Por Clodomiro Bannwart
As tias Edileusa e Deolinda estavam se acomodando na poltrona e afivelando os cintos. Era a primeira vez que viajavam de avião. A ansiedade e o nervosismo que tomavam conta das duas foram dissipados pela presença de uma senhora mal humorada que sentou ao lado delas. Poltrona 17. A tal senhora chegou esbravejando. “Faz três dias que aguardo para embarcar. Primeiro foi aquela chuva torrencial que cancelou os voos. Depois, a minha hipertensão que me levou ao hospital. Quiseram boicotar minha liberdade de ir e vir, mas estou aqui para a honra e glória de Jesus!”.
Da cabine soa a voz do comandante. “Senhores passageiros, no tocante a esse voo, sou eu quem manda aqui. Eu sou o capitão, porra! Aliás, eu sou o comandante agora. HAHAHAHAHA!!!”. Edileusa logo reconheceu a voz e o jeitão de falar. “É o Tio-Zão. Não disse, Deolinda, que ele ia longe. É ele! É o nosso comandante! Glória, aleluia. Deus reconhece os seus”.
Depois de vinte e oito anos, Tio-Zão chegou a piloto. Era seu primeiro voo, na condição de comandante, para um trecho de quatro horas com escala, e possibilidade de seguir o segundo trecho com duração igualmente de quatro horas. Totalizavam-se oito horas contínuas de voo, conforme estabelecia a legislação.
Ao realizar o pushback, Tio-Zão furou a fila de decolagem, atravessou o gramado e deu início a decolagem do meio da pista, sem condição alguma de segurança. Um avião que se aproximava para pouso teve de arremeter para não bater no avião pilotado por Tio-Zão. O controlador de voo, desesperado, gritava “voo 1722 não tem autorização de decolagem”. Tio-Zão acionou a potência máxima das turbinas e o avião começou a deslizar na pista extremamente curta. Tio-zão ainda conseguia gritar com o controlador. “Aqui quem manda sou eu, porra! Prefiro perder a vida do que a minha liberdade de decolar!”
O avião decolou sem a sustentabilidade necessária. Quase caiu. O controlador, diante do inusitado, determinou: “Voo 1722 suba a 4 mil pés e faça curta à esquerda.” Tio-zão inconformado respondeu “Seu controlador esquerdista! Vou fazer a curva à direita AHAHAHAH!!!” “Atenção voo 1722, à direita há formação de chuva, com nuvens espessas. Se seguir por esse caminho entrará em uma zona perigosa e de severa turbulência. Tio-Zão responde: “Turbulência é o caralho, porra!”
Tio-Zão avisou a tripulação. “Vamos passar por uma ‘nuvenzinha’. Vai chacoalhar um pouco, mas não precisam colocar o cinto de segurança. Não precisam entrar em pânico”. A chefe de cabine, horrorizada com a informação passada pelo comandante, tomou o microfone e pediu que todos afivelassem os cintos, por questão de segurança. Mas já era tarde. Boa parte dos passageiros haviam tirado os cintos. O avião adentrou na zona de turbulência. As pessoas saltavam como pipoca dentro da aeronave. Muitos batiam com a cabeça no teto do avião, sendo arremetidos de volta aos bancos. O pânico foi instalado. Gritos, choros, rezas, súplicas. A voz do comandante se fez ouvir novamente. “No tocante a essa nuvenzinha, vocês têm de deixar de ser maricas e enfrentar a turbulência de peito aberto. Se é para morrer, vamos morrer como homem, porra! Todo mundo vai morrer um dia!”
Para piorar a situação, o avião foi despressurizado. Ao sinal de luzes indicando que máscaras de oxigênio cairiam automaticamente, o comandante novamente avisou da cabine. “No tocante a essa pequena falta de ar, não precisam colocar as máscaras de oxigênio nas crianças. É insignificante o número de crianças mortas por asfixia em voo”.
O copiloto, em pânico, pede que o Tio-Zão faça uma descida rápida para evitar o pior. Porém, Tio-Zão mergulha o avião cabeça para baixo em velocidade acima do permitido. O copiloto avisa: “Comandante, o avião está ultrapassando a velocidade limite. Isso pode desintegrar a fuselagem. O senhor está colocando o voo e a vida de todos nós em risco.” “E daí? Agora vem você com esse papo de desintegrar o avião. AHAHAHAH! Quem disse isso? Você tem provas?” “Tenho sim, senhor! São cálculos realizados pela engenharia, pelas ciências aeronáuticas”. “AHAHAHAH! E quem disse que a ciência está certa?” Tio-zão tirou um livrinho que estava debaixo do banco. “Eu comprei na livraria do aeroporto. Aqui ó, “Manual para idiotas passo-a-passo”. Tá tudo aqui. AHAHAHAH!!”.
Tio-Zão se levantou da poltrona. “Eu vou falar com os passageiros, talkey! Não coloque a mão em nada aí. Eu continuo no comando!” O copiloto, aproveitando-se da oportunidade e diante da tragédia iminente, tomou o controle do voo.
Tio-Zão abriu a porta da cabine e viu uma quantidade enorme de pessoas feridas, algumas mortas e outras tantas, uns 30% dos passageiros, gritando efusivamente: “Tio-zão, Tio-Zão, Tio-Zão”. Ele acenou e tirou selfie com várias delas, que imediatamente começaram a postar nas redes sociais. “O avião acima das nuvens e Deus acima de todos. Tamo junto. AHAHAHAHAH!”. Um passageiro gritou lá do fundo da aeronave. “Quem está no comando do avião?” “Sou eu! Só dei uma escapada para falar com vocês. AHAHAHA!”
Tio-Zão retornou à cabine e percebeu que o avião já estava se aproximando da cabeceira da pista para pousar. Revoltado com o copiloto, Tio-Zão assumiu o controle da aeronave e fez o pouso. O toque das rodas na pista foi tão forte que um dos trens de pouso quebrou. A asa direita bateu no chão e ficou completamente danificada. O estrago foi grande. Para muitos, o avião não decolará nunca mais.
Na pista do aeroporto, várias ambulâncias socorrendo os feridos. Carros funerários retirando os mortos. Inúmeras viaturas de polícia posicionadas no entorno do avião. Haviam muitos jornalistas noticiando o ocorrido. Alguns, ao vivo, ponderando a possibilidade de o comandante sair preso da aeronave.
Clodomiro José Bannwart Júnior

Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.
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