Por professor Renato Munhoz
O desmatamento da Amazônia atingiu novo recorde no primeiro trimestre de 2022, em comparação do mesmo período do ano passado. Segundo dados do satélite de alertas do Instituto Nacional de Pesquisa (INPE), o DETER, apontam uma área desmatada de 941 km quadrados.

Já nos debruçamos por aqui sobre o modelo de desenvolvimento e os interesses que rondam a Amazônia e os biomas brasileiros. Não se trata apenas da derrubada ou da queimada da floresta. O que tem por detrás do desmatamento é um interesse antigo, que já nos deu como consequência o aquecimento global e a ameaça de biomas inteiros. Por conta do interesse exploratório. Desde que o Brasil foi invadido pelos colonizadores, há mais de 500 anos, vem sofrendo com as consequências de um modelo que retira as riquezas do solo e das florestas, de forma violenta, sem levar em consideração seu processo de recomposição ou regeneração.
A floresta deitada, abre campo para o desenvolvimento de extensivas áreas de pastagens e o plantio de monoculturas. Este modelo, além de destruir a natureza, destrói o território. É um modelo gerador de conflitos históricos. Povos indígenas, comunidades tradicionais, posseiros são espoliados de forma violenta de suas terras em detrimento de um desenvolvimento que é de poucos e para poucos.
A novidade em relação a destruição da floresta é que, além dos interesses na madeira e a derrubada da mata para formação de pastagem e lavouras, cresce o interesse pelo subsolo da Amazônia. Os minérios presentes no solo da floresta têm arrastado para lá grandes corporações de garimpos que, além de destruírem a floresta, deixam um rastro de violência social absurda. Desprotegendo ainda mais os povos originários, colocando em risco a terra, a floresta e as pessoas que ali vivem.
Parece um caminho sem volta. Que é o que nos assusta. A política pública na Amazônia não só caminha para um retrocesso histórico, mas para uma forma de “desproteção ideológica da floresta” que cria uma mentalidade de que tudo é permitido pois o discurso e a prática do atual governo tem sido de favorecer os grupos que desejam apenas destruir a floresta em detrimento de produzir riquezas para si próprios.
A chamada bancada ruralista no Congresso Nacional, que representa o interesse dos grandes proprietários de terras, nunca esteve tão atuante como agora. Estão operando para que as legislações de proteção da floresta deixem o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais), que tem o papel de fiscalizar o coibir a ação exploratória da floresta e passem a ser controladas meramente pelos interesses políticos do próprio Congresso Nacional ou do Ministério da Agricultura, que está sendo controlado por eles.
Já apontei aqui, nesta coluna, a diminuição do orçamento do Meio Ambiente no Brasil que atingiu sobretudo as fiscalizações. Ou seja, com menos recursos os processos de fiscalização ficam travados e muitas vezes sofrem interferências políticas, no sentido de proteger os interesses de exploração e expropriação da floresta.
Pode parecer desanimador, mas na verdade é preocupante. Mudar o rumo do desenvolvimento da Amazônia tem a ver com uma preocupação do mundo todo. Ela compõe uma parcela significativa para o controle do Aquecimento Global no mundo e preserva ainda intactos saberes e riquezas pertencentes aos povos que ali residem a milhares de anos. Preservar isso é preservar a vida como um valor inalienável e inegociável. Não tem preço. Nem muito menos valor econômico. E a destruição desse saber, representa o fim de uma cultura de preservação.
A chave para mudar a cultura de expropriação é exatamente é a consolidação da cultura preservacionista. Só assim nós conseguiremos fazer com que as futuras gerações tenham uma melhor qualidade de vida e possam usufruir do maior serviço da Amazônia, que é a conservação do clima.

Renato Eder Munhoz
Historiador e Teólogo, especialista em Educação Ambiental e Sustentabilidade. Coordenador de Projetos do COPATI (Consórcio de Proteção Ambiental do Rio Tibagi).
Foto: Pexels


Uma resposta
Simples, fora bolsonaro!