Quem nunca teve um membro da Polícia Federal batendo à sua porta? Eu já. Lembrei dessa história ao ver uma foto do antigo Valentino, e ela aconteceu em uma casa bem ao lado do bar. Numa tarde quente de verão londrinense, que se estendeu por meses a fio, com direito à intervenção da Corregedoria da Polícia Federal, assédio por parte do delegado e cenas de filme policial.
Tudo aconteceu quando eu e um amigo que já não está mais aqui, estacionamos a moto ao lado do bar quando do nada, um Fusca desce a JK a milhão, dá um cavalo de pau, as quatro portas se abrem e quatro sujeitos enormes descem fortemente armados gritando: Polícia Federal. Descemos da moto e de mãos para cima, fomos revistados. No meu caso, a minha bolsa. Enquanto isso, três deles arrombavam no chute a casa ao lado do Valentino. O policial que nos revistava grita para o delegado (fiquei sabendo que era depois): eles estão limpos. O delegado responde: então traga para serem testemunhas. Retruco que não quero ser testemunha de nada. Ele ameaça nos prender “como cúmplices”. Não tivemos opção.
Como é de costume neste tipo de operação, os caras chutaram porta, arrombaram quartos, guarda-roupa, reviraram gavetas, humilharam um morador da casa, tudo com o nosso “testemunho”. O mais incrível foi que eles acharam, depois de colocar a casa abaixo, um potinho plástico (daqueles de filme fotográfico), com galhos do que supostamente era maconha. A dona do quarto nem na casa estava. E foi tudo. Levaram o menino preso e ficamos de testemunhas. Claro que tivemos que dar endereço e tudo o mais para o Boletim de Ocorrência.
Achei que a história tinha acabado, até que comecei a ser assediada pelo delegado. Com a desculpa de correr no Zerão, ele começou a ir na minha casa, que era próxima à pista. E ali começou um inferno que só quem já foi assediada, sabe. Foi bem nesse período que comecei a trabalhar no extinto jornal Paraná Norte. O cara ligava e a cada chamada dava um nome. Eu atendia e era ele! Quanto mais eu me esquivava, mais ele assediava. Até que um dia parou.
Já tinha até me esquecido da história quando começamos a prestar atenção que na esquina de casa, sempre tinha um homem parado, nos observando. Todo mundo ficou com a pulga atrás da orelha. Mas como não rolava nada ilegal, achamos que não era com a gente. Até que a bomba estourou. Fui intimada a depor na Corregedoria Geral da Polícia Federal. Motivo: meu depoimento afirmando que fui “obrigada” a ser testemunha. A defesa usou meu argumento e o caso foi para a Corregedoria. O jornal cedeu o advogado da empresa e lá fui eu.
Sabe aquela janela de vidro usada para reconhecimento de bandidos? Pois tive que apontar os agentes que participaram da operação através de uma daquelas. Um tempo antes, tinha pegado carona para a UEL com um dos agentes. Fui direto nele, cujo “castigo” foi ser transferido para Foz do Iguaçu! Mais conveniente, impossível. Os outros não lembro o que aconteceu.
Fiquei sabendo das transferências porque, pasmem, o delegado parou de me assediar porque estava saindo com uma vizinha, uma atriz que frequentava nossa república. Pedi proteção na Corregedoria e deixei claro para o delegado, casado, que sabia da treta dele com a vizinha. Acho que estraguei o namoro dos dois, pois ele sumiu de circulação.
E a batida dos federais ao lado do Valentino, no que deu? Não deu em nada. O estudante foi absolvido graças ao delegado galinha e ao meu depoimento. Definitivamente, a lei está acima de tudo e de todos, inclusive dos bonitos. Porque olha, o delegado era um pedaço de mau caminho.
Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!
Foto: Memes da internet

