Raquel Santana (*)
Essa semana li uma nota na Veja sobre uma senhora reclamando que, devido a quarentena, não tem aonde usar seus 500 pares de sapatos de grife. Para os tempos em que vivemos, um absurdo. Em outros, também. Mas devo confessar que já fui uma centopeia, dessas de ter uns 30 pares para chamar de seu, nem 10 por cento da referida senhora, mas muito para quem só tem dois pés. E já tive tanta roupa que precisei de dois armários. Hoje, trancada em casa, tudo o que eu quero são meus pijamas e pantufas. Não preciso de mais nada.
Aproveitei o isolamento e estou me livrando dos excessos. Em todos os sentidos. Materiais e espirituais. Fazendo a limpa mesmo. As roupas e sapatos a gente doa. O resto, jogamos para o universo, sem expectativa de devolução.
A primeira vez que me dei conta que precisava de pouco para viver foi quando morava em uma cidade e trabalhava em outra. Passava metade da semana em cada uma. Como vivia para cima e para baixo, chegou uma hora em que a minha vida se resumia a uma mala. E nela só cabia o essencial. Foi bastante educativo.
Mas confesso que ainda gosto muito de roupas e sapatos. Não por exibicionismo ou vaidade. Quando se é a última de quatro irmãos em uma família pobre, dá para entender. As roupas eram reaproveitadas de cima para baixo. E lembro de ter apenas um par de chinelos e um sapato “de domingo”. Sonhava com modelitos que via nas revistas e na televisão. Então, quando pude, acumulei. Mas como já sou adulta, superei.
E essa quarentena tem me ajudado a rever vários conceitos, entre eles, o por que acumulamos. Roupas, pertences, mágoas. Muito tempo para pensar, né, minha filha?
Decidi que não vou acumular mais nada. Separei livros, CDs, DVDs, roupas, sapatos, utensílios de cozinha. Encaixotei (quase) tudo e agora espero o tempo passar e poder doar para quem precisa. Enquanto faço isso, vou pensando na vida. O tempo ganhou outro sentido, a vida outro significado. Junto com aquele filme vão-se traumas, gente tóxica e mal amada, amores não resolvidos. Tudinho encaixotado. Prontos para serem colocados para fora de casa e da minha vida. Recomendo.
(*) Jornalista radicada em Curitiba mas apaixonada por Londrina
Foto: Pixabay

