Entre rainhas e plebeias, e que a arte e a loucura nos una

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Por Edra Moraes

Residência artística no LAC, em Lagos/fake News e difamação de gênero

Fui selecionada para a residência artística no LAC – Laboratório de Actividades Criativas, em Lagos, Portugal, com o projeto “EU DEI UM BEIJO NA BOCA DA LOUCURA E AS ESTRELAS AFIARAM A MINHA LÍNGUA”. O título provoca, mas não é metáfora: é desejo de atravessar os tempos e, principalmente, o rótulo de “louca” imposto às mulheres — especialmente aquelas que ousaram pensar, governar, amar ou sofrer fora das normas.

O projeto parte da figura de D. Maria I, a primeira mulher a reinar Portugal por direito próprio, frequentemente lembrada como “a Louca”. Meu interesse, no entanto, é desenterrar o que está por trás dessa loucura. “Diagnóstico” que ao longo dos séculos, tem servido para punir mulheres indisciplinadas, livres demais, afetadas demais, inteligentes demais. A loucura como etiqueta social, diagnóstico de gênero, punição moral, difamação e apagamento.

Lisboa: à procura da rainha difamada com loucura

Antes de chegar a Lagos, cidade de onde partiram as caravelas rumo ao Brasil, fiz uma breve estadia em Lisboa, em busca de rastros documentais e afetivos da rainha que inspira minha investigação.

Cheguei à capital com o coração guiado pela figura de D. Maria I, a primeira mulher a governar Portugal com plenos poderes e, ainda assim, uma das mais difamadas. Não vim em busca de monumentos, mas de vestígios destas memórias apagadas: espaços sagrados, documentos que escaparam à história oficial.

Meu ponto de partida foi simbólico: a Basílica da Estrela, onde D. Maria está sepultada. A igreja, construída por ordem da própria rainha como promessa pelo nascimento de um filho primogênito, abriga mais do que restos mortais: guarda o peso do luto de uma mulher que perdeu o marido, o primogênito, netos e o confessor em um curto intervalo de tempo. Um luto público e privado que, em vez de acolhido, foi patologizado como loucura.

Escritores eternos, escritoras esquecidas

Estátua de Fernando Pessoa – Largo do Chiado – obra do escultor Lagoa Henriques – Fotos : Fernando A. P. Gimenez 

A cidade que eterniza Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e Camões nas fotos dos turistas não fez o mesmo por suas escritoras. Saí à procura e, na ânsia de encontrar autoras portuguesas eternizadas, encontrei apenas o busto de Júlia Lopes de Almeida, uma brasileira que construiu sua carreira em Lisboa a partir de 1886. Isso diz muito sobre como a intelectualidade da mulher foi, historicamente, recusada, ignorada ou cooptada. Continuarei na busca.

O palácio errado e a descoberta certa

Basílica da Estrela, também conhecida como Basílica do Sagrado Coração de Jesus, foi projetada por Mateus Vicente de Oliveira e, após sua morte, por Reinaldo Manuel dos Santos.

No segundo dia, traçamos um destino claro: o palácio da rainha. Mas a tecnologia nos levou primeiro ao Palácio Nacional da Ajuda — que, ironicamente, nunca foi sua morada. O erro foi providencial. Lá, conhecemos Daniel, atendente e pesquisador apaixonado, que nos presenteou com uma aula sobre D. Maria I e indicou o caminho correto: o Palácio de Queluz.

O período da residência artística está sendo promisssor, com o coração guiado por D. Maria I, cujo luto foi substituito pela loucura por seus adversários
 Palácio Nacional de Queluz está localizado em Queluz – arquiteto Mateus Vicente de Oliveira, com a colaboração de Jean-Baptiste Robillion para os jardins

Foi ali, em Queluz, que D. Maria viveu, reinou e enfrentou os maiores abismos de sua trajetória. Encaro essa visita como um retorno às entranhas do poder feminino: uma mulher que, mesmo no século XVIII, governou com firmeza e estratégia. E não sem oposição.

Seu pai, D. José I, e seu influente ministro, o futuro Marquês de Pombal, conspiravam contra ela. Pombal, tido como “ilustrado”, era abertamente misógino. D. Maria, com sabedoria e sangue frio, retirou-o do poder assim que assumiu o trono.

Ela não se contentou com o papel de soberana decorativa, seu reinado foi marcado por tensões políticas. Quando o apagamento não é suficiente, uma velha e eficaz fake news de difamação costuma ajudar. Quando o mundo a chamou de louca, ela já havia escrito, com dor e ousadia, sua própria versão da história.

A trajetória de D. Maria I é atravessada por perdas, mas sua dor jamais foi acolhida. O luto de uma rainha se transformou em diagnóstico. Aquela que era aclamada pelo povo como D. Maria, a Piedosa, passou a ser chamada de D. Maria, a Louca, especialmente pelos republicanos. É importante lembrar que não se trata apenas de um recorte de gênero, mas toda a família imperial foi estereotipada para justificar a instalação da República.

É impossível não refletir sobre os mecanismos de punição que ainda operam sobre nós: quando choramos demais, somos frágeis; quando reagimos, somos histéricas; quando silenciamos, somos frias e quando criamos, somos perigosas.

De Lisboa a Lagos: criar a partir da prisão

Após uma semana em Lisboa, parto para Lagos, cidade-porta do Atlântico, de onde partiam algumas Caravelas. Durante 33 dias, meu ateliê será instalado no antigo presídio da cidade, hoje sede do LAC – Laboratório de Actividades Criativas. Não poderia haver metáfora melhor: criar a partir de um espaço que já foi prisão.

Lá, sigo também com a obra-instalação AS LAVADEIRAS, em colaboração com a artista Dani Schneider, cujas telas são a alma visual da instalação. Durante a Feira do Livro de Lagos, a convite da organização, faremos o lançamento do livro e exposição As Lavadeiras no dia 12, das 19h às 21h. E no dia 14, às 18h, o lançamento do livro-objeto e a abertura da exposição no LAC.

Espero que esta costura entre plebeias e rainhas, entre o luxo da corte e o sabão que tudo lava, nos una, enquanto seguimos lutando, dia após dia, pela construção de nossas vidas em colaboração com o coletivo, na construção do mundo.

Se você está em busca de uma residência artística internacional, pode começar por estes links, mas também vale procurar diretamente nos sites das instituições.”

Res Artis – Rede Mundial de Residências Artísticas

DagArtes – Específico para artistas e profissionais da cultura

Foto principal: D. Maria I e D. Pedro III no Palácio Nacional de Queluz não têm autoria conhecida, mas foram provavelmente pintados por artistas da corte.

Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.

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Respostas de 28

  1. Que maravilha Edra!! Tudo o que está acontecendo, essa experiência, e provavelmente o que está por vir, combina com você! Aproveite e curta muito! Abração.

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