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Será que estamos assistindo uma banalização do Coaching?

“Coaching” é, em geral, um termo do idioma inglês substantivo que quer dizer treinamento ou instrução. Faz parte de um processo de desenvolvimento definido que se utiliza de uma série de metodologias para ajudar um aprendiz ou um cliente a adquirir um objetivo pessoal ou profissional específico através de treinamento e orientação.

Tanto o instrutor, quanto a terminologia, têm seu histórico maior na área da educação onde observamos uma série de estudos que indicam que o profissional coaching devidamente capacitado e com uma tarefa bem especifica é capaz de auxiliar alunos com riscos maiores de aprendizagem através de programas de intervenção precoce, por exemplo, utilizando as características da prática de coaching para melhorar notas escolares ou fazer um currículo. Em alguns países como a Holanda, por exemplo, o coachingna intervenção escolar precoce é, em geral, bem aceito. O coaching pode diferir de mentoria ou de aconselhamento (couseling).

No entanto, a atividade de coaching tem se popularizado de tal monta na atualidade que estamos percebendo que o termo coaching e o “profissional” que se auto intitula coaching tem aumentando enormemente e se tornado uma “profissão” para diversos fins com promessas de ações em qualquer contexto. Por isso, as definições do conceito e as construções de coaching aplicadas à outras áreas são necessárias para avaliar com precisão o relacionamento de coaching e os processos de coaching. Estes podem então ser ligados aos resultados do cliente/aluno para informar como o coaching serve em auxiliar na realização acadêmica por exemplo e/ou na competência e satisfação na carreira e na vida escolar.

A “onda de coaching” tem sido impressionante que parece ter se expandido não somente na área da educação, mas também na área pessoal, profissional, social, sexual, familiar, financeiro e, até mesmo, espiritual. Tudo isto parece bastante preocupante, pois até mesmo na educação cuja finalidade foi descrita acima identificou-se uma falta continuada de definições operacionalizadas; inconsistência no relato do treinamento do coaching e adesão aos princípios ativos / princípios de coaching; e a ausência de medidas de resultados com foco na capacidade dos pais.

Os serviços contemporâneos de intervenção precoce reconhecem a importância de envolver os pais como participantes ativos no desenvolvimento de seus filhos em atividades da educação. Isto é evidente pelo aumento das intervenções que utilizam as práticas de coaching dirigida aos pais. Os achados indicam a necessidade de os profissionais descreverem e documentarem de uma forma mais fidelizada as práticas de coaching na execução da intervenção. Avaliar objetivamente as mudanças na capacidade dos pais e na autoeficácia como resultado da intervenção baseada no coaching. Assim como, o relato das medidas de capacidade dos pais de permitir realmente examinar a eficácia das práticas de coaching no empoderamento das famílias para apoiar seus filhos a realizarem todo o seu potencial.

Parece que agora existe coaching para tudo! Por exemplo, alguém fez uma dieta, conseguiu eliminar peso e ela passa a ser coaching de outras pessoas sem ter suficiente formação na área de nutrição para exercer tal função. Tem coaching para ” tratar” ou “aconselhar” questões sexuais que trabalham em sex-shops e outros settings via internet. Também tem coaching para quem deseja se lançar no mercado e se transformar em uma celebridade/artista, por exemplo. Entre outras ações recentes divulgadas em mídias diversas estão nas áreas da administração, gestão de pessoas, psicologia, nutrição, educação física, recursos humanos, planejamento estratégico, neurociência, na área da sexualidade (os quais se intitulam sexólogos ou educadores sexuais) e até mesmo na saúde mental.

Tal fato é tão preocupante que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) recentemente lançou uma nota, em 13 de maio de 2019, alertando sobre os perigos de profissionais que se auto intitulam terapeutas coaches, mas que não possuem formação adequada na área da saúde mental e que podem realizar diagnósticos inadequados, e sobretudo, prometer tratamentos ou curas alternativas sem evidências cientificas consistentes de morbidades bastante graves, tais como a dependência química, autismo e esquizofrenia, as quais necessitariam de uma equipe multiprofissional qualificada e de psiquiatras capacitados; e não de “profissionais” que exercem função de forma não habilitada para tal.

Cabe mencionar que o coaching não é no Brasil uma profissão regulamentada. Portanto o apelo midiático de tal função pode trazer sanções legais e até mesmo desrespeitar toda a gama de profissionais como nutricionistas, psicólogos e educares físicos que por mérito e vias legais lograram tal êxito. Seria interessante que como o coaching está emergindo como um constructo crescente, este possa ser estudado, avaliado, regulamentado estabelecendo as bases vitais e necessárias de atuação afim de não produzir danos a outrem e auxiliar para a finalidade que se mostrar de fato eficaz e de competência desta metodologia.

Foto: Pixabay

Alessandra Diehl

Psiquiatra, educadora sexual, escritora, especialista em Dependência Química e Sexualidade Humana

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