Vai-se o mestre, fica seu legado: conheça um pouco da trajetória mágica de Kenzo Takada

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Falei tanto na coluna passada sobre a coleção da Kenzo e do quanto eu gosto da marca, do clima de sonho, da criatividade que está presente nos mínimos detalhes e de como o Kenzo Takada conseguiu transmitir tão bem tudo isso através de suas roupas e perfumes. Dois dias depois, li a notícia de que o estilista havia falecido, também em Paris, ainda sob a atmosfera da temporada de desfiles, em decorrência de complicações da Covid-19.

Kenzo Takada em 1970 – Foto: GettyImages

Kenzo é uma das minhas grandes inspirações. O estilista foi diretor criativo da marca que leva seu nome até 1999, e tão forte foi o que ele construiu que, mesmo sem ele, a label conseguiu manter o estilo inconfundível que transpira sonho e leveza.

O designer começou a se interessar por moda ainda criança e, aos 19 anos, trocou o curso de literatura pelo de moda – ele foi um dos primeiros homens a entrar para a Bunka Fashion College, em Tóquio. Em 1960, contrariando o desejo de seus pais e se recusando a acreditar que um homem não poderia ser criativo e trabalhar com moda, mudou-se para Paris, onde em 1970 criou sua primeira grife, a Jungle Jap.

Desfile Kenzo em Paris – Foto: GettyImages

Com a JJ veio sua primeira coleção, confeccionada quase sem recursos e cheia de cores, quimonos, peças poéticas e muito livres, algo totalmente diferente do que se fazia em Paris. “Queria sair do cotidiano e entrar num sonho”, teria dito um tempo depois sobre esse lançamento.

Kenzo Verão 2021 – Foto: Divulgação

Ganhou a França e a Europa toda com suas criações conceituais, muito volume e cores vibrantes, grafismos e estampas inspiradas na presença da natureza na arte japonesa. E hoje, as peças tidas como ‘masculinas’ da grife podem ser consideradas genderless (sem gênero, unissex), mas essa sempre foi uma característica do trabalho do designer, que acreditava que os homens deveriam ser elegantes, mas também estarem sempre abertos a mudanças, e quebrou vários dos estereótipos de masculinidade nas roupas desenhadas para os homens. Esse legado está impresso também na última coleção apresentada pela marca para o Verão 2021, na qual possível ver modelos homens vestindo sobreposições com essas características.

Uma historia ótima sobre o designer tem a ver com sua visita a Brasília, em 2010, na qual ele teria se encantando com uma camisa confeccionada pelo estilista Romildo Nascimento, que narrou o encontro em seu Instagram após saber da morte de Takada.

Instagram Romildo Nascimento

“Fiquei pensando, o que vou apresentar para um dos maiores do mundo? Depois de alguns dias, veio a ideia, renda renascença só tem no Brasil e é linda, peguei um caminho de mesa e transformei em uma camisa. Kenzo gostou tanto que perguntou quanto era, na hora falei ‘para o senhor, é de graça’. Ele, meio sem graça, abriu a carteira e me deu 100 euros. Nunca tinha visto euro na minha vida.Gostou tanto que trocou de roupa ali mesmo, tirou a Dior que estava vestindo e colocou a minha criação”, contou.

Além das peças de roupas incríveis, o estilista criou um verdadeiro império de fragrâncias adoradas no mundo todo. A mais conhecida delas, a Flower by Kenzo, completa 20 anos e representou meu primeiro contato com a marca. Fiquei fascinada pela fragrância, pelo conceito, pelos comerciais com fotografia impecavelmente conceitual e trilha sonora cult, aí despertei para a marca.

Flower By Kenzo -Foto: Divulgação

Kenzo foi mestre e deixa um grande legado, não apenas como estilista e ícone fashion, mas também como mágico, ilusionista, alguém que foi capaz de transformar tsurus de papel em flores flutuantes ao som de La vie en rose.

Ana Paula Barcellos

Escritora, mocinha do medalhão persa, marketeira e pesquisadora de tendências. Trabalha com as marcas Madame B., Maria Jujuba Rock e Pinacola.

Foto: Reprodução da internet

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