Por Cassiano Russo, professor de Filosofia
Olho para o papel em branco, que também olha para mim. Encaro sua brancura por alguns minutos na tentativa de preenchê-lo, de dar-lhe vida. É muito mais fácil escrever quando estou deitado, quase dormindo, quando todas as narrativas se passam pela cabeça minha cabeça. Nessas horas reescrevo A Montanha Mágica, Os Irmãos Karamázov, Dom Casmurro e outras centenas de livros com a imaginação. Acontece, porém, que eles já foram escritos, e eu tenho que me contentar com meu esforço hercúleo de dar cores à vida num texto breve, muito curto, numa luta contra esse papel que me irrita no branco do seu vazio. Confesso que não suporto essa vacuidade de um papel sem palavras, que me bate um desespero ao ver o nada materializado em folhas virgens e sem uso, que eu preciso marcar meu estado de espírito nessa coisa alva para não passar vexame perante mim mesmo.
É que não gosto de papelão, só de papel, e com tinta, em folhas de livros, jornais e revistas, com o resultado do trabalho da tipografia, a dar forma ao mármore metafísico vendido em lojas de materiais escolares, sebos, bancas de jornal e livrarias, da finura de uma lâmina, que só corta alguma coisa quando nela são depositadas as palavras. Do contrário, a folha não me diz nada, embora eloquente em sua cor de propaganda de sabão em pó. Demasiada limpa para os pensamentos sujos do cronista. Por isso escrevo nesta coisa horrivelmente clara, para ver se o sujo um pouco com minhas palavras empoeiradas e barrentas. Eu gosto de sujeira, da sujeira da palavra. Mas bem pouca, se é que palavras grafadas “sujam” alguma coisa no papel, em vez de limpá-lo de seu mutismo imundo.
Paredes brancas também me dão nos nervos, daí as minhas estarem cheias de quadros. Quero alegria em minha casa, não quero a brancura entediante e existencialista, pois essas brancuras de paredes nada representam, e eu prefiro o colorido das naturezas mortas das pinturas emolduradas às paredes sem cor, que não estimulam o pensamento. Não sou simpático a sepulcros caiados, e as caveiras que neles estão também são brancas: antes o mármore escuro a esse alvo que me seca na sua vacuidade niilista. E se existisse um museu todo branco, com telas brancas – não duvido de mais nada em se tratando de artes plásticas -, não seria propriamente um museu, mas uma antessala do inferno, tamanha seria a chatice desse lugar, porque a cor branca é chata, limpa e sem graça. Umas paredes brancas encardidas até que são toleráveis, completamente brancas, não!
Nessas horas me lembro do Jackson Pollock, que pegava telas vazias e lhes tacava cores, numa abstração que me remete aos meus mais alegres sonhos: coloridos, vívidos, lisérgicos. Como escrevo, tento dar cores à minha “tela” por meio de palavras, embora eu não tenha a noção exata do que eu estou pintando. Sim, porque, no fundo, o escritor também é um pintor, cujo pincel é a palavra, que pode ser cinza, como a de Graciliano Ramos, e colorida, como a de Raduan Nassar. Os grandes escritores são assim mesmo, colorem o papel e o mundo, a não ser que se trate de um escritor abstrato, mas tão abstrato, que o seu livro não possua uma única palavra.
Essa minha observação é um tanto absurda, eu sei, mas não inteiramente disparatada, em vista do que se passa por aí, como certo livro, que vi uma vez na casa de um conhecido, que não é para ler, e sim para destruir – parece se tratar de um diário confeccionado justamente para essa função. E esse meu conhecido disse que era isso mesmo, que já não havia outra função nos livros senão a destruição, pois, segundo ele, tudo já fora escrito. Pobre criança de peito, que mal sabe ler nos seus trinta e poucos anos! Na verdade, o livro em questão não era um livro, mas um brinquedo com preço de livro. Ninguém em sã consciência vai rasgar A Comédia Humana, imagino.
Pois é, livros de verdade ajudam a colorir nossa visão preta e branca do mundo, dando-nos as nuanças mais variadas do nosso entorno, conferindo-nos novos graus de realidade, mas, para isso, é necessário escrevê-los, não rasgá-los.
Voltando às paredes e aos papéis em branco, esses só possuem alguma utilidade quando preenchidos, porque, em caso contrário, não passam de uma brancura mortuária, e precisamos mesmo é de luz. Por isso, não se contente com uma folha em branco, ou uma parede, na sua frente. Procure um sentido para essa falta de sentido do branco, coloque suas ideias, sentimentos, loucuras, tristezas e alegrias nele. Pinte a vida com as suas cores mais sinceras. Esse simples gesto, tão banal para alguns, há de lhe dar algum alívio contra a insignificância nossa de cada dia. Afinal, temos que dar cores à nossa passagem por este mundo, se não quisermos morrer abandonados aos nossos próprios demônios, às nossas paranoias que nós criamos ao longo dessa caminhada.
Portanto, não aceite o vazio do branco de uma parede, ou de um papel, na imensidão do cosmos. Pegue agora suas ferramentas e comece a pintar a vida. Garanto que você não vai se arrepender. Vamos lá! Criando nos humanizamos, pois nos tornamos mais gente e menos bicho.
Avie-se, leitor!
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