“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim…”
Por professor Renato Munhoz
Quem nunca se deixou levar pela melodia de A Praça, eternizada na voz de Ronnie Von? A canção fala de um lugar que permanece, de lembranças que insistem em ficar e de uma paisagem que parece resistir à passagem do tempo. Há algo de bonito nessa permanência. Afinal, nem tudo o que é antigo precisa ser abandonado.
Mas, quando transportamos essa imagem para a educação brasileira, a poesia começa a provocar certo desconforto.
A mesma escola. A mesma aula. A mesma ideia.
E o mundo inteiro mudando lá fora.
Enquanto a inteligência artificial transforma profissões, a ciência redefine nossas possibilidades, as relações de trabalho se modificam e a informação circula em uma velocidade nunca vista, ainda encontramos salas de aula organizadas por uma lógica que parece ter feito um pacto com o passado. O professor fala, o estudante anota, o sinal toca e a vida segue. No dia seguinte, repetimos o ritual, como se a aprendizagem fosse uma espécie de cerimônia em que a presença física garantisse, por si só, a construção do conhecimento.
Não garante.
O problema da educação brasileira não é preservar aquilo que funciona. É transformar a repetição na própria ideia de educação.
Durante muito tempo, a escola foi pensada para transmitir conhecimentos relativamente estáveis, em uma sociedade na qual o acesso à informação era limitado. O professor ocupava o lugar de quem sabia, o livro era uma das principais fontes de consulta e a sala de aula concentrava boa parte das possibilidades de aprendizagem.
Esse mundo já não existe da mesma maneira.
Hoje, nossos estudantes carregam no bolso dispositivos capazes de acessar bibliotecas inteiras, consultar pesquisas, traduzir idiomas e produzir textos em segundos. Isso não significa que saibam mais, compreendam melhor ou estejam preparados para enfrentar os desafios contemporâneos. Significa apenas que a escola perdeu o monopólio da informação.
E, quando a informação deixa de ser escassa, a capacidade de interpretá-la se torna ainda mais importante.
É aqui que precisamos fazer uma pergunta incômoda: se o mundo mudou tanto, por que insistimos em acreditar que ensinar pode continuar sendo essencialmente a mesma coisa?
O aluno mudou. A escola percebeu?
Há uma confusão perigosa no debate educacional: acreditar que modernizar a escola significa colocar computadores nas salas, distribuir tablets ou instalar telas digitais nas paredes.
A tecnologia pode ajudar muito. Mas uma aula expositiva pouco instigante não se transforma em uma experiência revolucionária apenas porque o professor substituiu o quadro por uma apresentação colorida.
Podemos digitalizar o tédio.
Podemos projetar a mesmice em alta definição.
E podemos, inclusive, produzir uma escola aparentemente moderna, repleta de equipamentos, mas incapaz de estimular a curiosidade, a investigação e o pensamento crítico.
A verdadeira inovação educacional não começa pelo equipamento. Começa pela pergunta que fazemos ao estudante.
Em vez de perguntar apenas o que ele memorizou, precisamos investigar o que consegue compreender, relacionar, questionar e produzir com aquilo que aprendeu.
Em vez de apresentar a realidade como um conjunto de respostas prontas, precisamos oferecer ferramentas para que ele aprenda a formular perguntas melhores.
Isso exige uma mudança importante na maneira como compreendemos o trabalho docente. O professor não perde relevância quando deixa de ser a única fonte de informação. Pelo contrário: torna-se ainda mais necessário como mediador do conhecimento, orientador da investigação e responsável por ajudar o estudante a distinguir evidências de opiniões, argumentos de manipulações e conhecimento científico de desinformação.
Em um mundo que oferece respostas instantâneas para quase tudo, ensinar a pensar talvez seja uma das tarefas mais sofisticadas da educação.
A mesma ideia, o mesmo currículo, a mesma limitação
O problema da repetição também aparece na maneira como organizamos os currículos.
Durante os últimos anos, o Brasil discutiu reformas, competências, itinerários formativos e aproximação entre escola e mercado de trabalho. Algumas dessas mudanças partiram de questões legítimas. Precisamos, de fato, aproximar a educação da realidade dos jovens e oferecer percursos formativos diversificados.
Mas existe uma diferença entre diversificar oportunidades e reduzir o acesso ao conhecimento.
Quando a formação geral perde espaço, quando determinadas áreas passam a ser tratadas como secundárias e quando a escolha dos estudantes depende da estrutura que cada escola consegue oferecer, corremos o risco de produzir uma educação desigual justamente em nome da flexibilidade.
Um jovem precisa aprender a trabalhar, evidentemente. Mas também precisa compreender a sociedade na qual trabalhará.
Precisa conhecer matemática para interpretar números, história para compreender processos, geografia para analisar as relações entre território e poder, filosofia para examinar argumentos, sociologia para investigar as estruturas sociais, ciências para compreender fenômenos e artes para ampliar suas possibilidades de expressão.
Não se trata de defender uma escola parada no tempo, que mantém todas as coisas como sempre foram. Trata-se de reconhecer que o conhecimento não pode ser sacrificado em nome de novidades que prometem resolver todos os problemas.
A escola precisa mudar sem perder aquilo que a torna indispensável: o compromisso de garantir a todos o acesso ao conhecimento historicamente produzido pela humanidade.
Não podemos preparar os jovens para o futuro retirando deles as ferramentas necessárias para compreender o presente.
E há uma contradição nisso tudo. Nunca falamos tanto em protagonismo estudantil, mas continuamos organizando experiências nas quais, muitas vezes, o estudante tem pouca oportunidade de investigar, criar, experimentar e participar efetivamente da construção do conhecimento.
Queremos jovens protagonistas, mas frequentemente lhes entregamos um roteiro no qual todas as falas já foram escritas.
Queremos criatividade, mas punimos o erro como se experimentar fosse uma falha de caráter.
Queremos pensamento crítico, mas nem sempre oferecemos tempo, repertório e liberdade intelectual para que ele se desenvolva.
Depois, quando os resultados não aparecem, anunciamos mais uma reforma.
A mesma praça. O mesmo banco. As mesmas flores.
O problema também está na arquitetura do sistema
A repetição não é apenas pedagógica. É também administrativa.
O Brasil possui um sistema educacional organizado pela colaboração entre União, estados e municípios. Essa estrutura tem razões históricas e constitucionais importantes, e a autonomia dos entes federativos pode aproximar as decisões das necessidades de cada comunidade.
Entretanto, a cooperação nem sempre funciona como deveria.
Políticas mudam de uma gestão para outra, programas são interrompidos, prioridades se alteram e redes de ensino trabalham com condições muito diferentes. Em determinadas situações, a fragmentação dificulta a continuidade de projetos e a construção de uma política nacional de longo prazo.
O estudante, porém, não deveria precisar recomeçar sua trajetória educacional a cada mudança de rede ou de governo.
É por isso que precisamos discutir o fortalecimento da coordenação nacional, o financiamento da equidade e a continuidade das políticas públicas. Não para transformar todas as escolas em cópias umas das outras, mas para garantir que a diversidade regional não seja utilizada como justificativa para a desigualdade de oportunidades.
Nesse debate, os Institutos Federais oferecem uma experiência que merece ser observada.
Ao articular Ensino Médio, formação técnica, ciência, pesquisa e extensão, essas instituições demonstram que é possível construir uma proposta educacional na qual aprender não significa apenas acumular conteúdos ou preparar-se para uma ocupação específica.
O estudante pode estudar os fundamentos científicos de uma profissão, desenvolver projetos, investigar problemas locais e produzir soluções para situações concretas.
É uma formação que procura aproximar o conhecimento da realidade sem reduzir o conhecimento àquilo que o mercado exige imediatamente.
Não precisamos transformar toda escola brasileira em um Instituto Federal. Precisamos compreender o que essa experiência ensina sobre as possibilidades de uma educação pública estruturada, comprometida com a formação integral e capaz de articular teoria e prática.
A questão não é copiar um modelo. É aprender com aquilo que funciona e construir políticas que permitam ampliar oportunidades.

A escola não precisa abandonar a praça. Precisa movimentar a vida que existe nela
Talvez o problema não esteja na praça, no banco, nas flores ou no jardim.
Está em acreditar que a paisagem precisa permanecer intocada enquanto o mundo se transforma ao seu redor.
Há conhecimentos que merecem ser preservados. Há experiências pedagógicas tradicionais que continuam produzindo excelentes resultados. Há professores que fazem trabalhos extraordinários em condições difíceis, construindo relações humanas que nenhuma tecnologia pode substituir.
Inovar não significa jogar tudo fora.
Significa ter coragem para distinguir o que deve permanecer daquilo que precisa mudar.
Uma escola inovadora não é necessariamente aquela que utiliza a tecnologia mais cara. É aquela que consegue despertar a curiosidade de um estudante, ampliar seu repertório cultural, ensinar-lhe a argumentar e criar condições para que transforme conhecimento em compreensão.
É aquela em que a matemática ajuda a interpretar os problemas da cidade, a história ilumina os conflitos do presente, a ciência estimula a investigação e a arte permite enxergar o mundo por perspectivas que antes pareciam impossíveis.
É aquela em que o estudante não vai à aula apenas para descobrir o que o professor sabe, mas também para descobrir aquilo que ele próprio é capaz de compreender, investigar e construir.
E isso depende de professores valorizados, currículos consistentes, financiamento adequado e políticas públicas que não tratem cada mudança de governo como uma oportunidade para começar tudo novamente.
A educação precisa de continuidade, mas não de imobilidade.
Precisa de memória, mas também de imaginação.
Precisa respeitar o conhecimento acumulado sem transformar o passado em uma prisão.
E se a próxima aula fosse diferente?
Voltemos à canção.
“A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim…”
Há uma beleza na permanência. Mas a educação não pode ser apenas a paisagem que contemplamos enquanto o tempo passa.
Precisa ser o lugar em que aprendemos a compreender o tempo, interpretar as mudanças e participar da construção do futuro.
Talvez a pergunta mais importante não seja se a escola deve mudar. Isso já sabemos.
A pergunta é se temos coragem de mudar a experiência de aprendizagem sem abrir mão do conhecimento, da ciência, da cultura e da formação crítica.
Porque o estudante que entra hoje em uma sala de aula viverá em um mundo que ainda estamos tentando compreender. Não sabemos exatamente quais profissões exercerá, quais tecnologias utilizará ou quais problemas precisará enfrentar.
Mas podemos garantir que tenha repertório intelectual para aprender continuamente, autonomia para avaliar informações e consciência para participar da vida em sociedade.
Não precisamos de uma escola que adivinhe o futuro.
Precisamos de uma escola que ensine a pensar diante do desconhecido.
E, se a praça pode continuar a mesma, que pelo menos o banco seja ocupado por estudantes capazes de fazer perguntas novas, as flores sejam vistas por outros ângulos e o jardim se transforme em um espaço de investigação, descoberta e criação.
Porque o verdadeiro fracasso não é encontrar a mesma escola todos os dias.
É passar anos dentro dela e sair acreditando que o mundo não poderia ser diferente.

Professor Renato Munhoz
Educador, historiador, teólogo. Pós graduado em juventude gestão de programas e projetos sociais e educação ambiental.
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