A solidão da mulher negra acarretou várias marcas em minhas vivências atuais. Entre elas, o medo constante de que todo afeto seja uma mentira
Por Viviane Alexandrino
O choro amargurado da participante do Big Brother Brasil, Natália, há alguns dias, tem um nome bem conhecido por nós: a solidão da mulher negra, temática que voltou a ganhar os holofotes após o episódio ocorrido dentro da casa considerada a mais vigiada do Brasil. E o que aconteceu com Natália é recorrente, infelizmente, na vida das mulheres negras.
O preterimento é real e assustador. Machuca e levanta abismos emocionais nas mulheres. E essa construção tem início na infância, quando as meninas negras não são escolhidas para coisas simples, como um par para dançar em festas, por exemplo.
Na adolescência, costuma ser ainda mais severo: entre os jovens é comum comentários a respeito de relacionamentos, primeiras experiências amorosas e sexuais, desejos, paixões, escolhas entre as “mais bonitas” do colégio. Mais uma vez, o silêncio predomina. Quase nunca nos escolhem para amar e oferecer afeto. Dá-se a impressão de que o povo negro não é digno de amor.
Incontáveis foram as vezes em que chorei pelo preterimento dos homens. A mulher negra não é a escolhida para ser amada, apresentada, dignificada. Ela é aquela que carrega o estereótipo de mulher boa de cama, símbolo sexual, mas, raramente, a mulher para ser amada e construir família.
A situação ocorrida pela sister já vem sendo estudada há algum tempo. Há dados que indicam que mais de 50% da população feminina negra está condicionada a viver sozinha. A solidão da mulher negra está diretamente ligada ao racismo e ao passado colonial que assola a história do Brasil. A mulher negra, ao longo da trajetória histórica e durante a escravidão, foi sempre considerada forte, resistente. Esse mecanismo de opressão vem sendo perpetuado ao longo da história e contribuiu para a permanência desse discurso de uma “resiliência custe o que custar”. E isso ocorre até nas relações afetivas.
Não é à toa que as mulheres negras costumam ouvir coisas como “você é mais forte do que isso”, quando na verdade esse discurso vai causando feridas, que, muitas vezes, demoram para cicatrizar. Causa dificuldade, até mesmo, para entender que a mulher negra é digna de receber afeto e que o amor cura.
Falo isso por experiência própria. Por mais que eu lute contra esse sistema racista, opressor e cheio de armadilhas contra as mulheres negras, tenho medo de receber afeto e isso fica explícito quando me posiciono na defensiva quando um homem se aproxima. Já estou condicionada a acreditar que serei preterida ou tratada como um passatempo e que os homens estão agindo com más intenções. E não raro, realmente, estão. Por que assumo tal postura? Simples! Em razão de um histórico de falta de afeto. Um percurso em que precisei compreender que o racismo está tão entranhado socialmente, que afeta até as relações afetivas.
“UMA MULHER NEGRA FELIZ É UM ATO REVOLUCIONÁRIO”
Quando as mulheres negras experimentam a força transformadora do afeto, a estrutura social costuma se movimentar com ela. Pensemos: Por que o casamento da cantora Jojo Todynho foi motivo de comentários variados na semana anterior? De páginas de fofoca até páginas dedicadas para as questões envolvendo a negritude? Porque a sociedade ainda não se acostumou a ver uma mulher negra feliz, sendo amada e assumida como companheira. Ainda mais por um homem branco.
Se o afeto pode assustar pessoas que sempre o recebem, imagina para quem nunca o recebeu sem ser condicionado a oferecer algo em troca! Nesta semana, fui surpreendida com um bilhete, escrito à mão, que dizia mais ou menos assim: “quando conheci você, tive receio de me apaixonar. Vou te esperar, pois você vale a pena”.
Toda essa demonstração de afeto, carinho, sensibilidade me assustou um monte. Minha primeira reação foi soltar uma gargalhada e pensar que era piada. Mas por quê? Experiências já vividas ligaram o sinal de alerta. A sociedade já me deixou na defensiva e não estava disposta, a mais uma vez, decepcionar-me e ir resolver isso na terapia.
Foi quando o moço do bilhetinho resolveu me falar isso pessoalmente! Em um dia, um bilhete; no outro, um chocolate. Na sequência, um ingresso para assistir a um espetáculo que adoro. Decidi, ainda que assustada, que sou merecedora disso. Estou até me sentindo transgressora, por isso! Meu desejo é que o racismo não me paralise. Nem eu e nem as minhas! E que toda a sorte de afetos nos atinja!
Axé!
Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.
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