Quando o IDEB fala, o que ele realmente está dizendo?

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Por professor Renato Munhoz

Os resultados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) voltaram a ocupar espaço nas manchetes. Como acontece a cada divulgação, rapidamente surgem rankings, comparações entre municípios, comemorações, frustrações e, infelizmente, julgamentos precipitados. Mas talvez a pergunta mais importante não seja qual foi a nota da escola, e sim: o que essa nota realmente revela sobre a educação que estamos construindo?

O IDEB é um importante instrumento de avaliação. Criado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas), ele combina o desempenho dos estudantes nas avaliações do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) com os indicadores de fluxo escolar, como aprovação. Seu objetivo é acompanhar a qualidade da educação básica brasileira e orientar políticas públicas.

Entretanto, nenhum indicador consegue traduzir sozinho a complexidade da escola. Há uma realidade que muitas vezes escapa aos gráficos.

Nos últimos anos, especialmente após a pandemia, as escolas brasileiras passaram por uma profunda transformação. Muitas delas deixaram de ser apenas espaços de transmissão de conteúdos para se tornarem locais de acolhimento, proteção, escuta, fortalecimento dos vínculos familiares e desenvolvimento socioemocional. Essa mudança nem sempre aparece imediatamente em uma escala de proficiência.

E, ainda assim, ela produz aprendizagem. Os próprios resultados nacionais do IDEB demonstram que existe um avanço, principalmente nos anos iniciais do Ensino Fundamental, ainda que desigual entre as etapas da educação básica. Entre 2021 e 2023, praticamente todos os estados brasileiros apresentaram melhora nos anos iniciais, enquanto os avanços nos anos finais e no ensino médio continuam sendo desafios importantes.

IDEB e as escolas vivas

Mas existe um aspecto curioso. Ao visitar escolas que apresentam resultados consistentes ao longo do tempo, dificilmente encontramos apenas boas apostilas ou excelentes simulados. Encontramos algo muito mais profundo: equipes comprometidas, professores valorizados, liderança pedagógica presente, participação das famílias e projetos que fazem sentido para a comunidade.

São escolas vivas. Escolas onde o estudante não é apenas um número em uma planilha. Isso dialoga diretamente com o pensamento de António Nóvoa, quando afirma que a escola de qualidade nasce da construção de comunidades educativas fortes, onde professores, estudantes e famílias compartilham responsabilidades. Da mesma forma, José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte, sempre defendeu que aprender acontece quando a escola cria sentido para a vida do estudante, e não apenas quando prepara para uma prova.

O IDEB mostra que as escolas com resultados consistentes ao longo do tempo são aquelas que têm equipes comprometidas, professoras valorizados e participação das famílias
Fotos: Magnific

Paulo Freire talvez resumisse essa discussão de forma ainda mais simples: não existe aprendizagem verdadeira sem diálogo, pertencimento e humanização.

Por isso, reduzir o IDEB a um ranking pode ser um enorme equívoco. Os números devem provocar perguntas, não sentenças. Por que uma escola cresceu? Quais práticas deram resultado? Como determinadas equipes conseguiram reduzir a evasão? Que tipo de relação foi construída com as famílias? Que projetos despertaram maior participação dos estudantes?

São essas respostas que realmente interessam à educação. Existe também outro cuidado necessário.

Quando uma escola apresenta resultados abaixo do esperado, a tentação é procurar culpados. Entretanto, os dados educacionais refletem muito mais do que o trabalho realizado dentro dos muros escolares. Eles dialogam com desigualdades sociais, condições econômicas, acesso à cultura, políticas públicas, infraestrutura e oportunidades oferecidas às crianças e aos jovens. O desempenho escolar é resultado de um ecossistema inteiro, não apenas da sala de aula. Estudos recentes baseados nos microdados do SAEB reforçam que fatores socioeconômicos e características do ambiente escolar exercem forte influência sobre a aprendizagem.

Talvez seja exatamente aí que esteja a maior contribuição do IDEB. Ele não deve servir para distribuir medalhas nem para alimentar disputas entre escolas. Deve servir para orientar decisões.

Aprender com os números do IDEB

Os números indicam onde investir, quais experiências merecem ser compartilhadas, onde a formação docente precisa ser fortalecida e quais políticas públicas necessitam ser revistas. Mais do que medir o passado, o IDEB pode ajudar a construir o futuro.

A educação brasileira avança quando compreende que qualidade não se resume ao desempenho em Língua Portuguesa e Matemática. Qualidade também significa garantir pertencimento, cidadania, pensamento crítico, criatividade, convivência e esperança.

Porque, no fim das contas, uma boa escola não é apenas aquela que melhora seus índices. É aquela que melhora vidas. E talvez seja justamente isso que os melhores resultados do IDEB estejam tentando nos dizer.

Professor Renato Munhoz

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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