Eu já tropecei na cruz

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Tem gente que já jogou pedra, outros que cuspiram e até mesmo quem já colou chiclete na cruz. Eu tropecei mesmo. Toda época de Páscoa, lembro dessa história.

Foi na apresentação do grupo Chronos de Teatro, em 2007, dentro do Festival de Teatro de Curitiba. No Largo da Ordem, cheio de gente. Mico em público.

A peça era “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes. Escrita em 1960, foi encenada pela primeira vez pelo TBC – Teatro Brasileiro de Comédia. Dois anos depois virou filme, dirigido por Anselmo Duarte.

Foto: Raquel Santana

A história se passa em Salvador. Nela, o personagem principal, o sertanejo Zé do Burro, deseja levar uma grande cruz até o interior da Igreja de Santa Bárbara, para pagar uma promessa.

Só que ao longo do caminho, sofre com as mentiras, corrupção e com a ganância da sociedade. O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Único até hoje no Brasil a levar o prêmio.

Em 1988, a estória virou minissérie na Globo, adaptada pelo próprio autor e dirigida pela renomada Tisuka Yamazaki.

A princípio tinha doze capítulos, mas foi censurada e baixou para oito. As referências políticas, as menções das lutas dos sem-terra e posseiros e a reforma agrária foram suprimidas, descaracterizando o personagem.

Zé do Burro tem esse apelido por causa de seu fiel escudeiro, o Nicolau. Vítima de um acidente, Nicolau fica à beira da morte, e Zé faz uma promessa a Santa Bárbara para que ela salve o animal: carregar uma pesada cruz de sua roça em Monte Santo, interior baiano, até a igreja de Santa Bárbara, em Salvador.

Foto: Raquel Santana

O conflito se dá quando o padre, ao saber que a promessa foi feita num terreiro de Candomblé (no sincretismo, Santa Bárbara é o orixá Iansã), se recusa a abrir a porta.

A estória me lembra um pouco a do calvário de Jesus Cristo. A própria promessa tem um pouco de autocomiseração. A peregrinação, o flagelo e os conflitos políticos. E claro, a cruz.

E hoje, quando celebramos a Páscoa, também é época de lembrarmos o seu significado. Páscoa é tempo de renovação.

A data é a principal celebração do ano litúrgico cristão e também a mais antiga e importante festa cristã. Eu não sabia, mas é ela quem determina todas as demais datas das festas móveis cristãs.

O domingo de Páscoa marca o ápice da Paixão de Cristo e é precedido pela Quaresma. Teoricamente, um período de quarentena, jejum, orações e penitências.

Para os cristãos, nem é preciso tropeçar na cruz para pagar os pecados.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Raquel Santana

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