Por Telma Elorza
A doação de sangue é um ato que, por si só, deveria bastar. Discreto, altruísta e vital, esse gesto salva vidas todos os dias sem precisar de aplausos ou likes. Mas, em Londrina, parece que até a solidariedade precisa passar pelo filtro do Instagram e virar palco para vídeos coreografados.
A Câmara Municipal de Londrina lançou recentemente uma campanha dentro do Junho Vermelho — mês de conscientização sobre a doação de sangue — que, à primeira vista, parece bem-intencionada. A ideia é simples: um vereador doa sangue, grava um vídeo desafiando outro colega (ou cidadão) a fazer o mesmo e posta nas redes sociais, marcando o Hemocentro e os perfis envolvidos. Assim, cria-se uma “corrente do bem”. Mas por trás dessa aparência solidária, o que se vê é mais um espetáculo de vaidades disfarçado de causa nobre.
Transformar um ato tão sério em corrente de desafio de Instagram é, no mínimo, questionável. Não estamos falando de dancinhas ou trends virais, mas de uma ação que, idealmente, deveria ser constante, pautada pelo compromisso com a vida — não pela necessidade de exposição ou curtidas.
É claro que campanhas públicas têm um papel importante na conscientização da população. E, sim, figuras públicas podem e devem usar sua influência para o bem. Mas há uma linha tênue entre mobilizar e aparecer, e muitos dos nossos vereadores, infelizmente, parecem estar mais preocupados em alimentar seus perfis do que os bancos de sangue.
O Hemocentro do Hospital Universitário de Londrina precisa, com muita frequência, reforçar os pedidos de doação. Os estoques variam e, muitas vezes, estão em níveis críticos, como aconteceu recentemente. O foco deveria estar em estimular a doação regular — aquela que se repete, mês após mês, sem câmeras, sem hashtags, sem plateia. A doação que não precisa de desafio ou de roteiro.

Solidariedade ou engajamento?
O formato proposto pela Câmara também cria uma espécie de competição disfarçada de engajamento. Quem não responder ao “desafio” pode ser visto como alguém indiferente à causa. E, sejamos francos: vereador desafiando vereador soa muito mais como autopromoção do que como ação cidadã. A solidariedade virou performance.
É triste ver como, mesmo em iniciativas importantes, há sempre o impulso de transformar tudo em palco. A campanha poderia ter sido mais séria, mais mais preemente e menos midiática. A Câmara poderia ter usado sua estrutura para divulgar dados, estimular a doação constante, promover eventos educativos, facilitar transporte para doadores, firmar parcerias duradouras com o Hemocentro. Mas optou por seguir o caminho mais superficial: o da vaidade digital.
Enquanto isso, quem realmente doa sangue com frequência — sem que ninguém veja, sem hashtags, sem “desafios” — segue salvando vidas no anonimato. Essas pessoas são os verdadeiros heróis e não precisam de vídeos para provar nada.
Se os vereadores de Londrina realmente querem ajudar, que doem sangue regularmente, incentivem a população com seriedade, aprovem políticas públicas que fortaleçam o sistema de saúde e deixem os holofotes de lado. Porque, no fim das contas, o sangue que salva vidas não precisa de filtro nem de palco — precisa de compromisso. Você já doou? Então vá doar. E não, não precisa fazer dancinha para isso.
Telma Elorza
Jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD. Integra o Conselho da Mulher Empresária da ACIL.
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