Por Suzi Bońfím
No mundo corporativo, as práticas ESG – sigla em inglês para ambiental, social e governança – ou seja, as ações nas empresas para reduzir os impactos no meio ambiente, para uma sociedade melhor com uma gestão ética, transparente e mais justa do negócio, têm gerado impactos positivos. As ações em prol da sustentabilidade são contabilizadas pelas empresas no mercado nacional e internacional.
Londrina é apenas um exemplo de uma dessas ações, a reciclagem de vidro realizada pelo grupo Heineken, Ambipar e a rede de supermercados Muffato. Como um dos braços do programa Spin – um investimento inicial de R$150 milhões em sustentabilidade, lançado pela Heineken, em junho do ano passado – máquinas para recolher vidro, denominadas Ponto Caco, estão instaladas em alguns supermercados Muffato da cidade.
O sistema é simples e o acúmulo de pontos e a consequente troca por cervejas da marca, o chamado direito ao cashback, são o principal atrativo para o consumidor. Para participar, o interessado tem que baixar um aplicativo e abrir uma conta com seu CPF.
De acordo com o site da empresa, o uso das máquinas e apps é restrito a maiores de 18 anos e o depósito é de 24 embalagens por CPF, por dia. Sendo assim, não adianta chegar ao supermercado com um carregamento de garrafas de vidro, se você tiver só uma conta registrada.
Vidro é 100% reciclado infinitas vezes
A reciclagem de vidro é uma das mais difíceis de serem viabilizadas no país. Ao contrário do alumínio com quase 100% de reaproveitamento, o Brasil recicla cerca de 40% de todo o vidro produzido por ano. De acordo com informações do programa Volte Sempre, uma garrafa de vidro descartada incorretamente demora 4.000 anos para se decompor.
Por outro lado, o vidro é 100% reciclado e pode ser reutilizado infinitas vezes sem perder a qualidade. Sem contar a economia de 2,9% de energia por tonelada do produto reciclado. Outra vantagem é que 1 kg de caco utilizado em novas embalagens substitui 1,2 kg de matéria-prima virgem, o que reduz custos de produção e os impactos ao meio ambiente.
O apelo da sustentabilidade com o processo de reciclagem é inquestionável. Mas o programa na prática, em Londrina, tem alguns gargalos. Não há divulgação tanto da Heineken quanto do supermercado sobre a máquina Ponto Caco para recolhimento do vidro.
Perto de casa, no Muffato Aeroporto, na Av. Robert Koch, a máquina está instalada na lateral da porta de entrada ao lado do quiosque de sorvetes, sem qualquer indicação específica. Eu fiquei sabendo porque vi meu vizinho levar garrafas ao mercado e ele, por sua vez, viu uma pessoa inserindo o vidro na máquina e perguntou o que era. Portanto, tudo indica que é por meio do “boca a boca” que o Ponto Caco tem recebido um volume significativo de vidro.
Aí, outro problema para quem leva o vidro até o local é a falta de gestão do processo. Muitas vezes, segundo relato de quem está participando do programa, a máquina está lotada de cacos de vidro e os responsáveis pela segunda etapa do processo, cooperativas e/ou outros parceiros da reciclagem, demoram para recolher o material. Além de perder tempo, quem quer colaborar acaba desanimando.
A Heineken, segunda maior cervejaria do Brasil, não tem os dados do programa Volte Sempre atualizados no site. Infelizmente, Londrina não aparece entre as cidades onde as máquinas do Ponto Caco estão instaladas. Um detalhe que demonstra como a empresa falha no quesito divulgação. O programa que começou como projeto piloto em 2018, aparece como realizado nas cidades de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e Goiânia.
Enfim, este tipo de ação sustentável é extremamente necessária. Um modelo que envolve e incentiva a comunidade a participar dando um retorno concreto: quem não quer ganhar uma cervejinha trocando por algo que seria descartado? Mas, sem uma ampla divulgação e gestão eficaz, a iniciativa da reciclagem de vidro corre o risco de render bons frutos apenas para a empresa no seu relatório ESG.
Já passou da hora da iniciativa privada perceber que o custo de uma ação como esta é mínimo, se comparado com os benefícios para o meio ambiente. O que tá faltando, será??
foto: divulgação
Suzi Bońfím

Jornalista, formada na UEL, por quase 30 anos morou em Cuiabá -MT. De volta a Londrina-PR, vive a fase R de reencontros e renovação, respirando novos ares. Escreve sobre o que acredita por um mundo melhor. Instagram @suzi.bonfim
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