O terceiro luto: a dor invisível das mães no RJ

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Por professor Renato Munhoz

A tragédia que ceifou mais de 100 vidas no Rio de Janeiro não é apenas um número ou uma manchete passageira. Ela carrega em si a história de um luto triplo, uma dor que as mães das periferias brasileiras conhecem há muito tempo, mas que a sociedade insiste em ignorar. Este artigo propõe uma reflexão sobre o que chamamos de “Terceiro Luto” – uma dor que não começa com a morte física, mas que se constrói ao longo de uma vida marcada pela ausência do Estado, pela sedução do crime organizado e, finalmente, pela brutalidade de uma violência que expõe as feridas de uma sociedade cega pelo ódio, pelo racismo e pelo preconceito.

O primeiro luto começa muito antes do último suspiro. É o luto da esperança roubada, da promessa não cumprida de um futuro digno. As mães das periferias do Brasil, como aquelas que hoje choram no Rio de Janeiro, veem seus filhos crescerem em um contexto de inoperância e ineficiência do Estado. Onde estão as políticas públicas que poderiam oferecer educação de qualidade, acesso à cultura, ao esporte, ao trabalho? Onde estão as oportunidades que poderiam tirar esses jovens do ciclo de exclusão? A ausência do Estado é um vazio que dói. É a dor de saber que seus filhos, desde cedo, são privados de escolhas, condenados a um destino que não deveria ser inevitável. Esse luto é silencioso, mas constante, um peso que as mães carregam enquanto lutam para oferecer o que o sistema lhes nega.

O segundo luto vem quando o vazio deixado pelo Estado é preenchido pelo crime organizado. O tráfico de drogas e a violência que permeiam as comunidades periféricas não são escolhas naturais, mas consequências de um abandono estrutural. Jovens, sem perspectivas, são aliciados por uma cultura que se tornou, para muitos, a única forma de pertencimento, de status, de sobrevivência. As mães assistem, impotentes, enquanto seus filhos são tragados por esse sistema que promete poder e dinheiro, mas entrega morte e desespero. Esse segundo luto é a dor de ver um filho ainda vivo, mas já perdido para um caminho que não oferece volta. É a dor de quem tenta, mas não consegue competir com as promessas sedutoras do crime, que se aproveita da ausência de oportunidades para recrutar seus soldados.

O terceiro luto, o mais cruel, é o da perda definitiva. É quando o corpo do filho, que já estava simbolicamente “no chão” há tanto tempo – invisível aos olhos de uma sociedade indiferente –, torna-se visível na brutalidade da morte. As mães do Rio de Janeiro, que hoje choram seus filhos assassinados, não começaram a sofrer agora. Essa dor é antiga, acumulada, agravada pela barbaridade de uma violência que não poupa, que não explica, que não consola. É uma dor que carrega a culpa de não ter podido fazer mais, de não ter tido os recursos, as oportunidades, o apoio. É uma dor que se amplifica quando a sociedade, cega pela cultura do ódio, do racismo e do preconceito, escolhe comemorar essas mortes em vez de refletir sobre suas causas.

As mães da tragédia do Rio de Janeiro vivem agora o terceiro luto, uma dor que é construida ao longo de uma vida marcada pela ausência do Estado
Fotos: Pexels

A normalização da dor dessas mães

O que mais assusta, talvez, seja a normalização dessa tragédia. Milhares de pessoas, muitas delas se considerando “de bem”, celebram essas mortes como se fossem uma solução, como se o extermínio de jovens periféricos pudesse apagar as falhas de um sistema que os condenou desde o nascimento. Essa celebração é um sintoma de uma sociedade adoecida, que prefere o ódio à empatia, a punição à justiça, o silêncio à reflexão. Quantos mais precisarão morrer para que percebamos que a guerra “de lá” já chegou aqui? Ela está nas ruas, nas comunidades, nos corações endurecidos de quem escolhe não ver.

As mães do Rio de Janeiro, com seus gritos de dor, tornam visível o que sempre esteve diante de nós: a desigualdade, o racismo, a exclusão. Seus filhos, que agora jazem no chão, nunca foram apenas corpos. Eram sonhos, eram possibilidades, eram vidas que poderiam ter seguido outros caminhos se o Estado e a sociedade tivessem cumprido seu papel. O terceiro luto não é apenas delas; é de todos nós. É o luto por uma humanidade que parece ter esquecido o que significa ser humano.

Quantos ainda terão que morrer para que possamos, enfim, enxergar? A resposta está na nossa capacidade de ouvir essas mães, de sentir sua dor, de transformar o luto em ação. Porque, enquanto continuarmos a ignorar, a guerra seguirá chegando – e ninguém estará a salvo.

Professor Renato Munhoz

A intergração de temas climáticos na educção é essencial para fomentar a sustentabilidade e equipas jovens com ferramentas contra desinformação

Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.

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