Por Clodomiro Bannwart
Manhã chuvosa. O tempo estava carregado e o aeroporto lotado em razão do cancelamento de inúmeros voos. Uma senhora discutia com o funcionário de uma das companhias aéreas, enfurecida pelo anúncio transmitido pelos alto-falantes do aeroporto, confirmando que o seu voo havia sido cancelado.
Ela não admitia o ocorrido. Falava alto, gesticulava e expelia palavrões contra o pobre rapaz da companhia aérea. “Eu não quero saber da chuva, eu quero o meu direito de voar. Comprei, paguei, é um direito que eu tenho”. O rapaz, em tom professoral, dizia: “Senhora, é para sua segurança e da dos demais passageiros que o voo foi cancelado. No momento, as condições meteorológicas não garantem a segurança de nenhum voo. A chuva é um fato adverso que não temos controle”.
A mulher irresignada, vendo aumentar a plateia, ergueu o timbre da voz e desferiu impropérios inimagináveis. Perdeu a compostura, esbravejou, gritou. “Minha liberdade de ir e vir está sendo cerceada”. “Vocês, senhores passageiros, não perceberam que também estão sendo vítimas de imposições arbitrárias?” “Eu prefiro morrer de acidente aéreo a perder a minha liberdade”. “Às vezes é melhor perder a vida do que a liberdade!”.
O rapaz da companhia aérea, com aquela paciência de Jó, eleva a régua da argumentação. “Senhora, mantenha a calma e o recato. A liberdade individual somente é experimentada no contexto de obrigações sociais e de responsabilidades coletivas”.
Ainda mais indignada, a senhora respondeu aos berros. “Sai pra lá seu comunista de araque.” “Não me venha com esse papo de social, de coletivo”. “Esse seu uniforme vermelho denuncia que você é um comunista”. “Nossa bandeira jamais será vermelha, jamais!”
A senhora, aos poucos, ficou isolada no meio do saguão. Meia hora depois estava ela sentada num canto, exausta, descabelada, sem audiência, apenas ouvindo o barulho da chuva que despencava dos céus, repicando aturdido no telhado do aeroporto.
Uma pessoa notou que a pobre senhora não passava bem. Chamaram o atendimento médico do aeroporto. Ela apresentava pico de hipertensão. Levaram-na para o hospital, sem interrogar o seu consentimento. A pobre senhora já não tinha força para reivindicar sua liberdade individual de ir e vir. Estava sob o amparo de terceiros, que cuidaram dela. A companhia área efetuou o pagamento dos gastos hospitalares, mais três diárias de hotel com alimentação inclusa. E remarcou seu voo, atendendo as regras da legislação.
Clodomiro José Bannwart Júnior

Professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina. Coordenador do Curso de Especialização em Filosofia Política e Jurídica da UEL. Membro da Academia de Letras de Londrina.
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