Por Ana Paula Barcellos
Cheguei para o café e o balcão estava num silêncio até estranho, daqueles de manhã preguiçosa. Recebi um coro de “bom dia” meio distraído, quase automático. Mas Seu Zé se levantou para pagar, me olhou por cima dos óculos e soltou a bomba:
— “O laranjão falou mal do Papa!”
Dois ou três balançaram a cabeça, concordando em silêncio, como quem já tinha discutido o assunto antes de eu chegar. Peguei o celular ali mesmo, abri a notícia e li.
Não bastasse o escândalo, o Laranjão ainda teve a pachorra de publicar uma imagem gerada por IA, ele próprio vestido como Jesus, mão na cabeça de um doente, rodeado de bandeiras e militares, posando de messias curandeiro. Um absurdo delirante, daqueles que a gente pensa que é meme de grupo de WhatsApp e descobre que saiu da conta oficial. Porque se brigar com o Papa já é coisa de outro mundo, agora o homem se fantasia de Cristo (ou Papa, cada um vê de um jeito) pra responder? Não aguentei:
— “Também… ele precisa tentar abafar o escândalo dele com pedofilia e tráfico sexual, né? Uma guerra inteira não foi suficiente!”
Laranjão perdeu a noção ao se vestir de Papa

Foi como colocar pimenta no café.
De um lado e de outro, opiniões divididas sobre Trump, sobre o novo Papa Leão XIV, sobre quem estava certo na briga que vazou do outro lado do mundo. Mas numa coisa todo mundo ali no balcão concordava: como é que um ser abjeto, que simboliza tanta coisa ruim, consegue chegar até aqui, perturbar o nosso café, a nossa rotina quietinha, aqui no Norte do Paraná?
Alguém completou:
— “A gente aqui, cuidando da nossa vida, tentando melhorar o pedacinho de chão que é nosso… e vem gente de fora arriscando tudo, envolvendo até quem tá longe pra caramba.”
Daí a conversa engatou, esquecendo um pouco o Trump e o Papa. Falamos do clima que anda castigando, do calor que frita a gente aqui porque lá longe a ganância e o descompromisso dos grandes decidem por nós. Falamos de como é fácil se sentir pequeno, insignificante, quando decisões tomadas em salas com ar-condicionado afetam o nosso suor, as nossas árvores, o ar que a gente respira. E do desânimo que bate quando a gente questiona se vale seguir lutando tanto.
— “Mesmo assim, eu acho que vale a pena. Vale a pena lutar pelas árvores daqui, pelas melhorias climáticas, pelo nosso bem-estar. Nosso pedaço de chão importa. É preciso ter esperança. E viver é lutar!”
É isso. Viver é lutar. Ponto pro Rogério. Não é frase de efeito, não. Porque no fim das contas, o mundo pode estar pegando fogo lá fora, presidentes podem brigar com papas, guerras podem ameaçar virar globais… mas aqui, no nosso canto, a gente ainda precisa garantir o nosso.
Bora lá então que hoje também é dia.
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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