Livro do jornalista Ney Inácio resgata o “lado B” da história de Londrina e será apresentado ao público londrinense, a partir das 19 horas
O LONDRINE̅NSE com assessoria
Depois de conquistar espaço e chamar a atenção do público durante a Bienal do Livro de São Paulo, “O menino que virava do avesso – Londrina 1964” , primeiro livro do jornalista Ney Inácio, chega finalmente à sua cidade, onde a história nasceu. O lançamento será no próximo dia 22, terça-feira, no Sesc Cadeião Cultural, dentro da programação Primavera no Museu.
“A participação na Bienal, nos dias 9 e 10 de setembro, aconteceu a convite da Marupiara Editoração e acabou antecipando o lançamento que estava originalmente previsto para Londrina, que sempre foi minha intenção original”, explica o autor.
Mas Londrina terá uma vantagem sobre a Bienal: o preço do livro estará com desconto, de R$98 para R$68, no dia do lançamento. “É um livro de quase 400 páginas e eu quis deixá-lo mais acessível, para que todos os interessados possam adquiri-lo”, diz Inácio.
O livro, editado pelo Editora Kan, traz a história do menino Kiko – apelido familiar do próprio Ney – e de uma cidade que aparece por um ângulo pouco conhecido da história oficial: o da periferia, das famílias pobres e trabalhadores comuns que não fizeram dinheiro e sucesso na Londrina de outrora. Basicamente é o lado B da história oficial dos pioneiros.
“O menino que virava do avesso – Londrina 1964” é uma obra autobiográfica construída a partir das memórias do autor, Ney decidiu transformar as lembranças de um ano específico de sua infância – quando tinha 10 anos.
A narrativa começa com um encontro fictício entre o Ney de agora, já idoso, com uma criança curiosa, que pergunta se a vida demora a passar ou voa rápido demais. “Vou te contar um ano da minha vida, quando eu tinha 10 anos. Aí você tira suas próprias conclusões”, responde o idoso.
Para recuperar as lembranças, Ney voltou aos lugares onde viveu sua infância, inclusive aqueles que não existem mais. Sentava no meio-fio e deixava a memória reconstruir cenas, personagens e acontecimentos. Escreveu tudo, ali mesmo, no celular.
Memórias de menino e uma cidade pelo avesso
O livro mergulha na rotina de Londrina de 1964, vista pelos olhos de um menino inquieto, criativo e curioso que, segundo uma de suas tias, vivia “virando tudo do avesso”.
Filho de um seleiro sem estudos e de uma dona de casa que lavava roupa para fora, Kiko cresceu com outros cinco irmãos nas periferias de Londrina. Seus pais haviam deixado Minas Gerais atraídos pelas promessas de fartura na “terra vermelha” do Paraná, assim como milhares de outros migrantes.
“Mas a realidade foi bem diferente do que eles imaginavam”, conta Ney. A família perdeu o pouco que tinha com golpes e uma grande geada em 1963 que, segundo ele, foi tão intensa como a de 1975, a Geada Negra. “Acabamos no que, na época, era a periferia da cidade, mas meus pais conseguiram manter a dignidade e a esperança. Eles conseguiram manter e garantir a sobrevivência e o estudo dos filhos, assim como outras famílias semelhantes à nossa”, conta.
E é justamente esse lado da história que o livro revela, passando longe das biografias de pioneiros e da imagem de Londrina como terra de oportunidades. A obra apresenta uma cidade formada também por tropeiros, carroceiros, bucheiros, seleiros e até prostitutas.
O pai de Ney, o seleiro Zé Inácio, representa essa multidão de anônimos que ajudou a construir Londrina. Ao contar sua história, Ney presta uma homenagem a todos aqueles que ajudaram a forjar a cidade, sem reconhecimento oficial ou placa pública.
Uma Londrina em transformação
Em 1964, Londrina era muito diferente da cidade que conhecemos hoje, uma cidade jovem, com cerca de 135 mil habitantes (segundo censo de 1960), ainda marcada pela produção de café, com crescimento acelerado e uma periferia que começava a ser construída em meio às plantações.
O rádio ocupava um lugar central na vida das comunidades, influencia opiniões e alimentava sonhos. A televisão ainda era um objeto distante para a maioria da população. As crianças brincavam nas ruas – às vezes, inocentes, às vezes violentas. Os homens eram machistas, a traição masculina era comum e algo do que se orgulhavam e as mulheres eram submissas e praticamente nem protestavam em serem traídas.
Ney não suaviza nem romantiza esse passado. Pelo contrário, expõe, provoca e convida o leitor a refletir. Entre as histórias contadas no livro, estão episódios pouco comentados da cidade, como a passarela que pegava fogo na linha do trem, os bastidores da Estação Ferroviária, as movimentadas noites da zona do meretrício. É nesse contexto que uma prima de Kiko, visionária, decide abrir a própria “casa”, aconselhada pela mãe do menino, Conceição, uma mulher religiosa.
Também aparecem personagens folclóricos que a história oficial não destacou e que as novas gerações sequer conheceram, como o Prefeito da Vila Nova, o Diamante e o Equilibrista.
Todos esses contrastes trazem de volta uma Londrina pulsante, viva e, muitas vezes, cruel na história de Kiko, o garoto que foi proibido de entrar no Cine Ouro Verde, enquanto seus avós vendiam pipoca na porta.
“O menino que virava do avesso – Londrina 1964” é mais que uma história de família, é o retrato de milhares de migrantes que chegaram à cidade por uma vida melhor e acabaram apagadas dos registros oficiais. “É um misto de memória afetiva, crítica social e homenagem aos que nunca subiram no palco das comemorações oficiais”, define Ney.
Para completar tudo isso, a obra é acompanhada por uma playlist com músicas que embalaram aquele ano. O QR Code com a playlist será distribuído no lançamento do livro.
Quem é Ney Inácio

Ney Inácio nasceu na Vila Nova, em Londrina, em 1954. Filho de mineiros, formou-se jornalista na segunda turma do curso de Comunicação Social da Universidade Estadual de Londrina (UEL), em 1980.
Depois da formatura, tornou-se repórter de televisão e trabalhou nas TVs Coroados (atual RPC), Cidade (Rede Massa) e Vanguarda. Foi fundador da Rede Independência de Comunicação e também atuou como radialista nas rádios Londrina e Alvorada e como repórter do jornal O Estado do Paraná.
Sua carreira inclui passagens por diversas emissoras da Rede Globo: afiliadas de Maringá, Marília e Ribeirão Preto, TV Centro América, em Cuiabá, TV Verdes Mares, em Fortaleza, TV Rio Sul, em Resende (RJ), além da TV Globo e do SBT, em São Paulo.
Ney também trabalhou como ator em diversas peças de teatro em Londrina, com o então Grupo Proteu, e tornou-se autor e diretor de espetáculos de comédia em teatros de São Paulo.
Como documentarista, produziu filmes biográficos e também espetáculos musicais com grandes nomes da MPB, como Cauby Peixoto, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo, Agnaldo Rayol, Cláudio e Claudette Soares, entre outros.
No jornalismo, foi vencedor de três Prêmios Vladimir Herzog de Direitos Humanos e recebeu comendas das Assembleias Legislativas do Paraná e de São Paulo por serviços prestados na condição de jornalista.
Serviço:
Lançamento em Londrina – “O menino que virava do avesso – Londrina 1964”
Data: 22 de setembro de 2026
Horário: 19 horas
Local: Sesc Cadeião Cultural
Preço do exemplar – promocional por R$69
Ficha técnica
Autor: Ney Inácio
Editora: Kan
Primeira edição: 2026
Páginas: 394
ISBN: 978-65-86198-63-8
Coordenação editorial: Marcos Losnak
Edição: Marcos Losnak e Rogério Fischer
Revisão: Karen Debértolis e Rogério Fischer
Projeto gráfico e arte: Visualitá® Gestão em Design Estratégico
Capa: Ney Inácio
Fotos: Arquivo pessoal de Ney Inácio e Museu Histórico de Londrina

