A língua é um instrumento de poder e dominação. Basta olharmos para a colonização de Portugal no Brasil, pois uma das primeiras práticas foi a proibição das línguas indígenas em solo nacional. O que isso tem em comum com o tema da coluna da semana? Que expressões podem inferiorizar uma parte da sociedade e precisamos saber para evitar
Uma das primeiras coisas que ouvi ao entrar para o curso de Letras, na Universidade Estadual de Londrina, foi que a língua é um mecanismo vivo e dinâmico e que são os usuários desse mecanismo que realizam as transformações necessárias ao longo da história. Essas modificações são efetuadas de acordo com as necessidades históricas, sociais e culturais.
E é nesse último ponto que eu me apegarei. Ao ler os comentários da postagem a respeito das expressões racistas, deparei-me com comentários como “hoje tudo é racismo”, “nossa, o mundo está chato”, “isso não tem nada a ver”. Como se nós, negros, estivéssemos fazendo o que muita gente classifica como mimimi.
Primeiramente, vamos ler e estudar antes de sair comentando o que não se sabe sobre a realidade do outro. O outro aqui leia-se: a situação do negro no Brasil. Segundo ponto, costuma-se classificar mimimi tudo aquilo que não lhe atinge, não lhe faz sofrer, não lhe mata. Logo, o que você não tem vivência e vê outro denunciando tais situações, pode-se pensar em exagero. Eu afirmo: NÃO É!
Vivemos tempos em que se faz necessário falar de mudanças sociais para o povo negro. Chegou o tempo em que a cultura dos meus antepassados está ainda mais viva e forte em nossa sociedade.
Chegou o tempo em que todo o arcabouço histórico da escravidão precisa ser pensado, estudado e ressignificado. E é nesse último aspecto que eu apego para reafirmar: existem expressões racistas em nosso idioma e que requerem ser conhecidas, repensadas para serem ressignificadas. Vamos conhecer mais algumas.
SERVIÇO DE PRETO
Mais uma expressão que temos situações ligadas ao negro como algo pejorativo e malfeito. Uma associação racista ao trabalho desenvolvido pelo negro.
AMANHÃ É DIA DE BRANCO
Para essa expressão, tem-se várias possibilidades de explicações. Uma delas, refere-se ao uso dos uniformes da Marinha. Outra, diz que tem inferência com a nota de mil cruzeiros, que tinha a estampa do Barão do Rio Branco e a predominância do uso de trajes brancos. Porém, nota-se que tal expressão, ao longo da história, foi ganhando contornos pejorativos, ao referir-se ao negro, tratando-o como inferior e, até mesmo, preguiçoso.
FEITO NAS COXAS
Essa expressão idiomática da Língua Portuguesa tem origem no período da escravidão. Os escravos moldavam as telhas – feitas de argilas – utilizadas para a construção de casas em suas coxas. Não precisa pensar muito para identificar que cada escravo tinha um formato diferente dessa parte do corpo e, logo, as telhas ficariam em formatos sem simetria, dificultando a edificação das casas. Mas não, a culpa é sempre dos negros, né.
TEM CAROÇO NESSE ANGU
Os escravos comiam mal e tinham jornadas extremamente cansativas. E quando não produziam a contento, recebiam como castigo uma tigela com menos comida. Para terem mais forças e alimentos para trabalharem, os negros escravizados conseguiam, por vezes, esconder pedaços de carne ou torresmos embaixo do angu, o que hoje entende-se como algo semelhante à polenta.
CHUTA QUE É MACUMBA
Essa expressão denota intolerância religiosa, pois costuma-se demonizar tudo o que é oriundo de religiões de matriz africana, como se todos os cidadãos fossem obrigados a praticar religiões cristãs.
NASCEU COM UM PÉ NA COZINHA
Aqui, temos uma expressão que liga a mulher negra a serviços domésticos. As escravas podiam ficar dentro das casas grandes na parte da cozinha, onde, inclusive, dormiam no chão, pois a circulação dentro da Casa Grande facilitava o assédio e estupro por parte dos senhores.
Não se esqueçam: o conhecimento é necessário para mudar a história. Até a próxima semana. Axé!
Quem é Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.
Foto de Mustafa ezz no Pexels


Uma resposta
As palavras são apenas parte de toda dor que ainda é infrigida aos negros. Ainda é comum pensar e falar quando algo lhe some ou lhe é subtraído: nego roubou isso ou neguinho roubou aquilo… Essa expressão é extremamente perversa pois além do racismo em si cria uma imagem de que se é negro é perigoso, é ruim, é do mal, é errado. Costumamos bradar a virtude ao ler passagens como “o bom samaritano” e “os miseráveis de vitor hugo” mas praticamos o oposto ao criticar quem ajuda ou apoia e damos as costas a quem precisa, criticamos e acusamos sob o manto da religiosidade, tradicionalismo e conservadorismo, assim como fizemos à Cristo há 2 mil anos. A história sempre se repete!