advogadas, que auxiliam nas questões legais de quem necessita de ajuda; mães psicólogas, que trabalham com as famílias que buscam apoio; artesãs, que criam artigos para vender e captar dinheiro para as necessidades do grupo; entre outras profissionais. O que as une é um objetivo comum: acabar com a violência e garantir a segurança e a vida dos filhos.
Essas famílias que saem do armário junto com seus filhos desempenham um papel muito importante na nossa sociedade. O acolhimento, sobretudo dos pais, é essencial para a saúde mental desse público. A figura da mãe, principalmente, é muito significativa. Quando uma mãe fala sobre esse assunto as pessoas param e ouvem, respeitando aquele depoimento como algo legítimo. Um dos trunfos do Grupo Mães pela Diversidade é conseguir tocar no coração das famílias que hoje têm um conflito muito grande com os seus filhos em relação a orientação sexual.
Nós sabemos que “aceitar que o filho do vizinho é gay” é muito mais fácil que encarar a mesma situação dentro dos portões da nossa casa. Muitas vezes, essa notícia, num primeiro momento, causa um choque muito grande para os pais. O processo de aceitação dos familiares, em certa medida, pode ser comparado a própria autoaceitação dos filhos.
Além disso, lidar com os comentários da vizinhança ou dos colegas de trabalho pode ser uma missão árdua e, por esse motivo, é preciso trabalhar o lado emocional e, se necessário, buscar a ajuda de terapias para isso. Nessas horas, a família deve ser local de porto seguro: lugar de acolhimento, afeto e ajuda. Os pais precisam estar dar as mãos aos filhos quando eles se sentem incompreendidos ou rejeitados pela sociedade.
Esforços devem ser ampliados no acolhimento de toda a família – pais e mães de filhos homossexuais – para a maior compreensão deste universo e dentro de uma perspectiva afirmativa da orientação sexual e da identidade de gênero, trabalharmos para a maior aceitação de seus filhos como eles são. Assim como intervenções escolares para uma cultura de respeito e paz, principalmente no ambiente escolar onde muitos de nós passamos a maior parte do tempo de nossas vidas e estes valores são também acrescentados.
Realidade nas escolas
Um estudo Nacional com cerca de 1.016 estudantes, com idade entre 13 e 21 anos, avaliou as experiências oriundas dos ambientes educacionais durante 2015. Os resultados mostram que 60% dos participantes sentiam-se inseguros no ambiente escolar por se definirem como alguém LGBTI; outros 73% disseram ter sido agredidos verbalmente por conta de sua orientação sexual ou identidade de gênero na escola; 36% afirmaram ter sofrido agressões físicas, 36% enfatizaram ter sido “ineficaz” a resposta dos profissionais das escolas para impedir as agressões. Além disso, 39% constataram que nenhum membro da família falou com membros da equipe de profissionais da escola quando o estudante sofreu agressão ou violência.
Alguns estudos têm apontado que o bulliyng escolar homofóbico pode estar associado ao uso e experimentação precoce de substâncias durante a adolescência por parte dos adolescentes LGBTI e consequentemente ao desenvolvimento de problemas e dependência associados ao consumo de drogas. Promover a associação entre os estudantes de ensino médio através de monitorias ou ligas que combinem a diversidade sexual como os que os americanos chamam de gay-straight alliance (GSA) em prol de trabalhos voluntários e conjuntos para a escola e para o entorno desta é uma medida que pode ajudar a prevenir esse tipo de problema.
Jovens LGBTI evidenciam menor risco de uso de substâncias quando sua escola tem um GSA. Programas inclusivos em escolas podem ser fatores de proteção para a juventude LGBTI. Um fator que parece promover resultados de saúde positivos para os jovens LGBTI envolve participar de uma escola secundária com uma Gay Straigh Alliance. Trata-se de uma espécie de “clube” ou coletivo ou agremiação escolar que trabalha para criar um ambiente de apoio escolar para todos os alunos, independentemente da orientação sexual e / ou identidade de gênero e expressão. Pesquisas sugerem que frequentar uma escola secundária com este tipo de coletivo pode reduzir o fardo dos estressores minoritários.
Especificamente, os jovens LGBTI que frequentam escolas com coletivos inclusivos relatam experimentar menos vitimização escolar, maior sentimento de pertencimento à escola e menos ocultação de seus status de minorias sexuais. Os coletivos inclusivos estão associados com menor risco de suicídio na adolescência, o que pode se estender até a idade adulta jovem. O comparecimento de escolas com este tipo de coletivo inclusivo para gênero, identidade de gênero, orientação sexual e racial, também parecem estar associados a níveis mais baixos de consumo de cigarro, consumo de álcool e problemas relacionados ao álcool entre adolescentes e adultos jovens LGBTI. Portanto, a questão não é ensinar “tolerância” e sim respeito dentro de uma cultura de paz e inclusão nas escolas e nas famílias! Viva a diversidade!

Alessandra Diehl
Psiquiatra, educadora sexual e especialista em sexualidade humana
Foto: Pixabay

