A Lei Áurea completou 133 anos de sua assinatura e, tecnicamente, a escravidão estava finalizada no Brasil. Mas não foi bem assim que a história prosseguiu.
Toda data em que precisamos falar da situação do negro no Brasil é um teste de paciência. Eu preciso exercitar meu dom da escuta e leitura interpretativa. Nós, negros, precisamos sorrir com os absurdos que ouvimos, achar lindo quando roubam nosso lugar de fala e insistem em saber mais do que é ser negro do que a nós mesmos.
A libertação dos escravos aconteceu em 1888 e o Brasil foi o último país da América a acabar com a prática desumana da escravidão. O que outrora mostrou-se um feito histórico, heroico, de avanço nacional, revelou-se ainda mais impiedoso e nocivo: o que fazer com os negros alforriados, agora? Como garantir-lhes condições de sobrevivência?
A resposta é bem fácil de interpretar após 133 anos da Lei Áurea: a versão 2.0 da escravidão está com novos contornos e assola o cotidiano de maneira cruel, e a subordinação racial é traduzida com a severidade da desigualdade social. Impossível pensarmos em um Brasil justo, sem pensarmos no tripé gênero, raça e classe. Sim, as pessoas à margem da sociedade brasileira têm um perfil determinado: mulheres, negras e periféricas.
Nos deram a liberdade, mas não somos livres não, pois não podemos ir ao mercado tranquilo sem sermos seguidos como potenciais suspeitos; se estamos correndo em locais públicos, já nos cravam que somos ladrões em fuga. Tiraram as algemas de nossos pés, mas amarram nossas mãos para a conquista de postos de trabalhos em condições iguais aos brancos. Deixaram de açoitar nossos corpos, mas nos atingem com tiros. E eles são muitos. Mais de 80, às vezes. Segurança pública para quem, né?
Nos tiraram das senzalas em condições insalubres, mas “não conseguimos respirar”, pois o pé do racismo nos enforca todo santo dia. Nos deram uma data para um recomeço, mas não nos deixam concretizar o “I have a dream”.
Gostam de ressaltar a respeito da miscigenação existente no Brasil, destacando motivos para nos orgulharmos e divulgar isso para o mundo por meio dos tutoriais de moda, por exemplo, amam nossas características, mas, no dia a dia, nos chamam de macacos, exóticos, sujos, desprezam nosso cabelo e adoram chamá-lo de feio, duro e pedem para deixarmos nosso Black Power “adequado para não atrapalhar ninguém”, como bem vociferou uma senhora bem-intencionada – e mal interpretada – em um vídeo viralizado recentemente.
Dizem e propagam por aí sobre a família e o seu papel como alicerce da sociedade brasileira, porém, o tal alicerce tem se segurado pela força da chefia familiar da mulher negra, sem subsídios dignos do Estado.
Realmente, é um combinar de sobreviver todos os dias. A liberdade que nos foi angariada ainda não se concretizou. Há 133 anos buscamos justiça para nosso povo. Há 133 anos, a dívida escravocrata tem ganho juros, tem prazos alongados, contudo, sem medidas práticas de inclusão social para nos aproximarmos da sonhada equidade social. Ah, esqueci de dizer uma coisa bem importante: A princesa Isabel não é nenhuma heroína. Até a próxima. Axé!
Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.
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