Em 2011, discordando da política da administração municipal em relação à folia de Momo, escrevi que o Carnaval de Londrina tinha uma nota só: zero! Como falar em carnaval popular de rua com palcos fixos, questionei? E as escolas de samba cadê? Até concordo que possa ter havido erro – se proposital ou não eu não sei – da Liga das Escolas de Samba ao falsificar a assinatura da cessão do autódromo para o desfile quando do pedido da verba do Promic para Secretaria de Cultura, mas nada justificava simplesmente banir todas as escolas de samba da folia. Desse episódio, resultou um edital com verba destinada ao Carnaval em geral e não especificamente para escolas de samba.
Para aqueles que dizem que o samba não combina com Londrina, basta lembrar dos carnavais empolgantes na então Avenida Paraná no meio da década de 1970. Na fase pré-Calçadão, o centro de Londrina fervilhava nas quatro noites de folia. Sábado e segunda com desfile de blocos dos clubes e avulsos. Domingo e terça era a vez das escolas de samba. O título do Carnaval era disputado com muita empolgação pela Unidos e Independente, escola da Vila Nova, pela Acadêmicos do Samba, da Vila Casoni, e pela Bafo da Gibóia, também na região das duas vilas.
No meio da década de 70, surgiu então a Chão de Estrelas que revolucionou o carnaval de rua da cidade. A escola, que chegou a ter quase mil integrantes (um recorde até hoje para o samba londrinense), trouxe, em 1976, um dos mais belos sambas-enredos já cantados na avenida. O samba em homenagem aos pioneiros pés-vermelhos foi puxado pela ainda desconhecida Eliane Camargo – que depois viria a ser conhecida como a “rainha do bailão” Brasil afora – e outros cantores. A bateria cadenciada e com tamborins “desenhando” o samba encantaram o grande público que lotou a Avenida Paraná naquele ano. Não lembro de quem era a letra, mas até hoje ainda recordo da música que começava assim:
“São imigrantes, pioneiros de vários rincões
Vieram de pau de arara, de trem ao Paraná
Pra voltar não dava mais
A terra roxa, a fé e a esperança
Paraná, Paraná,
Chegaram com grandes pretensões
Trabalharam mais que os peões
Mas não sabiam que a tal geada
Era com fogo que tudo queimava
E meus senhores viram ao chão as estrelas
Que com tristeza choravam
Olhando os cafezais mudando de cor
O verde se transformar
A gralha azul outro pinheiro foi plantar
E meus senhores com as Cataratas choraram
Com as Sete Quedas puderam se levantar
Em Vilha Velha Renovar
O gado nelore, guzerá
Itaipu, microondas no ar
Lavouva branca, erva-mate, Yemanjá
Café solúvel salve o Paraná!”
Claro que a Chão de Estrelas não trouxe grandes carros alegóricos (para os padrões locais, bem entendido) como já foi visto mais tarde no Autódromo pelas novas escolas da cidade. Ela, porém, trouxe como novidade um samba cantado pelos seus integrantes – coisa que não ocorria até então, pois se ouvia o samba no palanque de autoridades e julgadores que ficava na praça Floriano Peixoto, além cumprir o enredo escolhido com alas determinadas e destaques em pequenos carros alegóricos.
E o principal: grupo de passistas (as cabrochas como eram chamadas as mulatas), de capoeiristas (sempre presentes no Carnaval de Londrina), um grande grupo de travestis (que, ao mesmo tempo, em chocava parte da sociedade, divertia o restante do público) e uma boa quantidade de baianas (coisa raríssima nos últimos carnavais de Londrina). A Chão de Estrelas fez história, curta é verdade como sempre em razão da verba enxuta oferecida pelo município, mas marcante.
Essas escolas, baseadas em bairros centrais e, curiosamente, no então chamado trecho abaixo da linha do trem, foram definhando com o tempo em razão da descontinuidade tanto por parte de seus diretores quanto por parte do município. Alguns prefeitos pouco afeitos ao samba simplesmente riscaram de seus planos o Carnaval de rua de Londrina.
O fechamento da Avenida Paraná, em 1977, deu início a esse desmonte. Jogado para a Rua Sergipe, para a Quintino Bocaiúva e para a Maringá, o samba londrinense recuperou o fôlego só na década de 1990 na recém-inaugurada Leste-Oeste pelo prefeito Wilson Moreira. Com grandes arquibancadas montadas no canteiro central, o público pôde apreciar o samba do alto.
Nesse período, já reinavam outras escolas como a Unidos do Jardim do Sol, Bahia Abraça Londrina e novata Quilombo dos Palmares. Posso ter esquecido uma ou outra escola, mas essas três lutavam pelo título de campeã. E já se notava o deslocamento do eixo do samba londrinense dos bairros mais centrais para a periferia. A Quilombo, escolhendo o verde e rosa da Mangueira, representava o Cincão, embrião do que viria a ser a Zona Norte hoje (muito mais populosa).
E nesse vai e vem descontínuo e desorganizado, o Carnaval de rua de Londrina foi sobrevivendo até que na penúltima década ressurgiu com alguma força: uma liga de escolas foi formada e os desfiles passaram para o autódromo que já desfruta de uma certa estrutura. Quilombo e Jardim do Sol, que se rivalizaram nos anos 90, quase sucumbiram e foram suplantadas por escolas da zona sul da cidade, como a Garotos Unidos e a Gaviões Londrinense. Depois de
A Zona Norte ganhou a Explode Coração (hoje, a única com alguma atividade regular) e a Império da Zona Norte. Em 2008, por exemplo, à exceção da Império que fazia parte do grupo B, as demais eram do grupo A. Já Sangue Azul, Jardim do Sol e Alegria da Passarela participaram do desfile do sábado como convidadas. E a Quilombo pediu licença como trouxe uma matéria da Folha de Londrina de 5/2/2008.
Em 2013, um fato que ninguém esperava aconteceu: o último desfile das escolas de samba no Autódromo. Demos adeus, sem saber, a uma alegria que mexia com a população, principalmente as mais humilde.
Londrina tem sim samba no pé e tradição no desfile de Carvanal. Basta vontade, política acima de tudo, para que a festa de Momo volte alegrar a cidade com concurso de rei e rainha do Carnaval e o principal, de novo, o desfile de escolas de samba. Ah, sim os blocos são bem-vindos, como o Bafo Quente que, em 2019, arrastou uma multidão de foliões ávidos para brincar na folia de Momo. O circuito foi curto – do Zerão ao Aterro do Lago -, mas quem sabe, em 2020, o Bafo não ocupe a Avenida Higienópolis ampliando o Carnaval londrinense. E por que a Secretaria de Cultura não estimula uma noiva organização das escolas de samba e um jeito próprio de fomentar os desfiles de Carnaval?
Claudemir Scalone
Equipe O LONDRINENSE
Foto: Codel/N.Com

