Por Edra Moraes
Num mundo cada vez mais conectado, onde a globalização aproxima culturas, mas também ameaça sua diversidade, a Economia Criativa surge como um trunfo para quem quer se destacar sem perder a própria essência. Mais do que moda, ela virou estratégia: investir em criatividade é investir em identidade, desenvolvimento e projeção internacional.
Setores como arte, design, moda, audiovisual e tecnologia ganharam novo protagonismo ao mostrar que ideias e cultura também geram riqueza — e influência. Países como a Austrália entenderam isso cedo, apostando em políticas públicas que transformaram a criatividade em motor de crescimento. Afinal, num cenário globalizado onde produtos são copiados em segundos, o que realmente faz diferença é aquilo que nenhum outro país pode replicar: sua história, sua cultura e sua capacidade de criar algo a partir de uma ideia.
No Brasil, a economia criativa emprega hoje cerca de 7,8 milhões de trabalhadores e cresce em ritmo acelerado. Profissões ligadas ao design, música, software e gastronomia estão entre as mais aquecidas. Estima-se que o setor possa gerar 1 milhão de novos empregos até 2030. Mas, ao lado desse crescimento, floresce também um cenário sombrio de precarização, exploração e invisibilidade.
A Economia é criativa ou explorativa?
Apesar de sua importância econômica e social, muitos trabalhadores da economia criativa convivem com instabilidade, baixa remuneração e falta de direitos trabalhistas. A informalidade atinge cerca de 37% do setor no Brasil, e a desigualdade racial se expressa nos salários: pretos e pardos recebem, em média, valores menores que trabalhadores brancos.
Movimentos por melhores condições de trabalho têm surgido em vários países, impulsionados por fatores como:
- Contratos temporários ou informais.
- Ausência de benefícios sociais.
- Cortes no orçamento da cultura.
- Desvalorização simbólica do trabalho criativo.
Protestos como a marcha “O Brasil Não Merece Mais Isso” em Brasília, o movimento “Stand Up For Art” no Reino Unido e as greves de roteiristas em Hollywood denunciam a urgência de políticas que protejam e valorizem os trabalhadores da cultura.
O voluntariado como nova face da exploração
Em muitos projetos culturais, o trabalho voluntário tem sido utilizado como substituição de mão de obra remunerada. Sob o pretexto de “oportunidade de aprendizado” ou “exposição artística”, artistas e produtores acabam doando seu tempo e talento em troca de promessas vagas de reconhecimento. Essa prática normaliza a exploração e impede a profissionalização do setor. Trabalhar com cultura não deve ser tratado como um favor: é uma atividade econômica legítima, que movimenta bilhões e gera impacto social concreto. É essencial diferenciar o voluntariado genuíno de práticas que apenas mascaram a exploração do trabalho criativo.
Plataformas digitais: a nova precarização artística
Outro grande desafio vem das plataformas digitais. Se por um lado elas democratizaram o acesso e a divulgação da arte, por outro criaram modelos de remuneração que muitas vezes beiram o absurdo e o ridículo.
Serviços de streaming de música, livros, vídeo e arte visual distribuem micropagamentos aos criadores — valores tão baixos que tornam quase impossível viver da produção artística. Enquanto plataformas lucram bilhões com assinaturas e publicidade, os artistas recebem centavos por milhares de visualizações ou reproduções.
Essa nova economia da atenção exacerbou a lógica da exploração:
- Artistas precisam produzir constantemente para manter sua relevância.
- A remuneração é instável e dependente de algoritmos obscuros.
- Há pouca transparência nos critérios de distribuição dos lucros.
Assim, o artista vira mais um elo frágil na cadeia de um sistema que prioriza o consumo massivo e imediato, em detrimento da sustentabilidade cultural e da dignidade profissional.

Cultura sob ataque político: o caso brasileiro
Além da exploração econômica e das práticas de precarização, a cultura no Brasil tem enfrentado um ataque sistemático de setores políticos que buscam marginalizar artistas e enfraquecer o setor cultural. Em diversas cidades, movimentos de extrema direita tentam transformar a cultura em um inimigo público, promovendo narrativas distorcidas que associam o financiamento cultural a “privilégios” ou “desperdício de dinheiro público”.
Um exemplo ocorre em Londrina (PR), onde, ano após ano, vereadores de extrema direita tentam cortar ou extinguir verbas destinadas à cultura. Ignoram — propositalmente — que o orçamento público não é uma peça de encaixe simples, onde se tira verba de um setor para colocar em outro sem planejamento ou responsabilidade técnica.
Essa prática alimenta uma falsa disputa social e coloca a população contra os artistas, quando, na realidade, serve apenas como um espetáculo político — um “circo” calculado para obter ganhos eleitorais às custas da desinformação e da desvalorização cultural. Esse ambiente hostil aprofunda a precarização e atinge não apenas os trabalhadores da cultura, mas toda a sociedade, que perde acesso à diversidade artística e à reflexão crítica proporcionada pela produção cultural, e principalmente a cidade de Londrina que tem sua identidade diretamente ligada a arte e a cultura, com programas que foram modelos para o país.
A luta pela valorização: um movimento necessário
Frente a esse cenário, surge a necessidade de união e articulação dos trabalhadores da economia criativa. É urgente:
- Exigir políticas públicas que garantam direitos trabalhistas para o setor.
- Criar e fortalecer redes de apoio e cooperação entre profissionais.
- Lutar por transparência nas plataformas digitais e remuneração justa.
- Valorizar a produção cultural como atividade essencial para o desenvolvimento econômico e social.
O que está em jogo é mais do que o sustento de milhões de profissionais: é a preservação da diversidade cultural, da inovação e da capacidade crítica das sociedades. Num tempo em que a cultura é mercantilizada e banalizada, defender os trabalhadores criativos é defender a própria capacidade humana de imaginar, transformar e evoluir.
Trabalhadores da economia criativa, uni-vos!
Porque sem vocês, o mundo seria apenas uma repetição cinzenta — sem música, sem arte, sem novas ideias.
Edra Moraes

Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa. Prêmios: Obras Literárias Digitais 2020, “Antologia Poética | Seleção da Autora, Memorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura Unespar, Cultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes, YouTube @edra-moraes27. Contatos: e-mail edra.moraes27@gmail.com e fone/whatsapp: (41) 997722447.
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Respostas de 3
Excelente!!!! Esse tipo de alerta é importante. Tem que fazer gerar desconforto, pra quem é da área.. E que partam pras ações necessárias pra mudar o jogo.
Parabéns, ficou perfeito!
Parabéns, ficou perfeito, bela reflexão,
!