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Ceramistas de Londrina promovem encontro para mostrar trabalho e trocar experiências

Além de exposição de peças, a programação inclui demonstração de técnicas para que o público conheça os processos criativos

O LONDRINENSE com assessoria

Aproximar quem faz e quem gosta de cerâmica é a proposta do Encontro de Ceramistas de Londrina, que será realizado nos dias 30 de junho, 1 e 2 de julho (quinta, sexta e sábado), no Ateliê de Arte Yoshiya (rua Fernando de Noronha,1.400). Ceramistas de diferentes gerações e estilos vão participar expondo trabalhos e oferecendo uma rica amostra da produção local. Esculturas, utilitários, peças decorativas e acessórios estarão à venda.

A programação foi planejada para que o público possa conhecer um pouco do processo de criação da cerâmica. Haverá demonstração de várias técnicas (Raku, Pinch, Acordelado, Paleteado e Modelagem em torno).

Mikaela Lentini, Udhi Jozzolino, Yoshiya Nakagawara Ferreira, Rosana de Andrade -Foto: Divulgação

O acervo do Ateliê de Arte Yoshiya também poderá ser apreciado pelos visitantes. A coleção tem obras de ceramistas renomados, peças contemporâneas e também antigas, do Brasil e de outros países.

Realizar um evento unindo os ceramistas é um sonho antigo da artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira.  “Quando visitei o Japão, com a minha mãe, vi que havia vários grupos de ceramistas, que faziam muitos encontros regionais para a transmissão de conhecimentos, tanto de material como de técnica. Percebi como seria importante que isso acontecesse aqui também. Agora está acontecendo.”

A entrada é gratuita. Rosana de Andrade, integrante do Coletivo Terracota, responsável pela realização do encontro, reforça o convite para que todos os interessados em cerâmica participem, sejam profissionais, estudantes ou consumidores. “O encontro é para quem aprecia, faz ou tem vontade de fazer cerâmica. Temos ateliês desenvolvendo trabalhos de muita qualidade. É uma oportunidade de levantar mais informações sobre o potencial de Londrina nesta área e pensar iniciativas interessantes não só para os ceramistas, mas para a comunidade.”

Economia criativa: a cerâmica gerando emprego e renda

Até agora 29 ceramistas (50% deles com ateliê próprio) aceitaram o convite para expor o trabalho. Entre eles, Jane Benutti, uma das figuras mais respeitadas da cerâmica londrinense. O ateliê que leva o nome dela já completou 17 anos. Ocupa dois andares de um imóvel no centro da cidade.

O lugar está sempre movimentado, oferece aulas de manhã, à tarde e à noite. Só neste ano os cursos já receberam aproximadamente 100 pessoas, inclusive de fora de Londrina. No térreo funciona uma loja onde são vendidas peças assinadas por Jane e outros 10 ceramistas parceiros.

O Ateliê de Arte Benutti formou muitos dos profissionais que estão atuando no mercado. Jane não sabe precisar o número total de alunos que já passaram pela sua escola (na casa das centenas), mas notou que o perfil dos interessados se modificou ao longo dos anos. “Antes eram pessoas de idade que buscavam a cerâmica como uma atividade de lazer, um passatempo. Agora muitos jovens querem aprender as técnicas para se profissionalizar e ganhar dinheiro trabalhando com isso.”

Amanda Abranches, 31 anos, está entre os jovens empreendedores do segmento. Ela é formada em Jornalismo, mas quando entrou em licença maternidade por causa do nascimento da primeira filha, decidiu que não voltaria mais ao emprego. Queria encontrar outro rumo profissional, mais afinado com a mudanças que estava vivendo. “Eu achei a cerâmica quase sem querer. Vi peças na internet que me chamaram a atenção. Busquei cursos, conheci o ateliê da Jane e depois de três meses fazendo aula já sabia que não queria outra coisa da vida. Aquilo me permitia botar pra fora tudo o que eu estava sentindo.”

Isso foi em 2017. Amanda começou com produção caseira, mas o negócio cresceu rápido. Hoje ela tem o próprio ateliê, dá aulas e desenvolve peças pela marca que batizou de Eva. Vende na loja física e na internet. Ganhou uma sócia que cuida da parte administrativa e, juntas, empregam outras quatro pessoas.

Amanda fala sobre cerâmica com muito entusiasmo. “Olhando pra trás eu nem sei como tudo isso aconteceu tão depressa, ainda mais com a pandemia. Tenho certeza de que quero seguir neste caminho, sonho ver as peças sendo vendidas em todo o Brasil.”

Parcerias: o caminho para potencializar a produção local

Jarro de Elisa Fogo -Foto: Julia Bahls

Outra mudança que vem ocorrendo no cenário local é a articulação dos ceramistas em coletivos e outras formas de parceria para atender a demanda de grandes encomendas, vindas principalmente de restaurantes e buffets. Elisa Fogo, faz parte do grupo de quatro mulheres que criou a Inspira Cerâmica, em 2019.  “Juntas conseguimos atender pedidos das empresas num prazo razoável. Já entregamos encomendas de 300 peças que foram produzidas artesanalmente em dois meses.”

Estimular ações colaborativas é um dos objetivos do Encontro. O próprio evento é resultado de parceria, iniciativa do Coletivo Terracota, composto por outro quarteto feminino, interessado em cooperação e formação de redes de apoio, como explica uma das ceramistas do grupo, Mikaela Lentini. Nossa proposta é a pesquisa e a construção de conhecimento colaborativo em cerâmica. Queremos ainda promover e participar mais de eventos como este e construir canais de venda.”

A pegada masculina na cerâmica

Fernando Carvalho é dono da marca Cubo de Barro, de peças utilitárias e decorativas. Também é parceiro da Terra Vítrea recém-criada em parceria com duas ceramistas para produção em maior escala. Professor no Ateliê Jane Benutti, ele ensina várias técnicas, entre elas modelagem em torno, uma ferramenta com base giratória que ajuda a dar forma à argila com mais rapidez.

“Eu sempre quis trabalhar com arte, mas achava que não conseguiria viver disso. Minha primeira faculdade foi Química, não deu certo. Larguei o curso dois anos e meio depois de começar. Me formei Designer Gráfico. Quando fui buscar uma amiga num workshop de cerâmica acabei me interessando. Uma semana depois já estava fazendo aula.”

Fernando relata que a procura por aulas e a compra de peças em cerâmica cresceu nos últimos anos. “A própria pandemia foi um impulso para a produção de arte e artesanato em geral. Muita gente teve que ficar em casa bastante tempo. As pessoas procuraram alternativas para ter uma renda ou simplesmente para relaxar. A demanda por aulas aumentou, tive até que contratar uma assistente.”

“A maior procura por peças também está ocorrendo. Hoje você vê que qualquer restaurante tem alguma coisa, uma peça decorativa pelo menos. E grande parte deles está investindo em jogos exclusivos, utilitários em cerâmica para servir seus pratos. Isso é bem bacana. No mundo a gente percebe um movimento de interesse maior pelo artesanal, pelo artístico.”

Casinha, escultura de Marcos Palma – Foto de Julia Bahls

Marcos Palma se descobriu ceramista quando assumiu algumas tarefas no ateliê da mulher dele, Silvana Palma. Os dois têm formação na área de Tecnologia. Hoje ela se dedica exclusivamente ao ensino e produção de cerâmica no ateliê inaugurado em 2018. Ele ainda está no mercado de TI, mas sempre arranja tempo para trabalhar com a argila. “Eu nunca tinha me interessado por cerâmica, achava que faltava talento. Fui ajudar minha esposa e construí moldes de gesso, ferramentas e até de um forno. Pra isso tive que estudar, aprender sobre o assunto, me aprofundar mesmo. Fui criando ensaios de peças, quando eu me dei conta as pessoas estavam elogiando e comprando os ensaios. Vendi até pra fora do estado. Percebi que estava gostando de fazer cerâmica e estava sendo reconhecido por isso. Agora a argila já corre no meu sangue, não tem mais como parar de fazer.”

Cerâmica e bem-estar

Pergunte a qualquer ceramista e vai ouvir que o processo de criação é terapêutico. O contato direto das mãos com o barro, o uso da água e do fogo, o tempo e a paciência exigidos pela cerâmica ajudam a trabalhar emoções.    

Silvana Palma,  que modelou sua primeira peça há 15 anos, descreve os efeitos da prática na vida dela.  “O que eu acho mais bonito na cerâmica é que parece que ela permite uma conexão com o universo. O barro, o fogo, os elementos químicos presentes no esmalte, tudo isso parece que está ligado de alguma forma comigo. Nós somos uma coisa só, tudo é parte da natureza.” Segundo ela, um aspecto da cerâmica que acho lindíssimo “é o crescimento pessoal que ela proporciona. Você trabalha aceitação, paciência, vê a beleza da imperfeição, da impermanência de tudo. A cerâmica, me modificou, me deixou muito melhor. Então para mim, hoje, é quase uma filosofia de vida.”

A cerâmica de Londrina tem história

Em 1974 a Universidade Estadual de Londrina (UEL) implantou o curso de Licenciatura em Educação Artística. O ensino de arte nas escolas e colégios de primeiro e segundo graus havia se tornado obrigatório gerando a demanda por professores. Desde o início, a cerâmica fez parte da grade curricular do curso, hoje denominado Artes Visuais. Maria Scherlowski foi aluna da primeira turma do curso e pouco tempo depois de se formar, passou num teste e substituiu sua antiga professora de cerâmica, Ruth Santana, na universidade.

Scherlowski, sobrenome de origem polonesa, se tornou uma das assinaturas mais importantes da cerâmica artística em Londrina. “Eu me apaixonei pela cerâmica desde a primeira aula na faculdade. Acho que por ser filha de agricultores, ter crescido no sítio brincando com argila no riachinho perto de casa, sempre tive uma ligação, uma afinidade forte com a terra.”

A professora artista desenvolveu vários projetos de extensão com seus alunos ensinando cerâmica para comunidades em Londrina, Ibiporã e Sapopema, aproveitando como matéria-prima o barro do Norte do Paraná. Ela se aposentou em 2003, chegou a abrir um ateliê com outra ceramista, mas já tem alguns anos, deixou de produzir.

O Encontro de Ceramistas de Londrina será uma oportunidade para quem quiser conhecer e comprar peças criadas por Maria.

A artista plástica Yoshiya Nakagawara Ferreira, professora sênior da UEL, trabalha com diversos materiais em suas obras e tem a cerâmica como uma paixão antiga.

O primeiro contato de Yoshiya com cerâmica foi para ajudar o próprio pai. Ele se dedicava ao bonsai (técnica japonesa de miniaturização de plantas) e usava bases pesadas de concreto para o plantio. Pensando em arranjar um material mais leve, que facilitasse o trabalho, a artista buscou a argila. “A partir daí, especialmente na década de 80, produzi muita cerâmica. Fiz poucos cursos, mas experimentei bastante, criando livremente.”

Yoshiya é a anfitriã do Encontro de Ceramistas de Londrina. Ela conta que a mãe nasceu no berço da cerâmica japonesa, na região de Hiroshima. Numa viagem ao Japão, na companhia da mãe, acompanhou eventos em que ceramistas se reuniam para trocar informações sobre o trabalho e assim se ajudavam. É isto que Yoshiya deseja que se torne frequente em Londrina.

Uma das atrações do encontro será a exposição do acervo da professora formado por obras de artistas que são referência, como  Megumi Yuasa e Kimi Nii, além de cerâmica pré-colombiana e peças trazidas do Japão.

Udhi Jozzolino é outra artista plástica veterana que está apoiando a nova fase da cerâmica em Londrina. Ela está participando da organização do evento e estará presente durante a programação.

Atualmente a responsável pelo ensino de Cerâmica no curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Londrina é Tania Sugeta,  aluna de Maria Scherlowski e também sua sucessora dentro da UEL a partir de 2004.

Além de expor seu trabalho, a professora vai demonstrar a técnica japonesa do Raku que cria efeitos surpreendentes na argila por meio de choque térmico.

O inesperado é uma característica da cerâmica artesanal e artística de uma forma geral, não apenas no Raku. O momento de abertura dos fornos, onde as peças são queimadas em altíssimas temperaturas, gera sempre muita expectativa porque surpresas acontecem.

Tania explica por quê. “É sempre uma surpresa porque na cerâmica artística ou artesanal, não existe o mesmo rigor de materiais e equipamentos que a indústria cerâmica possui. Em um ateliê, numa mesma queima em forno elétrico são colocadas peças feitas com argilas de cores diferentes e vidrados reagentes ou de efeito que, em determinada temperatura, eliminam gases que podem reagir com os vidrados de outra peça por exemplo. Pode acontecer até mesmo de uma peça estourar e danificar as peças vizinhas. Numa queima a gás ou lenha as condições de clima, temperatura ambiente, umidade, fase da lua, tudo pode interferir positiva ou negativamente na queima. Uma das vantagens da cerâmica artística é que às vezes é possível incorporar defeito como efeito!”

Programação:

Quinta-feira (30 de junho)

  • 17 h às 20 h – Abertura do evento, exposição e venda de cerâmica

Sexta-feira (1 de julho)

  • 14h às 19h – Exposição e venda de cerâmica
  • 15h – Demonstração de Pinch com paleteado

Silvana Palma

  • 17h – Demonstração de Raku

Tania Sugeta

Sábado (2 de julho)

  • 14h às 19h – Exposição e venda de cerâmica
  • 15h – Demonstração de Modelagem em torno

Fernando Carvalho

  • 17h – Demonstração de Acordelado

Amanda Abranches

SERVIÇO:

  • Encontro de Ceramistas de Londrina
  • Ateliê de Arte Yoshiya, Rua Fernando de Noronha,1.400.
  • 30 de junho, quinta-feira, 17h às 20h
  • 1 e 2 de julho, sexta e sábado, 14h às 19h
  • Entrada gratuita

Realização:

Coletivo Terracota Cerâmica

Idealização:

Ateliê Semana de 22

Foto de abertura: Vasos de Maria Scherlowski/Divulgação

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