Chegadas e partidas

rodoviária-de-londrina

Raquel Santana (*)

Lugares públicos sempre foram um prato cheio para quem gosta de escrever. Quando resolvi abraçar uma vida profissional e investir nos estudos, fui estudar inglês na cidade vizinha a minha, já que a pequena Boa Esperança do Sul não tinha nenhuma escola de idiomas na época. Pegava o ônibus todos os sábados para estudar na Fisk, em Araraquara.

Boa Esperança ainda não tinha rodoviária e naquela época, os pontos de chegada e de partida se localizavam nas praças da cidade. Pegava o primeiro ônibus, saia com o dia ainda escuro. A cidade era tão grande, que naquele horário conseguia ouvir o coletivo trafegando pelas ruas. Como morava próximo à segunda parada, quantas vezes não dormi pronta e levantei direito para o ponto. Dava tempo certinho. Depois, era só continuar o sono na viagem.

Para voltar para casa, muitas vezes tive que fazer hora na rodoviária. E meu passatempo predileto era matar o tempo imaginando histórias com os personagens que transitavam pelas plataformas. Por ser um polo, Araraquara é uma cidade rodeada de várias pequenas cidades e distritos. Um polo agrícola, rico, cuja economia gira em torno das usinas de cana de açúcar e do cultivo da laranja. Então, além de muito dinheiro, também tem muita gente simples e trabalhadora. A rodoviária conseguia reunir toda essa fauna. Ficava observando e criava toda uma estória em cima de cada personagem.

Rodoviária também é um lugar de chegadas e partidas. Tem quem esteja feliz por estar chegando e triste por estar indo embora. Tudo estampado no rosto de cada um. Inclusive, no dos casais apaixonados, daqueles que quando o ônibus parte há uma despedida dramática, com direito a mãozinhas na janela e corrida para acompanhar do lado de fora. Construía toda uma estória mental, imaginando onde se conheceram, como se apaixonaram, como viviam. Cheguei a ter um caderno para anotar. Com o tempo, deve ter ido embora em alguma faxina.

Cheguei em Londrina em 82 pela Viação Garcia, empresa que faz a conexão entre Araraquara e Londrina. Nos anos 80, a rodoviária ainda ocupava o prédio onde hoje funciona o Museu de Arte de Londrina. O prédio, um clássico da arquitetura da década de 50, foi projetado pelo arquiteto Villanova Artigas e hoje é tombado. Era pequena e muito movimentada. No período de férias, ou mesmo nos feriados, lotava de estudantes retornando para suas cidades de origem.

Não lembro como começou, mas íamos em turma despedir de quem ia viajar. E fazíamos o mesmo com quem chegava. Tudo com direito a música, batidas de panela, cartazes e gritaria. Uma vez fomos buscar uma amiga na rodoviária com megafone. Daqueles que se usam em passeata. Imagina a vergonha. E o tanto que rimos. Foram chegadas e partidas inesquecíveis, daquelas para entrarem na história.

(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina.

Foto: Museu Histórico de Londrina

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