A pandemia também veste máscara

pistola

Quando eu tinha oito anos, fomos morar em frente ao Estádio de Futebol Jamil Tannuri, homenagem ao tio da minha mãe, meu tio-avô, que foi prefeito da pequena Boa Esperança do Sul. Sei com certeza que tinha essa idade, porque minha vizinha, a Izabel, me disse que era hora de andar de blusa, pois eu estava ficando “mocinha“ e em breve meus peitos cresceriam.

Naquela época vivia livre, leve, solta e só com a parte de baixo das roupas numa cidade de calor infernal. Corri para casa cheia de medo e vivia conferindo se meus seios estavam aumentando de tamanho. Magra que eu era, precisei viver mais oito anos para ter um par de fato.

No campinho em frente de casa, além das peladas aos domingos, de vez em quando rolava um circo. Daqueles com animais. Levei um tempo para associar a chegada deles com o sumiço dos meus gatos. Até descobrir que trocavam os bichos por ingressos com a molecada. Nunca mais quis ir embora com eles. Sonhava com uma vida nômade até ver os meus animais virarem comida de leão.

Também vem do campinho uma das lembranças mais remotas da minha vida. Era uma tarde de chuva e, junto com meus três irmãos, fomos “esquiar” na grama. O “esqui” era uma bacia de alumínio em que foi amarrada uma corda. Um sentava e o resto puxava. Quando voltamos para casa, surpresa. Os quatro estavam doentes. Com rubéola. Foi armado um verdadeiro hospital de campanha em casa. Havia um surto da doença na cidade.

Cidade pequena, tem muitas crendices. Ensinaram para minha mãe uma simpatia que era colocar em nós uma roupa vermelha para as bolhas secarem mais rápido. Como eu não tinha nenhuma, alguém emprestou uma em que cabia duas de mim. Ganhei imediatamente o apelido de “Maria Mijona”.

Minha mãe, que trabalhava no centro de saúde da cidade, ficou muito preocupada. Sempre manteve nossas vacinas em dia. Acredito que naquela época, ainda não tinham adotado o método do reforço. Ela não conseguia entender como nos contaminamos. Em casa, quando um adoecia por doenças contagiosas, todos adoecíamos juntos.

Não consigo entender as mães que não acreditam em vacinas. Como filha de uma agente de saúde, isso sempre foi muito claro em casa. O Brasil é um dos poucos países no mundo a dar o benefício da vacinação de graça. Então, quando surgia algum surto, minha mãe ficava indignada. Fazia parte de seu trabalho educar as mães a manterem as vacinas em dia.

Naquela época, era hábito as campanhas de vacinação em massa nas escolas. Lembro do pátio da minha, cheio de crianças em fila para serem imunizadas. Nessas ocasiões, a aplicação era feita por um aparelho muito parecida com um revólver, por isso apelidado de “revolvinho”.

A pistola injetava a vacina à vácuo, causando apenas uma pequena ardência. Muito melhor e mais segura do que injeção. As crianças tinham pavor! Sempre fui a primeira da fila da vacinação, afinal era a filha de quem estava aplicando. Nunca tive medo. Sempre soube que o benefício era maior do que a dor.

Foi nesse período escolar que tivemos uma vacinação em massa contra a meningite. Chegou tanta vacina no posto de saúde, que foi preciso os funcionários levarem material para casa, pois não havia geladeira suficiente para a sua conservação. Aliás, no congelador de casa sempre havia um isopor com medicamentos. Naquela época, os protocolos eram menos rígidos e o que importava era não perder o produto por falta de estrutura.

A campanha foi necessária pois havia um surto da doença. Em plena ditadura militar e com a economia a mil, o governo tentou esconder o problema da população, já que não havia vacinas suficientes. No lugar de informar, os militares preferiram omitir. A um ponto que ficou difícil esconder.

A epidemia estava concentrada no estado de São Paulo e aconteceu entre 1971 e 1974. No total, foram 12.330 casos e 900 mortes pela doença somente em 74. Quando chegou nesse número, os militares importaram a vacina. Tirando a parte da importação (já que não existe vacina contra a Covid-19), qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência.

Em nossa cidade, uma criança morreu da doença. Cresci com medo de contaminação. Qualquer enxaqueca, ligava o sinal de alerta. Pois foi no meu aniversário de 38 anos que baixei no hospital com todas os sintomas. Os principais são dor de cabeça, vômito e nuca rígida. Tinha todos. Como nasci num feriado, só tinham os residentes no atendimento de urgência.

Me vi cercada por seis médicos jovens e lindos, mas que não chegavam a um consenso. Foi preciso chamar a chefia para o diagnóstico de, pasmem, enxaqueca. O vômito era provocado pela enxaqueca que por sua vez, me imobilizaram de dor. Foi receitado uma Neosaldina. Meia hora depois bati um pratão de comida e segui feliz da vida.


Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Reprodução internet

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