Londrina de outros carnavais

Professor Braga, uma das memórias do carnval de Londrina - Foto: Renato Forin Jr.

Será que tem samba no pé vermelho? O LONDRINENSE lembra histórias das muitas avenidas por onde o carnaval passou na cidade

Renato Forin Jr.

Equipe O LONDRINENSE

Antes de começar a entrevista, ele vai até a estante, pega um porta-retrato e coloca ao seu lado. “Se é para falar de carnaval, esse quadro é importante”. Na fotografia, um jovem solar na avenida: chapéu branco, figurino alinhado, cintura quebrada para a direita, frigideira e baqueta em punho. “Ué, frigideira, Seu Braga?”. “A gente começava tocando frigideira e depois ia para os instrumentos mais complicados. Mas era gostoso, a gente fazia coreografia na frente da bateria, deitava no asfalto e batucava a frigideira”, recorda o mesmo homem do retrato, 46 carnavais depois.

Prof. Braga, o Braguinha, cantor e compositor, nos conduz ala a ala pela história da folia em Londrina desde os anos 1970, quando chegou à cidade vindo da zona rural de Ivaiporã. Acostumado à música sertaneja, ele descobriu no norte do Paraná o que era o samba ao ouvir de soslaio as batidas das rodas de gente simples da comunidade popular onde morava, próxima à Vila Santa Terezinha (Região Leste). Não levando muito jeito para a dança, um dia pediu para participar da batucada – e deram-lhe a tal frigideira.

A foto é do desfile de 1973, quando tinha 21 anos e saiu pela Acadêmicos da Vila Casoni pela primeira vez. O sambódromo era a Av. Paraná, que receberia mais tarde o Calçadão. Braga não sabia que tinha sido clicado pelo fotógrafo até ir à banca na quarta-feira de cinzas e ver seu retrato estampado na capa do Novo Jornal, periódico recém-lançado pelo jornalista Délio César. Gargalhando: “Eu perguntei: ‘quem sou eu na história do carnaval em Londrina para estar na capa do jornal?’”.

Aos 67 anos, O Prof. Braga é autoridade no assunto e acumula motivos para ser o porta-voz do samba por aqui. Não bastasse ter fundado, em 1984, o Ziriguidum (chamado depois de Sambaguidum), primeiro grupo profissional de samba de Londrina, ele protagonizou outros marcos, como ter feito o primeiro show do gênero em um teatro na cidade (no Zaqueu de Melo, em 1990) e ser idealizador da lendária escola de samba Grêmio Recreativo Quilombo dos Palmares (em 1984). “O carnaval de Londrina nos anos 70 e 80, até início dos 90, era muito bom. Era uma efervescência no clube e na rua. As pessoas não saíam da cidade, não viajavam para a praia como fazem hoje. Elas ficavam e participavam”, compara.

Neste período, quando a chave da cidade era entregue ao Rei Momo, a folia ficava por conta das escolas de samba (que desfilavam no domingo e na terça-feira), dos blocos de rua (que seguiam cortejo no sábado e na segunda-feira) e dos bailes de clubes (que tinham programação estendida de até cinco dias, da sexta à terça-feira), com concursos de fantasias ao modo daqueles realizados no Rio e em São Paulo. De acordo com Braga, as diferenças das escolas de samba para os blocos eram que estes não tinham carros alegóricos, a bateria era menor e estavam, em geral, ligados a associações ou clubes.

“Tinha uma separação dos blocos da elite, como Country, Canadá, Iate, Clube Alemão, Grêmio, e os blocos dos grupos mais populares como AROL (Associação Recreativa Operária de Londrina) – das pessoas de renda baixa e pessoas negras, principalmente da Vila Nova -, o clube Canecão, o carnaval popular do Moringão e muitos outros clubes de bairros”. Alguns blocos ainda eram independentes, como o famoso “Pirulito”, formado por jornalistas e intelectuais liderados por Bernardo Pellegrini e Apolo Theodoro.

As escolas de samba, que chegaram a reunir de 15 a 20 mil espectadores, eram formadas basicamente pela estrutura destas associações populares, que dedicavam-se com afinco na elaboração dos enredos, preparação de alegorias e ensaios das baterias ao longo do ano. “As escolas não tinham dificuldade de arregimentar gente para desfilar, tinham raízes nas suas comunidades”. Dentre as mais tradicionais, Braga cita a Escola Chão de Estrelas, Bafo da Jiboia, Escola de Samba Bahia, Unidos do Jardim do Sol – todas elas localizadas na região mais antiga de Londrina, da Vila Nova ao Shangri-lá.

Os desfiles migraram por importantes vias da cidade. Inicialmente, na década de 1970, a Avenida Paraná era o point da juventude e concentrava o carnaval nos dias de folia. Com a construção do Calçadão, foram transferidos para a Quintino Bocaiuva. Na sequência, passaram ainda para a Rua Sergipe, Maringá, Leste-Oeste e, enfim, o Autódromo, onde aconteceu o último cortejo em 2013.

FASE ÁUREA

Muitos nomes do samba nacional passaram pelo carnaval de Londrina, de Almir Guineto a Dona Zica. Braga enche-se de orgulho e reverência quando recorda-se dos momentos, em 1987 e 1988, quando a matriarca mangueirense, esposa de Cartola, esteve na cidade para batizar a Quilombo dos Palmares. A Escola, que aglutinava a população dos “Cinco Conjuntos”, foi fundada na semana de Zumbi, em 1984, e tinha inspiração na organização do Movimento Negro, que se reunia no Bar Zumbi, da Rua Pernambuco.

O ônibus de Dona Zica chegou a Londrina de manhã, mas o café do Hotel Bourbon já tinha sido recolhido naquele horário. Braga, então, levou-a para fazer o desjejum na casa de Dona Vilma, a Yá Mukumby (1950-2013). Dali, nasceria uma amizade e a parceria da escola londrinense com a Estação Primeira de Mangueira, que gerou frutos.

Um deles foi o samba enredo da Quilombo, em 1992, composto pelo carioca Rodney de Jacarezinho, sobrinho de Dona Zica. O samba, um dos sucessos imortais do carnaval da cidade, tinha como tema “Na Contradança da Festança, Quem Dançou, Dançou”, sobre as diversas formas de movimento do corpo – desde o sacolejar do povo no ônibus até o descompasso político, com menção à então ministra da Fazenda Zélia Cardoso com o ministro da Justiça Bernardo Cabral, que protagonizaram um pas-de-deux afetivo. Prof. Braga interpretou o samba especialmente para O LONDRINENSE.

Confira:

O carnaval de 92 foi um marco para a história da Quilombo. A Escola saiu na avenida com mais de mil componentes e com uma bateria de 200 integrantes. Foi o ano em que eles fundaram a “ala das frigideiras” só com mulheres empunhando o irreverente instrumento de estreia de Braguinha.

Aliás, era a primeira vez que mulheres integravam uma bateria na cidade. Também foi o carnaval do primeiro nu na passarela, com o corpo da foliona pintado (com tinta nada resistente a suor) pelo artista plástico Agenor Evangelista. Dos 10 quesitos avaliados, a Quilombo dos Palmares foi campeã em 9.

FASE ATUAL

As duas últimas décadas assistiram a uma mudança progressiva no formato da folia oficial em Londrina. O Programa Municipal de Incentivo à Cultura, atualmente, tem uma linha específica de patrocínio para projetos de carnaval. Ela é aberta à ampla concorrência – inclusive às escolas de samba, ações infantis e blocos de rua.

Para 2019, os projetos aprovados foram: “Bailinho do Plantão – Ano 2”, do Projeto Plantão Sorriso, com uma proposta para crianças; “Carnaval Bloco Bafo Quente Londrina 2019”, da Associação dos Profissionais de Dança de Londrina e Região Norte do Paraná, com shows do grupo percussivo em trio elétrico e ensaios abertos por todas as regiões de Londrina, e “Bloco Folia da Cidadania”, da Associação de Democratização da Comunicação – ADECOM, um resgate dos velhos carnavais e concursos.

“As escolas, em geral, foram perdendo espaço. Eu costumo dizer que escola de samba depende de sua comunidade. Seus componentes têm de ser respeitados. São pessoas simples, trabalhadoras, que não cobram nada da escola para desfilar, só querem mostrar o seu valor, se divertir. Tem muita gente que fica batendo na tecla da falta de apoio público e essa coisa toda, mas, na verdade, os dirigentes das escolas de samba pecaram muito durante este tempo, porque começou um processo de desvalorização da própria comunidade”, opina Prof. Braga.

Para ele, o retorno dos desfiles depende do empenho e da organização de novas gerações, não só para a obtenção dos recursos públicos via edital, mas também para o que é essencial – o respeito às comunidades de base e o resgate de valores gregários que fazem a nossa festa mais popular.

Foto e vídeo: Renato Forin Jr.

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