Que palhaçada!

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No circo chamado Brasil, só quem já foi a “mulher das facas” sabe o que é viver na corda bamba. Em mais uma daquelas reportagens “vivenciadas”, para fugir das pautas normais, fui fazer parte de uma das atrações de um circo, que tinha acabado de chegar à cidade. Conversa vai, conversa vem, acerto com os empresários que vou fazer algo simples, pois quase todas as atrações exigiam treino. Participei de um dos números do palhaço. O número era aquele em que uma roda gira enquanto ele atira uma faca. Ou seja, fui ser “a mulher das facas”.

Ganhei um monte de ingressos, chamei os amigos e coloquei uma jaqueta bordada em lantejoulas, bem adequada à ocasião. Chega a hora do espetáculo, tensa e com vergonha (sim, eu tenho), subo ao palco e sou levada até a tal roda, local em que fui amarrada e uma venda foi colocada em meus olhos. Eu, que tenho enjoo só de pensar em rodar, tive que me segurar. O local todo em silêncio e eu só ouvia as batidas da faca ao meu lado, e as do meu coração. Claro que não era uma faca. Quando me “desvendaram “, quis entrar num buraco. Tudo combinado. Quando viram minha cara de espanto, o público veio abaixo, de tanto rir. Claro que contei a experiência. Com foto minha no jornal e tudo.

Foto: Raquel Santana

Como toda criança, cresci fascinada por circo. Morei em frente a um campo de futebol, local que abrigava os circos que vinham à cidade. Amava até descobrir que trocavam ingressos por gatos. Os bichanos viravam comida de atrações, como os leões. Minha paixão morreu junto com eles. Fiquei muito feliz quando proibiram os animais em espetáculos.

Lembro que uma vez o circo veio e quando foi embora, levou uma das moças de família da cidade. Foi um bafafá. O tempo passou e a menina não deu conta da vida mambembe e voltou pra casa. Ficou mal falada, coitada.
O circo exerce fascínio nas pessoas, desde que foi criado.

Tanto é que a palavra circo tem origem etimológica do latim circus, que significa “círculo” ou “anel”. O termo remete às arenas romanas, lugares onde se praticavam esportes e lutas.

O primeiro grande circo que se tem conhecimento foi o Circus Maximus, construído por volta do século IV a.C. A estrutura tinha capacidade para 150 mil pessoas e exibia corridas de carruagens, lutas de gladiadores, apresentações com animais ferozes e com pessoas exibindo talentos. Um verdadeiro “circo dos horrores”.

Foto: Raquel Santana

Mas foi apenas no século XVIII, na Inglaterra, que os circos ganharam as características modernas, com picadeiros apresentando os tipos de artes circenses que hoje conhecemos.

No Brasil o circo chegou no século XIX, junto com as famílias europeias. Aqui, o circo está muito relacionado com as comunidades ciganas, que levavam uma vida nômade, sempre se mudando de lugar. Havia apresentações ao público com atrações como ilusionismo e doma de animais ferozes.

Mas foram os palhaços que acabaram dominando a cena e ganhando protagonismo. Nunca foram presos por roubar a mulher do outro, quem bobeia ganha a sua cara e tem gente que até o descabela. E foi nas mãos de um desses que eu fui parar. Que palhaçada!

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Raquel Santana

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