A era jurássica do jornalismo

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Dias desses um amigo jornalista e ex-chefe fez um post saudoso no Facebook, lembrando uma época do jornalismo que não existe mais. Um tempo em que a redação era uma balbúrdia, com telefones tocando, gente falando e o tec-tec ensurdecedor das máquinas de escrever não tiravam a concentração de ninguém. Jornalismo raiz, cujas fontes de pesquisa eram os especialistas no assunto, entrevistados pessoalmente.

Naquela época, para se validar uma entrevista, usava-se um gravador se a conversa era no tête-à-tête. E por telefone, fazia-se uma gambiarra, a famosa “chupeta”, no aparelho. O apelido veio da técnica usada para carregar baterias de carro, já que um cabo ligava o telefone ao gravador. Sim, era jurássico. Sim, era o que chamo de “jornalismo raiz”. Sou da última turma.

Com a chegada da internet, as redações ficaram mais silenciosas e houve uma verdadeira revolução na maneira de se apurar a informação. Não sei se ficou pior, ou melhor. Só ficou diferente.

Quando comecei no jornalismo, ainda estudante da UEL, escrevíamos em laudas pautadas. Tenho algumas guardadas até hoje. As páginas do jornal eram diagramadas à mão, as matérias passavam pelo editor, chefe de redação e diretor, antes de serem publicadas. Muitas delas voltavam irreconhecíveis para a composição, que virava e mexia tinha que “decifrar” o que estava escrito.

Ainda bem que tinha uma equipe de revisão, formada em português. Esse departamento nem existe mais nas redações. Para quê, se é só passar o corretor e está tudo certo? Nem sempre, às vezes algumas delas até viram memes.

Trabalhei em um jornal, o extinto O Estado do Paraná, cujas reportagens eram redigidas com duas cópias, usando o papel carbono de impressão do fax. Tenho dó até hoje de quem ficava com a última cópia. Imagine só, eram três laudas e dois carbonos enfiadas nas velhas máquinas Remington.

Imagine um lugar com 20, 30 pessoas, todos teclando ao mesmo tempo. Fora as dezenas de telefones que tocavam no mesmo ritmo. Música para os meus ouvidos saudosos. Um grande exercício de concentração.

Foi em 1990, ao voltar de licença-maternidade, que tudo mudou. Cheguei na redação e no lugar das velhas máquinas, vários PCs. Daqueles que, para a gente ligar, tinha um milhão de procedimentos e a tela era preta. No WordPress, as letras eram verdes. Não tinha imagem, só o programa de texto, mesmo. Na época, eu era pauteira e portanto, a primeira a chegar no trabalho. E era minha responsabilidade ligar o servidor central. Que tinha uma sala só para ele. Tinha sequência para colocar tudo em funcionamento. E se errasse, podia perder arquivos. Lembro de ir com anotações da ordem para ligar os botões. Hoje, as notícias são enviadas direto para e do celular. Quanta evolução, não é mesmo?

A primeira vez que tive contato com a internet foi na casa de um colega jornalista. A conexão era por discagem telefônica e ele falou com um amigo em Minas Gerais. Era a era paleontológica das redes sociais.

Hoje em dia não consigo mais imaginar o jornalismo sem tecnologia. E acredito que a evolução da notícia vai mudar mais ainda. Por um lado, ganha o leitor, que cada vez mais tem acesso à informação praticamente em tempo real e na palma da mão. Por outro perde a profissão, cada vez mais centrada no factual. Sinto falta das grandes reportagens, aquelas feitas com a paixão que nenhum Google oferece.

Raquel Santana

Já foi jornalista, acha que é fotógrafa, mas nesses tempos de Covid-19 ela só quer sombra e água fresca no aconchego do seu lar. Vendo seriados, óbvio!

Foto: Tetyana Kovyrina no Pexels

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Respostas de 2

  1. Essa matéria me fez viajar no tempo também.
    Eu trabalhei durante muito tempo como datilógrafa.
    Era um tempo de boa música, grandes novelas, shows, brincadeiras dançantes na casa de desconhecidos, os namoros eram mais românticos, música lenta no Balancê. Não existe mais música lenta pra gente dançar coladinhos.
    A infância era mais vívida.
    Os jovens eram mais idealistas.
    Saudades do JL – Jornal de Londrina!
    A frivolidade, a modernidade líquida tomou conta de tudo e de todos.
    Espero que, a pós-pandemia a humanidade repense sobre sua desumanidade.

  2. -As laudas pautadas da Última Hra, começavam com a Logomarca do Jornal na cebeça;
    -As relações eram pessoais, olho no olho.”Deixe eu ver o que você anotou aí. Não escrever mentiras que eu não disse hein?”, falava o entrevistado com autoridade.
    – A revsão, ah a revisão. Os revisores eram especialistas, bons em portuiguês e em outros idiomoas, de preciso fosse.
    Pergunto agoira: oi jornalismo de hoje tem qualidade ou alguma semelhança com o do passado? A formação dos jornalistas de hoje, corresponde à necessidade? Acho que não.
    Há poucos dias vi na poderosa Glogo, hoje Lixo, um êrro de Português na Chamada da Manchete que me deixou arrepiado e me fez mudar imediatamente de canal. Triste.
    Nossas máquinas de escrever na Sucursal da UH de Londrina e em todas as sedes da UH, eram Olivetti – Lexington 80. Como a Sucursal da UH de Londrina fechou, amanhã, 1º de abril de 1964, a Folha de Londrina comprou as máquinas Olivetti Lexington 80 – Olivettis fabricadas no Uruguai, todas elas e ainda levou de quebra quase todos os jornalistas para lá. Decisão de João Milanez – “Podem ser comunistas, mas são todos bons jornalistas”!
    Eita!!! Tempo maravilhoso, do jronalismo bem feito e bem conferido e revisado.

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