Eu sou neguinha?

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Raquel Santana (*)

Sou uma mistura de mouro com índio. Por parte de mãe até que os árabes não se misturaram. Mas por parte de pai, é uma verdadeira Torre de Babel. Minha bisavó veio direto de uma tribo do litoral norte do estado de São Paulo. Sua filha Benedita, minha avó, conhecida como “Filhinha”, tinha menos de 1,50 metro, e eu sou a cara dela. Casou-se com seu Higino, 1,80 metro, loiro de olhos azuis, uma mistura de italiano com português. Os dois eram servos de Deus e minha lembrança é deles indo para o culto de mãos dadas. Tiveram dez filhos. Todos a cara de minha avó. A genética cabocla predominou. Alguns deles, como o meu pai, herdaram os olhos claros europeus de seu Higino.

A mistura moura/cabocla do meu pai Itamar e a árabe da minha mãe Therezinha gerou quatro filhos completamente distintos. Enchia a paciência da mãe perguntando quem eram os vizinhos quando a gente nasceu. Meus irmãos – pelo menos fisicamente – são completamente diferentes de mim.

Minha irmã mais velha, por exemplo – é alta, loira e de olhos verdes. Como sou a caçula e por ter pele morena, brincavam que eu era a “raspa do tacho”. Um tacho que queimou. E ganhei todos os apelidos preconceituosos permitidos na época. Macaca, maquica e negrinha foram apenas alguns. O racismo nem era velado. Era escancarado mesmo.

Quando a gente é criança, tudo o que queremos é ser aceitos. Mesmo não entendendo direito. Hoje tenho ciência dos fatos. Não poder entrar na casa do amigo e ter que esperar do lado de fora ou não ser convidado para o aniversário. No meu caso, além de tudo, tinha uma mãe divorciada e sem muitos recursos.

Eu não entendia direito até sofrer um caso de preconceito explícito, que foi parar na delegacia. Já adolescente, fui a um baile no clube municipal. Junto com uma amiga, cansadas de tanto dançar, sentamos no degrau que separava a pista de dança das mesas no salão. O prefeito da época veio nos tirar do lugar com muita falta de educação. Respondemos e ele, do alto de sua autoridade, me expulsou do lugar, me chamando de “negrinha” e me proibiu de pular o Carnaval naquele ano. Só eu. Minha amiga, branca, saiu ilesa da situação. Minha mãe não teve dúvidas. Foi na delegacia e invocou a Lei Afonso Arinos, a única punitiva na época.

A Lei Afonso Arinos, segundo a Wikipedia, foi proposta pelo jurista Afonso Arinos de Melo Franco e foi promulgada por Getúlio Vargas em 1951. Foi a primeira lei a proibir a discriminação racial no Brasil.

A lei prevê igualdade de tratamento e direitos iguais. Nenhum estabelecimento, por exemplo, pode maltratar ou deixar de atender o cliente por preconceito de cor de pele. Nesse caso, o agressor e o responsável pelo estabelecimento comercial podem sofrer um processo de contravenção. Em caso de funcionário público , a pena prevista é a perda do cargo.

O prefeito tremeu na base, pois todas as alternativas se aplicavam a ele. A turma do “deixa disso” entrou em ação e os ânimos se acalmaram . Ele chegou a me liberar para o Carnaval, mas acabei não indo. Perdeu a graça. Fiquei muito constrangida porque a cidade toda ficou sabendo. Cidade pequena não tem paredes.

Naquela época, racismo era considerado apenas contravenção. Foi somente em 1989 que virou lei com direito a punição em regime fechado.

Em uma semana em que o racismo está em debate mundo afora, me vieram essas histórias na lembrança.

Em um país com passado escravagista como o nosso, o racismo estrutural está tão arraigado, que as pessoas nem se dão conta ao praticá-lo. Mas somos seres humanos em constante construção.

Anos depois de sofrer preconceito, encontrei meu agressor. Ele havia sofrido um acidente de moto e perdeu uma perna. Lembro de cruzar meu olho com o dele e da tristeza daquele olhar. Fiquei arrasada. Preferia que a justiça tivesse sido feita pela lei dos homens.

O Brasil é um país em que mais da metade da população se declara negra ou parda, segundo dados do IBGE. E é essa mesmo população a mais exposta à violência e ao preconceito. Então, é fundamental discutir o racismo, seja ele estrutural ou explícito. E passou da hora de revermos conceitos, vocabulário e atitudes. Só quem sofre na pele, sabe.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Foto: Filhinha e Raquel – Acervo Pessoal

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