Por professor Renato Munhoz
Vivemos tempos de perplexidade diante dos nossos adolescentes e jovens. Muitos olham para eles e só enxergam problemas: violência, desinteresse, fragilidade emocional, dependência de telas. Outros, mais apressados, já os rotulam como “geração perdida”. Mas e se, em vez de culpá-los, olhássemos para o processo inteiro que os forma (ou que deixa de formar)? É aí que proponho pensarmos juntos àquilo que venho chamando de tríade do desenvolvimento humano: três linhas que, quando funcionam em harmonia, produzem sujeitos plenos de sentido, responsabilidade e potência. Quando uma delas falha ou é negligenciada, todo o equilíbrio desaba.
1. A primeira aldeia: a família
A família é o lugar onde o barro humano começa a ser moldado. É lá que a criança aprende (ou não) limites, afeto, linguagem do cuidado, hierarquia saudável, valores básicos de respeito e trabalho. É o primeiro espelho em que ela se vê refletida como pessoa e começa seu desenvolvimento.
Hoje, porém, essa primeira aldeia vive uma crise dupla. De um lado, as configurações familiares se transformaram profundamente: famílias monoparentais, recompostas, homoafetivas, avós cuidadores, pais ausentes por jornada tripla de trabalho. Essas novas formas não são, por si só, um problema – muitas vezes são heroicas. O problema aparece quando a família, qualquer que seja seu formato, deixa de compreender-se como espaço pedagógico intencional.
A outra face da crise é a concorrência desleal: nunca na história da humanidade uma criança ou adolescente recebeu tanto volume de estímulos, informações e modelos de comportamento vindos de fora da família. Redes sociais, influenciadores, algoritmos disputam palmo a palmo o lugar que antes era quase exclusivo dos pais e parentes próximos. E disputam com armas muito mais sedutoras: dopamina instantânea, validação imediata, promessa de pertencimento sem esforço.
Resultado: muitas famílias desistiram de ser aldeia formadora e passaram a ser apenas provedoras de wi-fi e comida na geladeira.
2. Os espaços de consciência: escola, religião, movimentos, grupos

Se a família molda o comportamento, os espaços de consciência têm a missão de lapidar o sentido. Aqui a pessoa deixa de ser apenas “bem-comportada” e começa a perguntar: “Por quê? Para quê? Quem eu quero ser? Que mundo eu quero ajudar a construir?
Escola, igreja, templo, terreiro, grupo de escoteiros, movimento estudantil, ONG, grêmio, equipe esportiva – todos esses lugares deveriam ser forjas de consciência crítica e ética. Deveriam acender luzes no projeto de desenvolvimento de vida do jovem.
O que vemos, porém, é um esvaziamento assustador desses espaços. A escola, sufocada por currículos engessados e pressão por notas, muitas vezes se reduz a transmissão de conteúdo sem sentido existencial. Igrejas e religiões, em muitos casos, viraram clube social ou comércio de bênçãos, afastando-se da tarefa de formação ética profunda. Movimentos sociais e políticos perderam densidade formativa e ganharam polarização raivosa. Até as redes sociais, que poderiam ser praça pública, viraram ringue de linchamento ou câmara de eco.
Pior: crescem deliberadamente estratégias de desinformação e manipulação que têm como alvo exatamente a consciência dos jovens. Fake news, teorias conspiratórias, discursos de ódio são produzidos em escala industrial para impedir que essa geração levante voo. Espaço de consciência virou território perigoso.
3. Os espaços de regulação: quando a lei tenta fazer o trabalho que os outros não fizeram
Quando a primeira aldeia (família) não moldou o desenvolvimento saudável e os espaços de consciência não acenderam luz interior, resta à sociedade apelar para a terceira linha: a regulação externa – polícia, justiça, medidas socioeducativas, internação compulsória.
É o que acontece quando um adolescente comete um ato infracional grave. A sociedade, assustada, grita por mais cadeia, mais rigor, mais controle. E aí vem a grande tentação: começar o processo de formação pela última ponta da tríade. É mais rápido, mais visível, dá manchete. É a lógica do “bandido bom é bandido preso” aplicada a meninos de 14, 15 anos.
Essa inversão explica fenômenos como a pressão por redução da maioridade penal ou a militarização de escolas públicas. Em vez de investir maciçamente em família e em espaços de consciência, escolhe-se a solução aparentemente mais simples: transformar a escola em quartel e o jovem em soldado (ou em preso em potencial). Abrem-se mão dos dois primeiros elos da tríade e se aposta tudo na força da lei e do uniforme. É o atestado de fracasso coletivo disfarçado de solução enérgica.
A ordem correta e o potencial de desenvolvimento dos jovens
A tríade só funciona na ordem certa: Família → Consciência → Regulação (só se necessário).
Quando invertemos essa ordem, produzimos cidadãos obedientes por medo, não por convicção. Produzimos jovens que cumprem a lei porque “se não cumpre, apanha”, não porque compreenderam o valor da vida em sociedade. Isso não é educação, é adestramento.
Nossos adolescentes e jovens não são o problema. São o sintoma mais visível de uma sociedade que abandonou a tarefa paciente do desenvolvimento e formação de pessoas e preferiu a solução rápida de controlá-las. Eles são cheios de potência – criatividade, coragem, desejo de justiça, capacidade de reinventar o mundo. Mas essa potência, quando não é acolhida e orientada nas duas primeiras aldeias, vira angústia, violência ou apatia.
Se queremos de fato mudar o cenário, precisamos ter a coragem de investir pesado nas pontas certas: apoio real às famílias (licença-parental decente, creches integrais, políticas de conciliação trabalho-família, formação de pais), e a recuperação urgente dos espaços de consciência (escola que forme para a vida e não só para o vestibular, religião que forme caráter e não medo, movimentos juvenis que formem líderes e não militantes raivosos).
Só assim a terceira ponta da tríade – a regulação – poderá ser cada vez menos necessária. Porque o melhor sistema prisional é aquele que quase ninguém precisa usar. A melhor polícia é aquela que quase nunca precisa agir. O melhor juiz de menores é aquele cuja agenda está quase vazia.
Porque os jovens terão sido formados – desde a primeira aldeia – para serem protagonistas conscientes do seu tempo.
Por uma educação que não começa pelo medo, mas pelo sentido. Por uma geração que não seja apenas controlada, mas plenamente realizada.
Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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