Por Edra Moraes
Há alguns anos, “Economia Criativa” virou o mantra sagrado de consultores, palestrantes e gestores públicos que descobriram uma forma genial de falar sobre cultura sem precisar, de fato, fazer nada por ela. Basta um PowerPoint colorido, algumas estatísticas internacionais sobre o “potencial econômico da criatividade” e pronto: você tem um evento. Melhor ainda se tiver coffee break com músicos se apresentando de graça.
Enquanto auditórios se enchiam de discursos motivacionais sobre “inovação”, “empreendedorismo criativo” e “a cultura como motor econômico”, o termo se esvaziou completamente. Tornou-se exatamente aquilo que mais temíamos: um movimento palestrinha. Coaching cultural. Buzzword de gestão pública para quem quer parecer moderno sem o incômodo compromisso de, sabe, investir dinheiro de verdade.
Porque aqui vai uma verdade que não cabe em slide motivacional: NÃO EXISTE ECONOMIA CRIATIVA SEM GESTORES PÚBLICOS ENVOLVIDOS DE VERDADE. Não existe sem orçamento robusto. Não existe sem políticas públicas consistentes. E definitivamente não existe com corte de 41% no PROMIC.
O que os palestrantes não contam
O prefeito Tiago Amaral apresentou a Lei Orçamentária de 2026 reduzindo o PROMIC de R$ 5,3 milhões para R$ 3,1 milhões. Para quem acompanha, não é novidade: desde 2022, quase todo ano a Câmara de Londrina tenta acabar com o programa. Em 2022, tentaram cortar e a pressão popular impediu. Em 2023, quiseram tirar R$ 3,2 milhões. Em 2024, o vereador Santão propôs retirar R$ 4 milhões para a Saúde – rejeitado. Agora, em 2025/2026, conseguiram sugerir os 41%.
E aí vem o discurso: “Seria melhor investir na Saúde!”
Vamos aos números, então, já que adoram falar de “economia”:
Orçamento de Londrina 2026:
- Total: R$ 3,7 bilhões
- Saúde: R$ 1,2 bilhão (32,4% do total)
- Educação: R$ 1 bilhão (27% do total)
- PROMIC: R$ 3,1 milhões (0,08% do total)
Os R$ 3,1 milhões que querem tirar da cultura representam:
- 0,25% do orçamento da Saúde – não resolveriam nada
- 0,31% do orçamento da Educação – não mudariam nada
É como arrancar o almoço de uma criança para adicionar um grão de arroz no prato de quem já está farto. Mas soa bem no palanque, né? “Tirei da cultura para colocar na Saúde”! Mesmo que seja uma quantia que não fará a menor diferença lá, mas destruirá completamente aqui.
O Efeito Dominó que ninguém menciona
E aqui está o detalhe que os especialistas em “economia criativa” esquecem de mencionar em suas palestras motivacionais: quando se destroi o principal mecanismo de fomento municipal, desmorona todo um ecossistema cultural.
Não é apenas o corte do PROMIC. É a inviabilização de projetos que dependem dele como contrapartida ou recurso complementar. É o colapso de uma cadeia produtiva cultural inteira. Menos verba municipal = menos projetos viáveis = menos produção cultural = fim da economia criativa real.
Sim, há editais federais que não exigem contrapartida municipal. Mas a questão é outra: sem um programa municipal robusto, Londrina se torna culturalmente dependente apenas do que vier de fora. Perde autonomia, perde identidade, perde a capacidade de fomentar sua própria produção cultural.
Mas isso não cabe em três slides, então fica de fora dos eventos de “economia criativa”.
O padrão internacional que insistem em ignorar
Não é coincidência. Onde a extrema direita avança, a cultura é o primeiro alvo. Dos EUA à Índia, do Brasil a Portugal, o roteiro é o mesmo: cortes orçamentários, extinção ou enfraquecimento de ministérios e secretarias, descontinuidade de programas, intimidação de artistas.
Por quê? Simples: cultura desenvolve pensamento crítico. Cultura forma cidadãos que questionam, que debatem, que não aceitam qualquer narrativa. E isso é perigoso para quem quer governar sem contestação.
Na Alemanha, em 2017, a AfD (extrema direita) exigiu cortes drásticos em três grandes teatros de Berlim. No Brasil, vimos a extinção do Ministério da Cultura. Em Portugal, asfixiam as universidades públicas transferindo fundos para as privadas. O padrão é claro: asfixia financeira como método de controle político.
Os cortes não são por “economia” – são estratégicos. É guerra cultural, no sentido mais literal do termo.
A encruzilhada do secretário
E aqui chegamos ao ponto mais delicado: a Secretaria de Cultura de Londrina. O secretário está numa posição complexa – para não dizer impossível. Defender o PROMIC, brigar por orçamento, assumir uma postura combativa em favor da cultura seria, teoricamente, sua função. É o óbvio.
Mas é também potencialmente contrário aos interesses do grupo político que o colocou lá.
Porque se o projeto é enfraquecer a cultura, se a estratégia é esvaziar políticas públicas de fomento, se o objetivo é transformar a Secretaria numa vitrine sem conteúdo… então defender o PROMIC vira um ato de rebeldia. Um desvio do script.
E aí está o paradoxo cruel: o secretário que deveria ser o principal defensor da cultura se vê diante de uma escolha entre fazer seu trabalho ou manter-se alinhado ao projeto político que sustenta seu cargo. Entre ser secretário de Cultura ou secretário DE FATO.
A pergunta que fica é: terá ele a coragem – ou a liberdade – para assumir uma posição de defesa real? Ou será mais um burocrata contando os dias até o próximo evento de “economia criativa”, onde ele e o grupo de escolhidos falarão bonito sobre o potencial da cultura enquanto ela definha por falta de recursos?
Chega de papo furado
Enquanto isso, os palestrantes seguem vendendo cursos de “como monetizar sua criatividade” para artistas que mal conseguem pagar aluguel. Seguem enchendo eventos com jargões sobre “disrupção criativa” enquanto o PROMIC sangra. Seguem falando de “economia criativa” como se fosse possível fazer economia sem investimento.
O termo virou piada. Virou marketing. Virou desculpa para a ausência de compromisso real.
Economia criativa de verdade se faz com:
- Gestores públicos comprometidos (não palestrantes)
- Orçamento robusto (não sobras)
- Políticas públicas sérias (não eventos motivacionais)
- Secretários que defendem a cultura (não que apenas administram sua extinção)
E se destruírem o PROMIC, podem escrever o epitáfio na lápide da tal “economia criativa” de Londrina: “Morreu numa palestrinha motivacional, enquanto todos aplaudiam educadamente.”
Cultura não é gasto: é investimento no presente e no futuro da sociedade.
E definitivamente não é tema para coaching.
Movimento Londrina Criativa
Porque a economia criativa real se faz com política pública, não com PowerPoint
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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Uma resposta
Excelente reflexão, Edra. Formar pensamento crítico não interessa à extrema direita.