Por Ana Paula Barcellos
Nesta sexta-feira (20 de março) chegou, nos cinemas de Nova York, um dos filmes mais esperados do ano para quem acompanha o mundo da moda: “Marc by Sofia”, dirigido por Sofia Coppola e produzido pela A24. Não é mais um documentário de desfiles e glamour. É um mergulho cru, íntimo e quase terapêutico na alma de Marc Jacobs, construído a partir da amizade e confiança que ele e Sofia cultivam há décadas.
O que impressiona logo de cara é a ausência total de roteiro. “A gente nem tinha um plano real, tudo simplesmente aconteceu”, conta o próprio Marc Jacobs. Sofia Coppola observa, escuta, filma. Não interfere, não dramatiza. O resultado é um mosaico orgânico de memórias, processos criativos e, principalmente, sensações. O espectador sente que está dentro da cabeça do estilista – e isso é raríssimo em documentários de moda.
Sofia apenas registra
Um dos momentos mais potentes do filme acontece logo após um desfile. Longe das luzes e dos aplausos, Jacobs aparece exausto, descrevendo o vazio que vem depois de criar algo intenso: o famoso “post-art-done”. Sofia não exagera nada. Registra. E é exatamente essa naturalidade que dá identidade ao filme. “Marc by Sofia” não quer explicar fatos; quer capturar sensações. Evita a nostalgia fácil e foca no presente: o movimento contínuo de criação, a necessidade de seguir em frente.
No final, Marc Jacobs resume tudo com uma frase simples que parece definir bem sua experiência: “Eu sou feliz sendo estilista”.
E é impossível não sorrir ao ouvir isso, porque Marc Jacobs é apenas uma das carreiras mais influentes e turbulentas da moda contemporânea.

A trajetória de Marc Jacobs
Nascido em 1963 em Nova York, Marc Jacobs entrou para a história ainda muito jovem. Formado na Parsons School of Design, aos 25 anos já era diretor criativo da Perry Ellis. Em 1992, chocou o mundo com a coleção “Grunge” – uma declaração anti-luxo que misturava flanelas, gorros de tricô e botas Dr. Martens na passarela de alta-costura. Foi demitido por isso. E virou lenda.
Em 1997, Louis Vuitton o chamou para revolucionar a maison francesa. Marc Jacobs levou streetwear, colaborações pop (lembra da coleção com Takashi Murakami e as cerejinhas?) e uma energia jovem para a tradicional LV. Durante 16 anos transformou a marca em um fenômeno cultural global. Quando saiu, em 2013, já tinha seu próprio império: a Marc Jacobs International, com linhas de prêt-à-porter, acessórios (aquela bolsa “Stam” e a “Snapshot” viraram objetos de desejo mundial) e a linha mais acessível Marc by Marc Jacobs (já extinta, mas saudada até hoje).
Passou por crises pessoais públicas – dependência química, cirurgias, cancelamentos – e sempre voltou mais forte. Hoje, aos 62 anos, com a marca Marc Jacobs novamente focada no luxo puro, ele continua criando como se fosse o primeiro dia. E o documentário de Sofia Coppola mostra exatamente isso: um homem que, mesmo depois de tudo, ainda sabe exatamente onde quer estar.
“Marc by Sofia” não é só para fashionistas. É para quem entende que moda, no fim das contas, é sobre processos íntimos e nossa relação com o mundo.
Ana Paula Barcellos

Viciada em botas, sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências. Tem foto da Suzy Menkes na estante e escreve essa coluna usando pijama velho, deitada no sofá enquanto toma café com chocolate.
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