Da cidade que ensinou o Brasil a fazer política cultural à cidade fora do jogo?

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Londrina ajudou a escrever o manual de política cultural do Brasil. Em 2026, descobriu que nem ela mesma segue as próprias regras

Por Edra Moraes

Esta semana é simbólica para Londrina. Nós, que somos crias do FILO, seja como artistas ou público, adoraríamos comemorar. Afinal, estamos falando do mais antigo festival de teatro do continente em atividade contínua. Criado em 1968, formou apaixonados por arte: éramos do interior, mas orgulhosos dos nossos artistas.

E não por acaso, a cidade construiu, ao longo de décadas, uma das experiências mais consistentes do país em participação social, financiamento público e formulação de políticas culturais. O Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) tornou-se objeto de estudos, inspirou outros municípios e consolidou a imagem de Londrina como um território capaz de compreender a cultura não como entretenimento, mas como desenvolvimento, cidadania e economia.

A cidade que sediou festivais internacionais, formou gerações de artistas e público, criou um dos mais importantes programas municipais de fomento do Brasil e se tornou símbolo da participação da sociedade civil na construção das políticas públicas, parecia ter compreendido algo fundamental: cultura não é gasto, é investimento.

O que Londrina perdeu de verdade

Por isso, o que aconteceu em 2026 tem um significado que ultrapassa a perda de um edital. Tecnicamente, Londrina não perdeu dinheiro: nenhum recurso foi retirado da cidade depois de ter sido concedido.

Mas a cidade que foi pioneira, o primeiro Movimento de Cidade Criativa do País, perdeu algo talvez mais grave: a oportunidade de participar do Programa de Apoio aos Municípios Criativos do Paraná, que distribuiu R$ 40 milhões entre municípios aptos a receber recursos do Fundo Estadual de Cultura. Ficou de fora por não cumprir uma exigência básica: possuir um Plano Municipal de Cultura vigente.

Para entender o tamanho do buraco: o Paraná tem 399 municípios. Até o fim de 2025, 374 deles já tinham Conselho, Plano e Fundo de Cultura implementados, o que representa 93,7% de adesão ao Sistema Nacional de Cultura, segundo balanço divulgado pela própria Secretaria de Estado da Cultura. Sobram pouco mais de duas dezenas de cidades paranaenses sem essa estrutura básica. Londrina, a segunda maior do estado, está nesse grupo. Na 2ª edição do programa, 44 municípios foram selecionados para dividir os recursos. Londrina nem chegou a competir.

A ironia histórica de quem ensinou o jogo

É uma ironia histórica. Enquanto pequenos municípios avançam na institucionalização de suas políticas culturais, Londrina, que já foi modelo para o país, está sem um plano decenal desde 2022. Mais do que um documento burocrático, o Plano Municipal de Cultura é o instrumento que garante continuidade: é ele que estabelece metas, prioridades e diretrizes para os próximos dez anos, independentemente de quem esteja no governo.

Política de ocasião, não política de Estado

Sem ele, a política cultural deixa de ser política de Estado e passa a correr o risco de se transformar em política de ocasião. Em abril de 2026, a Câmara Municipal rejeitou, por 10 votos a 8, a tramitação em regime de urgência do novo Plano Municipal de Cultura. O argumento era a necessidade de maior debate. O resultado prático foi imediato: o prazo do edital estadual expirou e Londrina sequer teve projeto habilitado.

A consequência vai muito além dos recursos que deixaram de chegar. Quando uma cidade não possui instrumentos consolidados de planejamento, perde capacidade de negociação, de captação e de projeção estratégica, e se torna mais vulnerável às mudanças de governo, aos cortes orçamentários e às descontinuidades administrativas.

Quando o jogo mudou e a cidade não viu

O risco é ainda maior porque o Brasil caminha em direção ao fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura e das transferências fundo a fundo. Estados e União têm privilegiado municípios que possuem sistemas estruturados, conselhos ativos, fundos e planos aprovados. Em outras palavras: a institucionalidade deixou de ser um detalhe e passou a ser condição para acessar recursos. Londrina, que ajudou a construir essa compreensão no país, corre o risco de se transformar em um exemplo inverso.

O que ainda resiste em campo

É importante dizer que isso não significa o colapso das políticas culturais locais. O Promic continua existindo. A Política Nacional Aldir Blanc segue em execução. Os agentes culturais continuam produzindo. Os coletivos seguem trabalhando.

Mas a cultura não sobrevive apenas da resistência dos artistas. Talvez a questão mais importante não seja perguntar quanto dinheiro Londrina deixou de receber. A pergunta mais profunda é outra:

Como e por que uma cidade que foi referência nacional em gestão cultural chegou ao ponto de ficar de fora justamente por não possuir o instrumento mais básico das políticas públicas contemporâneas?

Porque a perda de um edital pode ser circunstancial. Mas perder a capacidade de planejar o próprio futuro é algo muito mais grave. Nenhuma tradição é permanente.

Ainda dá tempo, mas nostalgia não substitui plano de jogo

Ainda há tempo de reverter esse quadro, mas recuperar protagonismo exige mais do que nostalgia. Exige reconhecer que a cultura não se sustenta apenas pela memória do que já foi capaz de realizar. Ela depende, sobretudo, da coragem de construir o que ainda pode ser. E, principalmente, lembrar que de nada adianta um governo federal progressista e interessado em apoiar a cultura, se lá na ponta, no município, os interesses forem outros.

Este é um ano de eleição, e volto a lembrar aqueles que fazem da arte e da cultura uma carreira, e não um hobby: que se mostrem, que tomem partido, que busquem seus candidatos, que cobrem posição. Esta é a nossa carreira.

Times que ficam de fora de campo não voltam ao jogo pela nostalgia da arquibancada. Voltam jogando. Os comentários estão abertos: quero saber quem, entre os políticos (candidatos e eleitos) de Londrina, já disse uma palavra sobre isso.

Edra Moraes

Cidade pioneira em política cultural, Londrina ficou fora dos R$ 40 milhões do Paraná por falta de Plano Municipal de Cultura. Entenda o que isso revela para 2026

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.

Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes e @londrinacriativamovimento,

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