Sífilis: uma epidemia que avança silenciosamente

sifilis

Apesar da prevenção fácil e do tratamento simples e gratuito, a DST tem crescido assustadoramente. Os motivos vão da rejeição ao uso de preservativos à resistência masculina em buscar os serviços de saúde

Juliana Gonçalves

Especial para O LONDRINENSE

A prática de relações sexuais sem proteção tem promovido uma explosão no número de casos de sífilis no Brasil e no mundo. Uma doença antiga – pesquisadores afirmam que a sífilis emergiu entre 16 mil e 5 mil anos atrás –, de prevenção fácil e tratamento simples, mas cuja erradicação continua a desafiar globalmente os sistemas de saúde. Em Londrina, o cenário não é diferente. Por aqui, um dos principais obstáculos para a erradicação da doença é a resistência masculina.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a sífilis atinge mais de 12 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, os dados mais recentes compilados pelo Ministério da Saúde (MS) indicam a notificação de 119.800 casos de sífilis adquirida (transmitida entre adultos) só em 2017, um crescimento de 330% em relação a 2012, quando foram registrados 27.857 casos. Consequentemente, no mesmo período, também houve aumento de 112% nos casos de sífilis congênita (transmitida de mãe para filho durante a gestação), que saltaram de 11.634 para 24.668.

Em Londrina, o problema também é crescente. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, em apenas três anos, de 2014 a 2017, o número de notificações de casos de sífilis adquirida saltou de 112 para 257, um aumento de 129%. Fazendo a mesma comparação com os números de casos de sífilis congênita, tem-se um aumento de 48%.

Causas

O MS ressalta que parte do aumento nas notificações se deve ao aprimoramento do sistema de vigilância e à ampliação da utilização de testes rápidos. O infectologista do Centro Integrado de Doenças Infecciosas (CIDI) de Londrina, Fábio Crespo, acrescenta a isso outras duas causas para o aumento assustador nos números. “A propagação da sífilis é muito alta. Se a pessoa infectada tiver a lesão na boca, um simples beijo pode transmitir a doença. Além disso, como o tratamento de HIV muitas vezes deixa o vírus intransmissível, as pessoas relaxaram e deixaram de se proteger das doenças sexualmente transmissíveis”, explica.

Segundo a coordenadora de Saúde da Mulher da Secretaria Municipal de Saúde, Priscila Colmiran, o aumento no número de casos tem sido observado principalmente entre adultos jovens. “Grande parte dessa população tem múltiplos parceiros e não usa métodos contraceptivos de barreira. Acham que o anticoncepcional é suficiente, mas ele só previne gravidez e não as doenças sexualmente transmissíveis como a sífilis”, pondera.

Outro obstáculo para conter o aumento no número de casos, segundo ela, é a dificuldade de acesso aos homens infectados. “Os homens não procuram muito pelos serviços de saúde e, mesmo quando a doença é detectada na parceira, eles não aderem ao tratamento. É necessário que o casal faça o tratamento ao mesmo tempo. Não adianta tratar apenas a mulher porque ela vai ser reinfectada pelo parceiro”, afirma.

Sintomas

O fato de ser uma doença silenciosa também dificulta o trabalho de contenção da doença. Segundo o infectologista Jan Walter Stegmann, a sífilis tem três estágios diferentes e apresenta sintomas indolores e passageiros. “Os primeiros sintomas surgem três semanas após a infecção. Primeiro, aparece uma pequena lesão na área em que houve o contato. Ela é indolor, muitas vezes é interna e desaparece sozinha poucos dias depois. Mais tarde, a doença se manifesta com sintomas como queda de cabelo, lesões dentro da boca, manchas nas palmas das mãos, planta dos pés, e pode ser confundida com alergias”, explica o especialista.

O terceiro estágio dos sintomas, segundo Stegmann, costuma demorar anos e até décadas para aparecer. “Surgem complicações graves como meningite, cegueira, problemas neurológicos ou cardíacos, problemas nos ossos”, alerta. Na sífilis congênita, no entanto, os comprometimentos provocados pela infecção são bem mais precoces. “A sífilis congênita é um problema gravíssimo porque pode resultar em má formação do feto, surdez, cegueira, deficiência mental e até o óbito do bebê. Por isso é importante fazer os testes durante o pré-natal”, ressalta.

A sífilis é totalmente curável. O tratamento é simples e gratuito. Normalmente, são aplicadas três doses de penicilina com intervalos de uma semana. O teste de sífilis também é gratuito e pode ser feito por qualquer pessoa nas Unidades Básicas de Saúde.

Foto: VisualHunt

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