Por Ana Paula Barcellos
Londrina, fevereiro de 2026. O calor já aperta como se o asfalto tivesse decidido virar chapa de pastel, e o Carnaval chega pisando firme, trazendo junto o que há de mais tradicional na nossa cidade: o bloquinho dos tios do zap. Meus amigos motoristas de app confirmam: os grupos da família no zap estão fervendo mais que panela de feijoada no sábado. Mensagem atrás de mensagem, áudio de três minutos com respiração ofegante, e a certeza absoluta de que “esse ano vai ser pior que 2020”.
O alvo da vez? Um vírus “indiano” que, segundo o zap, já está pulando de bloco em bloco. Dizem que ele é o Nipah — sim, é esse mesmo, surgido na Malásia nos anos 90, transmitido principalmente por morcegos e porcos, com alguns surtos localizados na Índia (dois casos confirmados em janeiro em Bengala Ocidental, nada de pânico global). A OMS acompanha, classifica o risco de disseminação internacional como baixo, e não há nenhum alerta de pandemia. Mas no zap? Ah, no zap ele já mutou: transmite pelo ar, dá cauda azul com bolinhas verdes, e só máscara não adianta porque “ele entra pela unha do pé”. Tem gente jurando que a gangue da seringada vai soltar agulha no bloquinho, que os clubes estão contaminados, e que, se você pular muito, acorda com antenas.
E não para por aí. Tem o clássico do portal que abre no Carnaval: extraterrestres de Andrômeda descendo pra curtir axé em Londrina. Evite matagais (difícil na cidade, eu sei), plantações de milho lá pro lado do Aeroporto, descampados às 3 da matina, senão vira abduzido VIP e volta contando que dançou forró com ET de três olhos. A bruxa tá solta, o bicho tá pegando, e o diabo tá no detalhe — ou no grupo do zap.

Não é de hoje que o Carnaval carrega essa demonização pesada. Desde a Idade Média, a Igreja Católica via a festa como uma válvula de escape antes da Quaresma — o “adeus à carne” —, mas sempre com desconfiança. As origens são pagãs, tudo começou com as antigas Saturnálias romanas ou nas festas dionisíacas gregas, onde se invertia a ordem social, escravos mandavam nos senhores por um dia, e o caos reinava.
Quando o cristianismo chegou, tentou domesticar tudo: transformou em despedida da carne antes do jejum, mas nunca engoliu bem a bagunça, as máscaras, a inversão, o excesso. No Brasil, o entrudo português virou nossa marca, misturou com batuque africano, virou samba, frevo, axé — a festa mais brasileira que existe, sim. E mesmo assim, toda vez que rola, alguém grita, no zap, “é do demônio!”, como se a folia fosse o portal pro inferno em vez de só gente querendo esquecer os boletos por quatro dias.
Nem abra o zap

A coisa mais triste, mais cafona, é querer meter o dedo na alegria alheia: coisa mais feia quem demoniza tudo (o bloquinho vira orgia satânica, o som alto vira chamado pro mal). Cada um no seu quadrado. Quem é de igreja vai pro retiro, pro acampamento, pra vigília de oração. Quem é de rua vai pro bloco, pro trio, pro chão de areia com cerveja quente. Eu, sem uma gota de energia sobrando no corpo, vou ficar em casa mesmo — janela aberta, ventilador no talo, ouvindo o eco da bateria lá da rua. Cantem alto, por favor. Eu canto junto daqui, desafinado e feliz. Carnaval é alegria e é favor não tumultuar. De preferência, nem abra o zap!
Ana Paula Barcellos

É graduada em História pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Mestre em Estudos Literários, integra coletivos culturais da cidade e é agente cultural.
Sacoleira e brecholenta, trabalha com criação de joias artesanais e pesquisa de tendências, e escreve também a coluna de Moda deste jornal. Siga o Instagram @yopaulab
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