A mulher negra e o Carnaval

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Por Viviane Alexandrino

O Carnaval costuma ser um momento esperado pelo brasileiro e, também, uma data em que as mulheres negras ficam em evidência…

O Carnaval é um momento festivo muito aguardado pelo povo brasileiro em razão do feriado prolongado e, também, pelos dias festivos com muita diversão. Embora a Covid-19 ainda esteja entre nós, os foliões do Brasil todo tendem a dar um jeitinho para aproveitar e tomara que seja com sabedoria.

Mas o Carnaval é um momento em que o corpo da mulher negra fica ainda mais em evidência. Por quê? As mulheres negras ganham holofotes em razão de seus corpos sendo evidenciados em roupas mínimas e, muitas vezes, apenas pinturas corporais.

A questão, aqui, não é a respeito da beleza de nossos corpos, mas sim que nossos corpos negros só viram  um padrão a ser seguido durante o Carnaval e no restante do ano, voltamos para o ostracismo dos critérios de beleza estabelecidos pela sociedade, voltando, inclusive, a ouvir adjetivações pejorativas como a famosa “beleza exótica” ou  “você é uma negra linda”.

Além disso, parte da sociedade, principalmente, os homens, estabelecem que o padrão de beleza negra é o da Globeleza, mulher negra que performa na vinheta de Carnaval da Rede Globo, eternizada por Valéria Valenssa durante um período de quatorze anos.

Vocês conseguem perceber que ao destacar e limitar um perfil “ideal e aceito” de beleza, todos os demais são exclusos? A abordagem é problematizadora mesmo, afinal, mulheres negras, gordas, trans não são bonitas?  Quantas vezes ouvi que eu era a Globeleza. No começo, confesso que ficava envaidecida ao ouvir tal menção. Após um período de ressignificações, percebi que tal alusão não era elogiosa, mas sim problemática, uma vez que se eu fosse uma mulher negra fora do padrão, com certeza não ouviria o referido “elogio”.

Além do mais, ainda é preciso destacar que os corpos negros costumam ser hipersexualizados e objetificados, o que pode se desdobrar em uma coisa bem séria: o assédio sexual.  De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020 quase 53% das mulheres negras foram assediadas. 

A hipersexualização dos corpos negros tem intrínseca ligação com o racismo estrutural, uma vez que banaliza o corpo da mulher negra e limita-o à questão do sexo fácil e intenso, corpos volumosos e cheios de curvas, apenas.

Há uma outra frase que a maioria das mulheres negras já devem ter ouvido “meu sonho é ficar com uma mulher negra” ou ainda “você é uma mulher da cor do pecado”. Essa fetichização fica mais evidente no Carnaval, um período tão divertido para quem gosta, como eu, mas que nunca podemos nos esquecer das artimanhas do racismo, pois elas estão por aí de diversas maneiras. Os corpos das mulheres negras não podem ser limitados apenas a questões envolvendo prazer e beleza de cunho pontual, como o momento das festas carnavalescas. Queremos ser respeitadas o ano todo e, preferencialmente, sem a presença do racismo nas falas. 

Um bom carnaval. Axé!

Viviane Alexandrino

Sou a Viviane, tenho 36 anos e atuo como professora de Língua Portuguesa em colégios da cidade de Londrina. Além da formação em Letras Português, pela UEL, e mestranda em Estudos Literários pela referida instituição, sou formada também em Jornalismo, profissão essa que exerci durante 10 anos antes de me apaixonar pela educação.

Foto: Rede Globo

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