Meio ambiente: o díficil é conseguir informações claras da prefeitura

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Por Telma Elorza

Londrina é, apesar de não parecer para quem caminha pelas calçadas sem uma única árvore, uma cidade verde. Temos lagos urbanos maravilhosos, temos parques, fundos de vale, nascentes, córregos e rios cortando o município em todas as direções. Mas, infelizmente, não conseguimos enxergar direito o que está sendo feito pelo nosso meio ambiente.

Sim, vou voltar a falar do Fundo Municipal do Meio Ambiente (FMMA), porque isso está me incomodando num tanto, que estou quase obcecada, desde que foi noticiado que cerca de R$20 milhões do fundo foi usado para despesas de custeio da Educação, durante o ano de 2025. Fui pesquisar e BAM! Cadê que consigo informações claras no site da Prefeitura, o Portal da Transparência?

E o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) concorda comigo que é quase impossível conseguir dados concretos sobre o ambiente em Londrina. No Índice de Transparência dos Municípios do Paraná 2025, o Meio Ambiente foi o quesito em que Londrina recebeu a pior nota entre os itens avaliados na gestão pública.

Tente fazer uma pesquisa, no Portal da Transparência da prefeitura de Londrina para saber qual o saldo hoje no Fundo Municipal do Meio Ambiente. Não é nada fácil e acessível
Foto: Print da tela do portal do TEC-PR

O problema não é pequeno. E também não significa necessariamente que a cidade cuide mal do meio ambiente. Significa, porém, algo extremamente grave. Nós, cidadãos, temos dificuldades para acompanhar de perto como ele está sendo cuidado, de onde o dinheiro está vindo e para onde está indo.

Transparência não é jogar milhares de documentos (em vários formatos) em um portal eletrônico e desejar “boa sorte, se vira” ao contribuinte. Transparência é fazer com que qualquer pessoa consiga descobrir, em pouco cliques, para onde vai o dinheiro público e os resultados entregues à população.

E aí que a coisa complica.

Quando li a média de transparência do ranking do TCE, 5,07, pela primeira vez, imaginei que encontraria um cenário preocupante: falta de informações, ausência de prestação de contas ou documentos inacessíveis ao cidadão. E resolvi fazer um teste simples:

Um cidadão comum conseguiria descobrir quanto dinheiro existe no Fundo Municipal do Meio Ambiente, hoje? Em quais projetos esse dinheiro está sendo investido e quais as metas ambientais para os próximos anos?

A resposta foi mais interessante – e preocupante – do que um simples sim ou não.

As informações existem, o problema é encontrá-las.

A busca sobre informações do meio ambiente que virou caça ao tesouro

Na minha pesquisa, descobri, por exemplo, que o FMMA possui três contas bancárias distintas, alimentadas por diferentes fontes de recursos, entre elas o ICMS Ecológico e as multas ambientais. Estão lá os extratos bancários, disponíveis para consulta. Porém, não existe um demonstrativo simples e consolidado que informe ao cidadão quanto dinheiro há hoje no Fundo.

Para descobrir o saldo disponível, é preciso abrir diversos arquivos, consultar as três contas bancárias e fazer as contas, juntando tudo. Muito trabalho e, sinceramente, eu desisti.

É preciso de uma calculadora, algumas horas disponíveis e certa familiaridade com documentos financeiros para descobrir uma informação básica: o valor total do Fundo Municipal do Meio Ambiente.  Ou seja, tem informação pública, mas não tem transparência.

A mesma situação acontece quando nos propomos a analisar os projetos ambientais financiados pelo fundo. Por exemplo, vi investimentos superiores a R$5,5 milhões destinados, entre outras coisas, à expansão da arborização urbana, à reconstrução do Parque Daisaku Ikeda, planos de manejo dos parques municipais e resgate de animais silvestres em áreas urbanas e periurbanas. Tá. São investimentos importantes e que merecem ser conhecidos pela população. Mas não há um painel simples que permita ao cidadão acompanhar, por exemplo, quanto foi investido nos últimos cinco anos, quais projetos já foram concluídos, quais estão em execução e os resultados alcançados.

Mais uma vez, a informação não conversa com o cidadão.

A busca para responder a terceira pergunta (quais são as metas ambientais de Londrina para os próximos anos) foi outro parto. A cidade possui inúmeros planos e programas ambientais. Há documentos sobre educação ambiental, saneamento básico, recuperação de matas, resíduos sólidos, arborização urbana e desenvolvimento sustentável. Legal, né? Mas não consegui respostas.

Quantas árvores Londrina pretende plantar até 2028, por exemplo? Quantas nascentes deverão ser recuperadas? Metas para reciclagem no Município? Coisas simples e importantíssimas. Mas não estavam lá.

Talvez essas informações estejam espalhadas entre o Plano Plurianual, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e outros documentos técnicos. Mas porque não estão disponíveis facilmente ao cidadão?

Transparência não deve ser um jogo de caça ao tesouro. A informação tem que estar ali, clara, fácil e acessível. O cidadão não deveria precisar percorrer 15 páginas diferentes do portal para apenas entender o que a prefeitura pretende fazer pela cidade.

A informação existe, mas está tão fragmentada que não cumpre sua função que é permitir o controle social.

Ao final dessa pequena investigação, mudei minha percepção inicial sobre a nota recebida pela cidade, no levantamento do Tribunal de Contas. Não me parece que a cidade sofra de falta de transparência ambiental, mas de falta de acessibilidade da informação. Para que facilitar se pode complicar, né? Menos cidadãos dando pitaco na gestão pública. Não quero nem imaginar como é procurar algo do tipo na Administração Financeira do Município, quesito que também recebeu uma nota baixa, 5,83. Imagina entender alguma coisa ali? É preciso ser auditor fiscal.

Foto principal: Lago Cabrinha – crédito: Emerson Dias/N.COM

Telma Elorza 

É jornalista, escritora e contadora de histórias, trabalhou na Folha de Londrina por quase 20 anos e no Jornal de Londrina por outros 10 anos, locais onde atuou como repórter, redatora e editora nas áreas de Economia, Política e Agronegócio, entre outras. Em 2019, fundou seu próprio jornal, O LONDRINE̅NSE, e se tornou entrevistadora do O LONDRINE̅NSE POD.

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