Por Edra Moraes
A fragilidade enfrentada pelos festivais brasileiros revela um processo de desestruturação que atravessa diferentes gestões e compromete, de maneira profunda, o tecido cultural do país. Essa percepção não é mero diagnóstico distante: ao conversar com diversos agentes da cena cultural de Londrina, percebi que o apagamento é nacional e não um fenômeno isolado da cidade.

Em diálogo com Tânia Pires Abrão, diretora do FESTLIP – Festival Internacional das Artes da Língua Portuguesa, ficou evidente a urgência expressa no Manifesto Nacional das Artes Cênicas. O FESTLIP integra a Rede Brasileira de Festivais de Artes Cênicas (RBFAC), que reúne mais de 90 festivais de teatro, dança e circo em todas as regiões do país. A Rede tornou público um manifesto alertando para as dificuldades de avanços no diálogo com o Ministério da Cultura, mesmo após reuniões oficiais, apresentação de diagnósticos detalhados e envio, em fevereiro de 2025, de uma proposta de edital baseada na Lei Rouanet especial.
O documento reforça que festivais não são eventos pontuais, mas plataformas essenciais de criação, circulação, diversidade cultural, formação de público e preservação da memória artística. Sustentam ecossistemas inteiros e mobilizam territórios, profissionais, artistas e comunidades. Ignorar essa rede significa colocar em risco a própria democracia cultural brasileira.
Durante o MICBR – Mercado das Indústrias Criativas do Brasil, realizado de 3 a 7 de dezembro, o manifesto ganhou ainda mais visibilidade ao ser entregue publicamente no Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura. A presidente do Fórum, Danielle Barros, comprometeu-se a encaminhá-lo ao Ministério da Cultura, passo crucial num cenário em que boa parte das políticas públicas depende da atuação dos estados. Leis como a Paulo Gustavo e a Aldir Blanc somam mais de 4 bilhões de reais distribuídos às secretarias estaduais, tornando a corresponsabilidade dos estados indispensável para garantir circulação, continuidade e fomento em escala nacional.
Esvaziamento institucional dos festivais
A posição da Rede é inequívoca: trata-se de um chamado firme para a retomada do diálogo e a construção de políticas públicas estáveis e adequadas à realidade da produção artística brasileira. Entretanto, o esvaziamento institucional e a descontinuidade das políticas não atingem apenas as artes cênicas. Festivais literários, por exemplo, vivem abandono quase absoluto, ignorados tanto pelo poder público quanto pelo setor privado.
Há uma assimetria muito clara: enquanto o audiovisual é tratado como locomotiva da economia criativa, festivais de arte que não mobilizam grandes massas ou não geram espetacularização são empurrados para a invisibilidade. Mesmo com público qualificado, acabam classificados como iniciativas de baixo impacto, o que é um equívoco grave. Muitos sobrevivem graças ao ativismo de seus realizadores, ao voluntariado e à resiliência, e não por políticas estruturadas.
Esse cenário se conecta à crença reducionista de que o audiovisual seria a “salvação” da economia criativa. O cinema, sem dúvida, é uma indústria potente e estruturada. Mas essa força não justifica o apagamento de setores que promovem arte, memória e formação cultural e não apenas visibilidade de marcas.
Pode ser pior: alguns gestores insistem em fabricar artificialmente uma vocação audiovisual, ignorando que vocações culturais são históricas, afetivas e territoriais. Exemplos como Paulínia, Cabaceiras, Fortaleza, Recife e Porto Alegre mostram como polos audiovisuais podem ser frágeis quando dependem mais de imaginação política que de políticas sólidas. Vocação não nasce por decreto.
Londrina é exemplo disso. Uma cidade centenária com um festival de mais de 50 anos e mais de 13 festivais com mais de duas décadas de existência, mas que segue à deriva. Esses festivais são fundamentais para formação de público, circulação artística, memória, diversidade, redes de colaboração e fortalecimento de carreiras, mas permanecem invisibilizados. E, apesar disso, sobrevivem graças a artistas premiados, gestores experientes e um voluntariado que literalmente carrega a cultura nos braços.
A gestão municipal atual, comandada por um profissional da comunicação, domina com excelência a linguagem visual e digital. A cidade aparece bem nas redes, há registro cuidadoso dos eventos, e a estética da comunicação é eficiente. No entanto, permanece nebulosa a existência de políticas culturais estruturais. Registrar o que acontece não é o mesmo que construir condições institucionais para que aconteça.
Falta clareza sobre se Londrina está, de fato, investindo em infraestrutura cultural ou apenas documentando, de maneira eficiente, o que resiste por esforço próprio dos realizadores.
Esse problema é agravado pela lógica da Lei Rouanet, que transfere ao patrocinador privado a decisão final. A relevância cultural perde espaço para a visibilidade de marca. Assim, festivais literários, de dança, teatro e iniciativas experimentais competem com shows gigantescos, reforçando uma confusão entre arte, cultura e entretenimento.

Cultura envolve processos simbólicos e formação cidadã; arte implica pesquisa, risco e invenção; entretenimento busca espetáculo e diversão. Não são esferas equivalentes e não deveriam disputar os mesmos mecanismos de financiamento sem critérios diferenciados.
A cultura brasileira é plural e territorial. Festivais são dispositivos centrais de desenvolvimento local. A pergunta que fica é:
Como sustentar essa diversidade quando políticas públicas seguem orientadas por lógicas de público de massa?
Como preservar festivais que constituem a pulsação cultural de cidades e regiões, mas não produzem os indicadores numéricos valorizados por gestores e investidores?
Enquanto essas questões seguem sem resposta, os festivais continuam resistindo, não por causa das políticas públicas, mas apesar de sua ausência.
Baixe o manifesto da Rede Brasileira de Festivais de Artes Cênicas
E se você tem algo a dizer sobre o assunto entre em contato, o espaço é seu.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020.
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Respostas de 2
Excelente reflexão. Enquanto os recursos forem disponibilizados somente para o que tem maior visibilidade, tão bem pontuado nesta matéria, as tradições culturais das pequenas cidades, não menos importantes e que compõem nossa colcha cultural, vão se apagando. Triste isso!
Ótima reflexão!
Londrina realmente teve uma maravilhosa fundação no seu início, como sempre digo! Projetou-se artísticamente por uma irreverência atípica o que desdobrou em movimentos socioculturais absolutamente contemporâneos, com produções marcantes no cenário nacional!
Pois…adormeceu! Não investiu em equipamentos culturais, em escolas de artes, espantou inúmeros artistas que se sentiram sufocados pela falta de perspectivas!
Os Festivais salvaram essa estagnação porque? Não são eventos pontuais, mas escolas sazonais, mantendo um calendário anual, e tendo permanecido pó décadas. sofreram metamorfoses extraordinárias, acompanhando os movimentos estéticos e socioculturais promovendo a inclusão de grupos invisiblizados e a reflexão crítica sobre o papel da arte na sociedade!
Mas, não é possível ter uma sustentabilidade somente por editais. É preciso um projeto estratégico para que as gerações vindouras assumam esse legado que é um tesouro construído com esperança e iluminação!
O Festival Internacional de Musics de Londrina nasceu institucionalizado por Decreto do Governador Álvaro Dias e Secretário Rene Dotti, em 1979, com o apoio da UEL e o então Departamento de Cultura. São 45 anos de luta para as realizações que, como escola sazonal, formou e impulsionou a carreira muitos músicos e educadores que fazem questão de retornar como professores e professoras/artistas!! Com uma concepção aberta e capaz de incorporar o novo, o FIMLé reconhecido nacionalmente e isso projeta Londrina!! Portanto, urge que todos os festivais sejam concebidos como política cultural e o reconhecimento de inscrever “Londrina cidade dos Festivais” seja, de fato e de direito, incorporada como plano estratégico da cidade, projetando equipamento culturais e o corpo de funcionários para garantir a gestão desse plano! Tenhamos perseverança e esperança!